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Nós e a Terra


Ninguém gosta do inexorável, nem da palavra... O inexorável nos coloca em contato com nossos limites e nossa impotência e somos uma espécie industriosa, "fazedora", gostamos de realizar coisas...

Os povos primitivos sabiam disso. Sabiam também que se essa era nossa maior virtude, era provavelmente nosso grande pecado. Os gregos chamavam "hybris" essa onipotência exagerada dos humanos. E por causa dela, ganhamos inúmeros puxões de orelha dos deuses.
Sobretudo quando nos sentíamos separados do restante da Criação e resolvíamos fazer tudo do nosso jeito, colocando em perigo o delicadíssimo equilíbrio da Teia da Vida...

Hoje, Dia do Meio Ambiente, resolvi consultar os sábios antigos e achei essa história dos Maias, habitantes ancestrais da Mesoamérica sobre a destruição da raça dos Homens de Madeira.

Diz assim...

Havia muito, muito tempo que os deuses tentavam em vão criar uma espécie de homens que, ao contrário do restante da criação, pudessem falar, reconhecer e reverenciar o caráter sagrado do Universo. Na primeira tentativa fizerem esses seres do barro e foi um desastre. Os Homens de Lama eram, na verdade, muito mal-feitos. Mal podiam murmurar palavras desconexas e sequer conseguiam se reproduzir. Acabaram se extinguindo. Na segunda, experimentaram criar os homens com madeira, mas tampouco haviam obtido bons resultados.

Ao contrário, os Homens de Madeira, resistentes e trabalhadores, rapidamente povoaram a Terra, mas subjugaram todos os demais seres e usaram todos os recursos da terra abundante para seus próprios fins. Embora pudessem falar, as novas criaturas eram desprovidas de compaixão, de empatia e também não conseguiam honrar as origens sagradas da vida. "Não havia nada nos seus corações e nada nas suas mentes que lembrasse sua casa e seu criador e eles simplesmente faziam o que queriam".

Os deuses se aborreceram com tanta arrogância e decidiram castigar suas criaturas. Reuniram-se num conselho o Coração do Céu, o Coração da Terra, o Trovão e a Tempestade, a Serpente Emplumada, todos... para bolar um plano.

Primeiro, o Coração do Céu, mandou um dilúvio cobrir a terra de lama. Dia e noite, além da chuva, fazia descer do céu tempestades de resina, negra e venenosa. Mas não bastava apenas destruir as criaturas, era preciso que elas soubessem "por quê" estavam sendo castigadas para que seu exemplo pudesse ajudar os próximos que ocupariam seu lugar.

Então os deuses deram a todas as coisas mudas o poder da fala. E foi um desastre como nunca se viu. Objetos e animais, enfim, puderam dizer da sua indignação e vingar-se dos humanos. "Nós não falamos e nunca recebemos nada de vocês", diziam os cães avançando nos seus antigos donos. "Como vocês não compreenderam?", gritavam as árvores desabando em cima das assustadas criaturas. "Dor, é tudo que vocês nos ofereceram"...

A destruição foi total, ninguém sobrou... ninguém? Nâo, sobraram os macacos, meio animais, meio homens, encarregados pelos deuses de encarnar para sempre a conexão divina que existe entre todas as coisas, para que ninguém nunca mais esquecesse...

Essa é a história que contam os Maias, herdeiros de um dos povos mais antigos da América, que ainda vivem, espalhados pela Guatemala, Honduras, El Salvador e Belize. É uma história muito, muito antiga, registrada no "popol Vuh", um dos poquíssimos registros que sobreviveram aos conquistadores.

Cá prá nós, não parece que foi escrito hoje?


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Adília Belotti é jornalista e mãe de quatro filhos e também é colunista do Somos Todos UM.
Sou apaixonada por livros, pelas idéias, pelas pessoas, não necessariamente nesta ordem...
Em 2006 lançou seu primeiro livro Toques da Alma.
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