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O tempo perdido (A primeira mensagem)

O tempo perdido (A primeira mensagem)

por Sergio Scabia

Foi em 30 de Junho de 1977, uma Quinta feira de sol. Estava como sempre estressado e cansado, sem falar do mau humor… Meu filho de 4 anos magro, magro, comia quase nada.
A dica, que veio de alguém muito querido e influente: leve seu filho para fazer uma sessão de acupuntura, vai resolver. A dica veio completa do endereço no bairro japonês da Liberdade, na Rua Senador Felicio dos Santos, aqui em São Paulo.
Tinha que chegar lá cedo - não existia consulta com hora marcada – e lá fomos eu, esposa e filho magrinho, quase sumindo.
Um casarão amarelo, um pequeno jardim na frente. A espera foi longa e dava para acompanhar os pacientes entrando e saindo; às vezes acontecia o milagre, pois entravam bem tortos e saiam retos e com a expressão de felicidade estampada no rosto. Eu olhava para a minha mulher e ficava assim meio pasmo. Ela estava bem mais à vontade, observando e comentando com aquela expressão de surpresa das crianças quando fazem uma nova descoberta, enquanto eu fumava sem parar.
Quando finalmente chegou a nossa hora entramos em uma das varias salas de atendimento e um assistente do Kimura veio cuidar da gente. Meu filho consumiu todo o estoque de promessas e de chantagens emocionais de que dispúnhamos, mas não teve jeito de encostar uma única agulha nele.
Mas a mãe dele não queria perder a viagem e quis fazer a aplicação das agulhas. Supostamente não tinha nada de especial a trabalhar, mas quando a primeira agulha tocou o abdômen dela, explodiu numa risada interminável e que deixou os presentes sem entender o que estava se passando. Mas eu podia perceber que algo extraordinário estava acontecendo, pois em 5 anos de casamento nunca a tinha visto desta forma, descontraída, feliz, vibrando algo bem positivo.
Bom, ela me convenceu a fazer a aplicação das agulhas também.

Eu estava tenso, céptico, agitado e desconfiado e somente confortado pelo fato de estar na sala um Medico de Curitiba, muito simpático, da minha idade na época e que estava se especializando na pratica desta milenar arte de cura.
Tudo aconteceu de forma brusca e chocante. O assistente do Kimura estava colocando agulhas em meu couro cabeludo, onde hoje sei que temos um importantíssimo centro energético, o chakra da Coroa e os "cem pontos" da acupuntura.
Num momento estava consciente e no instante seguinte eu estava fora do corpo. Estava flutuando levemente sobre a cena e as pessoas, que começaram a se juntar em volta do meu abandonado e inanimado corpo físico. Lembro da visão do meu corpo como se fosse hoje: vestia um sueter cinza, estava com a boca aberta, os olhos esbugalhados - não gostei nada do que estava vendo - lembro que me achei bem feio e sem cor. Estava tão consciente lá fora como estou agora, neste instante em que busco as letras certas no teclado do micro. Mas, por incrível que pareça, estava muito bem, absolutamente sem problemas. As cores diferentes, um brilho gostoso, uma sensação de liberdade, de alivio, de total serenidade. Não estava entendendo absolutamente nada, mas estava gostando do novo lugar, de algo que estava em harmonia, de uma sensação que eu já tinha experimentado em outros "antes", que era calma, gostosa, familiar e aconchegante. Estou tentando inutilmente buscar as palavras para descrever adequadamente este momento, mas me é impossível. Está em minha mente, em minhas células, e sei que não dá para transmitir algo que só vale quando vivenciado em primeira pessoa.
O medico, todo de branco, começou a massagem cardíaca no meu peito, e falava que eu tinha tido uma parada cardio-respiratória; meu filho, a esposa olhando meio atônitos, enquanto eu começava realmente a me sentir bem naquele lugar tão gostoso. Querem a verdade? Se dependesse de mim, mesmo com meus dois amores lá embaixo, eu não teria voltado. Muita luta, muito stress, muitos problemas, que nem um casamento tão promissor e um filho tão desejado tinham ajudado a resolver. Acho que aquele momento fora do corpo foi, em toda minha vida, o único momento de lucidez total, de percepção de um algo muito maior e melhor, de finalmente "me sentir em casa" de estar "respirando luz", muito mais consciente, visto que na época vivia de forma absolutamente materialista e superficial, norteado pelos padrões massificantes do coletivo.
Mas o Kimura não deixou que eu ficasse naquele paraíso e me trouxe de volta. Sim, quando finalmente o velho sábio apareceu, ao me morder um dos dedinhos do pé direito (depois de tirar sapato e meia), me derrubou com verdadeira violência de onde me encontrava para dentro da cinzenta carcaça física e me encontrei assim a olhar de baixo para cima aquelas pessoas em pânico à minha volta e que tinham começado a gritar de alivio com alguém a gritar para que se afastassem, para me deixar respirar.
A volta para dentro do corpo foi uma das piores sensações que já tive. Fiquei chocado, mareado, confuso, e perdi o equilíbrio para caminhar. A serenidade tinha ido embora, estava novamente de volta ao barulho, à confusão e às tarefas do dia-a-dia, tendo como companheira minha completa ignorância em assuntos deste tipo...

Tive de receber ajuda para andar e ao chegar em casa deitei na cama, sempre mareado. Sem condições de entender o que tinha ocorrido, fiquei dois dias sem trabalhar, deitado, confuso e também assustado. Tinha medo de dormir, de levantar, de andar. Minha visão do mundo e da vida não admitia aquilo que tinha acontecido e que tinha me dado uma sensação tão maravilhosa e vibrante. Tinha dificuldades enormes em tocar neste assunto mesmo com minha mulher que testemunhou o ocorrido e que, aos poucos, foi ficando esquecido até que - 12 anos depois - finalmente conheci o Wagner Borges, hoje colaborador especial do Vidanova, com toda suas preciosíssimas, didáticas e esclarecedoras experiências fora do corpo...
Agora percebo toda a importância desta "mensagem" na minha vida atual: foi um presente do Universo, que me deu a oportunidade belíssima de me perceber completamente consciente fora do corpo físico. Era eu, olhando de alguma outra dimensão - que no fundo é aqui mesmo - de posse de todas minhas memórias, sensações, sentimentos, idéias, conceitos e preconceitos, inteligência e ignorância, simultaneamente. Infelizmente estava carregando junto também o medo, esta pobre e velhaca emoção que eu mesmo tinha escolhido por companheiro de jornada, mas que me fez perder tanto tempo de caminho lúcido e de evolução pessoal. E Você, que chegou até o fim deste artigo, será que não tem também algo interessante para relatar?

PS 1: Gostaria muito - pela força da NET - poder entrar em contato com este médico de Curitiba que muito ajudou nesta ocasião. Deve ser hoje um ótimo acupunturista com cerca de 55 anos.
PS 2: Voltei muitas vezes a me tratar com acupuntura - em outras ocasiões - e sempre com excelentes resultados.

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Atualizado em 04/05/2001 18:26:24

Sergio Scabia é co-fundador
do Site Somos Todos UM


Email: sergio@somostodosum.com.br
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