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O Reino dos Infernos Frios: Quando o ressentimento desencadeia a autodestruição


Como vimos na semana passada, vivenciamos o padrão emocional semelhante ao reino dos Infernos quando nos encontramos presos, sem saída, pela dor física ou emocional. Aliás, neste padrão a dor é vista como uma garantia da realidade. Isto é, quanto mais sentirmos dor, mais próximos estaremos de nosso senso de realidade: do conhecido e, portanto, controlável. Desta forma, quando não estamos sofrendo, sentimos angústia por vivenciar o desconhecido. Tal como o masoquista: ele não busca o desprazer, mas não consegue viver o prazer porque o vê como indício de um perigo antecipado.

No texto anterior, refletimos sobre o reino dos Infernos Quentes, marcados pelo calor da raiva que explode. Hoje vamos estudar os Infernos Frios, que nos revelam padrões emocionais de ordem inversa: aqueles que implodem. Enquanto o inferno quente descreve a mente que necessita atuar, o inferno frio revela a mente ressentida e orgulhosa que se fecha em si mesma e se retrai.

Assim explica Francesca Fremantle o ódio glacial em seu livro Vazio Luminoso (Ed. Nova Era): “Em vez de partir para o ataque, tentamos congelar as outras pessoas com o nosso desprezo. Em vez disso, nossos corações congelam enquanto olhamos para o mundo com os olhos frios de ódio. Esse mundo congelado é também o inferno da depressão e do desespero, raiva dirigida e aversão enraizada contra nós mesmos. Sentimos um total autodesprezo e não podemos imaginar como jamais seríamos capazes de mudar, porque somos e sempre fomos tão mesquinhos. Como se estivéssemos trancados em um pilar de gelo, somos incapazes de nos comunicar ou responder aos outros. Já que não existe senso de relacionamento, não existem torturadores externos aqui; é um mundo de isolamento encerrado em si próprio”.

O maior problema deste padrão é o orgulho, pois quando somos tomados por tal hostilidade em relação a nós mesmos já não sabemos mais nem mesmo como pedir ajuda aos outros. Encontramo-nos numa constante atitude de vítimas autoproclamadas: recriminamos tudo e todos. Sentimo-nos impotentes diante de uma “vida ingrata”. Acabamos nos tornando irônicos e costumamos pensar: "Estou indignado. Por que eu?”...

Assim como alerta Martin Lowenthal em O Coração Compassivo (Ed. Pensamento): “Assumindo o papel de vítimas e tratando a vida como um problema, atraiçoamos a vida de diversas maneiras. Uma parte de nós sabe como estar viva no momento, mas só a traímos fixando toda a atenção na nossa história, a reconstituição histórica da nossa vida. Nossa identidade não nos permite lidar com o presente tal como ele é. Vemo-nos como vítimas e não como autores da nossa experiência atual”.

A chave para sair da vitimização já é bem conhecida: aprender a aceitar o que não pode ser mudado. Esta é uma reflexão profunda que requer tempo e honestidade. Assim como nos inspira a Oração da Serenidade adotada pelos Alcoólicos Anônimos no mundo inteiro: "Que Deus me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".

Os textos budistas descrevem oito tipos de Infernos Gelados. Neles, tudo é completa escuridão e não existe calor, sol ou fogo. No inferno das Bolhas, o corpo dos seres é inteiramente coberto por bolhas provocadas pelo vento gelado. E no Inferno das Bolhas Estouradas, o frio é tão intenso que as bolhas estouram. Os três infernos seguintes são progressivamente mais frios e seus nomes indicam os sons produzidos pelos seres que os habitam: Inferno do Bater de Dentes, Inferno da Exclamação de Frio e Inferno dos Gemidos.

Sem dúvida, quando o ressentimento, resultante da raiva contida, torna-se profundo demais para ser reconhecido, é somatizado pelo corpo e acaba por gerar doenças tão autodestrutivas como o câncer.

Assim como exemplifica o conto budista de um eremita que viu uma perna de carneiro à sua frente e não conseguia pegá-la para cozinhar. Então, o seu mestre lhe disse para fazer uma cruz sobre a perna do carneiro. Foi quando ele descobriu que havia feito uma cruz sobre o seu próprio peito. Quando estamos com raiva de algo e tentamos destruí-lo, mas, ao mesmo tempo, o processo torna-se autodestrutivo, volta-se para dentro de nós. Quando nos tornamos a própria raiva, não há mais para onde fugir. Neste sentido, o reino dos Infernos é uma constante caça a si mesmo. Talvez não estejamos querendo nos punir, mas cultivar o ressentimento é uma forma de nos condenarmos ao sofrimento eterno.

Portanto, necessitamos urgentemente admitir que congelar a raiva em nosso interior irá intoxicar e impregnar o nosso corpo.

A saída deste reino está em aprender a derreter o ressentimento: desistir da raiva, isto é, parar de lutar, isto é, de acusar algo, seja fora ou dentro de nós.

Assim como explica Chögyam Trungpa em Além do Materialismo Espiritual (Ed. Cultrix): “... as alucinações do Inferno são geradas a partir de um ambiente de claustrofobia e agressão. Há uma sensação de estar preso num pequeno lugar sem ar para respirar e sem espaço para se mover. Preso, como ele está, o macaco não só tenta destruir as paredes da sua claustrofóbica prisão, mas até tenta matar-se, a fim de escapar ao seu doloroso e contínuo sofrimento. Entretanto, ele não pode se matar, e suas tentativas de suicídio só prestam para intensificar-lhe a tortura. Quanto mais luta para destruir ou controlar as paredes, tanto mais sólidas e opressivas elas se tornam, até que, num determinado ponto, a intensidade da agressão se atenua um pouco e, em vez de lutar com as paredes, o macaco cessa de relacionar-se com elas, pára de comunicar-se com elas. Fica paralisado, congelado, envolvido na dor, sem brigar para fugir. Começa a diminuir a intensidade do reino do Inferno, o macaco passa a relaxar-se e, subitamente, enxergar a possibilidade de um modo de ser mais aberto, mais espaçoso”.

Portanto, aqui vão dicas de como sair deste padrão psicológico quando formos tomados por ele:

Refletir: “E se não houver uma solução para os problemas de nossas vidas pela simples razão de que não existe um problema?”

Procure não se perguntar "Por quê", mas sim "Como". O desejo de controle faz com que respondamos a perguntas que não somos capazes de responder. Acabamos ficando pré-tensos e congelamos a dor no sofrimento.

Evite ficar procurando uma causa única para o que aconteceu. A "verdadeira causa" não pode ser determinada numa única situação independente. O melhor é assumir o que está acontecendo no presente e olhar para frente.

A auto-responsabilidade é uma forma de perdão. Perdoar é dar nova vida às coisas. Deixe o papel de vítima para tornar-se um agente transformador.
Lembrar que nosso inimigo é nosso melhor mestre, pois é ele que nos cria as condições para treinarmos o que mais precisamos saber.



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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