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Refletir sobre a própria morte


Há mil anos, a Igreja Católica instituiu oficialmente o Dia de Finados: um dia para celebrar a vida eterna daqueles que já faleceram. O Dia de Todos os Mortos celebra todos os que morreram e não são lembrados na oração. De uma maneira ou de outra, rezar para aqueles que já se foram nos leva também a nos conscientizarmos sobre nossa própria mortalidade. Afinal, eles nos ensinam que a morte existe de fato. No entanto, em nossa cultura raramente encaramos a morte de frente.
Em geral, evitamos fazer contato com os sentimentos que surgem quando nos confrontamos com ela: “Não, hoje não...” é o que costumamos dizer diante da idéia de morrer. Por isso, não é de se admirar que a maioria de nós não tenha visto um cadáver e muito menos tenha tido a oportunidade de testemunhar o momento da morte de um ente querido.

Em nossa cultura, a morte nos impressiona, é vista como algo que nos faz mal. Há quem prefira nem ver uma pessoa falecida: “Quero lembrar-me dela com vida”, costuma-se dizer. Estes são os nossos costumes, somos assim: fomos criados distantes das questões que envolvem tanto o processo de morrer/morte como o pós-morte.
A realidade é que nos familiarizamos com o desconhecido! Já para os praticantes budistas orientais, o ato de pensar na própria morte é visto como algo natural. Afinal, para eles a morte não é vista como um ponto final ou um evento isolado, e sim como mais uma mudança em um infindável ciclo de mudanças.

Essa noção cíclica da morte faz parte, há milênios, de seus hábitos culturais. Para eles, velar um corpo morto não é um assunto estranho. Quando a realidade da morte torna-se iminente, a maioria de nós sente despreparo e fragilidade. Por esta e por outras razões, há anos realizo um workshop para pensar sobre a morte durante os feriados de Finados.

O depoimento daqueles que participaram dos cursos anteriores me incentiva a repetir esta rara experiência de falar com honestidade e abertura sobre nossa própria morte. Eles comentam como foi importante ter parado pelo menos uma vez para pensar sobre este delicado assunto quando tiveram que finalmente confrontá-lo de alguma maneira. Afinal, quanto menos fazemos algo, mais raro e precioso isso se torna. Este ano vamos refletir sobre a morte no dia 3 de novembro no Sítio Vida de Clara Luz.
Compartilhar sem receios nossos medos e desejos diante da morte é em si um ato curador.

A maneira como encaramos nossa morte revela sutilezas de nossa essência: valores e significados de nossa vida. Refletir com sinceridade sobre a morte intensifica o propósito da vida, porque nos leva a ter mais clareza de nossas prioridades. Esta reflexão não pode ser apenas intelectual, deve ser mobilizada pelos sentimentos que surgem a partir de nosso coração.

Falar e pensar com sentimento é em si mesmo um ato transformador. Afinal, para encontrar segurança emocional diante das questões da morte, não basta compreendê-la intelectualmente. É preciso aceitá-la emocionalmente. Para tanto, precisamos aprender a comunicar nossos medos e inseguranças.

Tenho aprendido que quando somos verdadeiramente sinceros diante deste tema tão delicado, aumentamos as chances de sermos vistos, ouvidos e aceitos simplesmente por sermos quem somos, o que nos ajuda muito a ganhar uma nova abertura, leveza e coragem diante dos desafios que a morte nos mobiliza.

O budismo tibetano é uma filosofia que nos inspira a encarar de frente os fatos da vida com a intenção de cultivar o desenvolvimento interior. A vida é impermanente: não podemos controlar as mudanças que chegam até nós, mas podemos escolher a maneira como lidar com elas. Seus ensinamentos incentivam a nos responsabilizarmos tanto pelo rumo de nossa vida como de nossa morte. Porém, não é preciso tornar-se budista para praticar sua filosofia. Afinal, a dor da separação é universal: está além de dogmas e idéias pré-concebidas e compartilhá-la nos torna mais relaxados e amorosos.

Participe do Evento: Um dia para refletir sobre a nossa própria morte



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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