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O desejo incontrolável


Ao entrarmos em contato com um objeto, a primeira coisa que fazemos é um pré-julgamento a seu respeito: agradável, desagradável ou neutro. Logo em seguida, ao experienciá-lo, vivenciamos o sétimo elo, o sentimento interdependente, no qual iremos constatar se o objeto é, de fato, agradável, desagradável ou neutro. Conforme a reação de nossa experiência em relação ao objeto, iremos gerar anseio por tê-lo mais perto ou mais longe de nós. Em nossa mente, tudo isso ocorre muito rápido: vejo, gosto, desejo. Ou então, toco, não gosto e sinto aversão.

Tudo isso pode parecer muito simples, mas toda a complexidade do sofrimento humano está aí: o que desejamos ou rejeitamos resulta de uma cadeia de projeções mentais que começam a partir de um pré-julgamento. Como diz Lama Yeshe em seu livro A Energia da Sabedoria (Ed.Pensamento): “Na maior parte do tempo, pintamos imagens. Colocamos nossa própria interpretação limitada em tudo”.

De fato, se pararmos para observar, todas as vezes que nos frustramos com algo é porque havíamos anteriormente criado uma expectativa, uma imagem que não se concretizou ao entrarmos em contato com a realidade. Ou seja, nos decepcionamos por não encontrarmos fora o que imaginávamos dentro de nós. Grandes frustrações podem ter tido seu início em pequenas expectativas que cresceram rapidamente por ação deste oitavo elo: o desejo.

O desejo atua sobre nós com o mesmo poder que um mágico nos faz acreditar em suas manobras fantásticas: sabemos que há um truque por detrás de seus atos e que por isso, tudo não passa de uma ilusão, mas, devido ao encantamento que ele nos desperta com sua agilidade e rapidez, acabamos por acreditar que tudo seja verdadeiro, independente de nossas crenças. Aí mora o perigo: o desejo nos faz ver o objeto desejado como algo sólido, externo a nós. Esta percepção sólida do objeto desejado nos faz sentir como se o objeto estivesse separado de nós, e, assim, começa a perseguição: surge o forte anseio de nos movermos em sua direção.

A esta altura, já nos tornamos presas de nossos desejos. Segundo a neurociência, neste momento estamos sob os efeitos do aumento do hormônio chamado dopamina. Segundo Stefan Klein, em seu livro A Fórmula da Felicidade (Ed. Sextante), a dopamina é a molécula do querer. Ele explica: “Basta batermos o olho na nossa fruta preferida no supermercado para que a dopamina seja liberada. Logo em seguida, um sentimento de felicidade nos invade, um misto de alegria e excitação, uma espécie de ’eu quero aquilo’. Sob o efeito da dopamina, o cérebro transmite para os músculos a ordem de esticar o braço e alcançar a fruta. Ao mesmo tempo, a memória fica em estado de alerta para receber uma mensagem: o cérebro prepara-se para examinar atentamente se o sabor da fruta corresponde à expectativa, a fim de poder arquivar a experiência positiva (ou a decepção) para uma próxima vez”. Cabe exaltar que o excesso de dopamina pode intensificar nossos desejos a ponto de tornar-nos obsessivos!

Para que isso não ocorra, é importante ressaltar que a nossa mente não é apenas feita de desejos... Segundo a psicologia budista, nossa mente é composta por cinco fatores mentais onipresentes e cinco fatores mentais que determinam o objeto. Compreendê-los poderá nos ajudar a reconhecer nosso potencial de saber direcionar a energia do desejo conforme acharmos melhor!

Os cinco fatores mentais onipresentes estão sempre ativados em nosso fluxo mental, não importa o que estivermos pensando, sentindo ou fazendo. São eles: a intenção, a sensação, o discernimento, a atenção e a relação. O mais importante deles é a intenção, pois é o primeiro movimento da mente em direção a um objeto.

Os cinco fatores mentais que determinam o objeto também estão sempre presentes em nossa mente, mas em diferentes graus de intensidade. Portanto será a sua força ou fraqueza relativa que determinará a qualidade de cada atividade mental. São eles: o desejo, a decisão, o cuidado, a concentração e o entendimento.

Francesca Fremantle explica, em seu livro Vazio Luminoso (Ed. Nova Era): “O desejo é o elemento de atração pelo qual a mente é fortemente atraída em direção a algo; pode ser por assuntos mundanos ou pode ser pela iluminação e em benefício dos outros. Decisão é a aplicação firme da mente. Pode também significar devoção ou confiança; poderíamos dizer que a mente é devotada ao objeto e se confia a ele. Cuidado é trazer a mente repetidamente de volta ao seu objeto, e é a base da meditação. Concentração é mais completo do que cuidado, é a absorção da mente em seu objeto; entendimento é o conhecimento direto resultante dessa absorção”.

Em geral somos tão imediatistas frente aos nossos desejos que exploramos pouco os demais fatores mentais que determinam o objeto: a decisão, o cuidado, a concentração e o entendimento.

O budismo nos inspira a sermos livres do sofrimento, isto é, a não ficarmos sob a custódia do desejo incontrolável. Assim, cada vez que surgir o anseio por algo, podemos nos concentrar, aumentar nosso entendimento a respeito das vantagens e desvantagens em seguir este determinado desejo e, com cuidado, investigar a sua natureza, para, então, decidir o que fazer com ele! Isto é, com a gente mesmo!

Última atualização em 21/8/6


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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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