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Reino dos Fantasmas Famintos: quando estamos presos pela insatisfação


Você já se deu conta de que existem certas pessoas que jamais conseguimos agradar? Aliás, toda vez que tentamos fazê-lo, o feitiço volta-se contra o feiticeiro: elas se aproveitam de nossa tentativa de aproximação para reclamar daquilo que nós não fizemos.

Quando este padrão de relacionamento se manifesta, estamos nos confrontando com o reino dos fantasmas famintos, marcado pelo desejo insaciável de querer sempre mais.

Segundo o budismo tibetano, o Reino dos Fantasmas Famintos, também conhecido por Pretaloka, é habitado por seres que possuem um apetite insaciável, e por isso estão continuamente lamentando a falta de algo que lhes traria mais satisfação. Seus estômagos são grandes e estendidos, suas gargantas são muito estreitas e suas bocas são tão pequenas quanto uma cabeça de alfinete. Ou seja, a sua fome é enorme, mas suas condições de se alimentar são mínimas. O padrão emocional deste reino está relacionado com a ganância: a necessidade incontrolável de obter posses e muita riqueza. A ganância é desmedida. Em realidade, queremos mais do que necessitamos!

O maior problema com a ganância é que mesmo que obtenhamos os frutos de nossos desejos, somos incapazes de desfrutá-los, pois nossa satisfação é extremamente fugaz. Por isso, sentimo-nos cada vez mais famintos e carentes.

Não devemos confundir ganância com ambição. A ambição prevê uma evolução, isto é: o desejo de atingir metas mais elevadas. Já a ganância quer simplesmente mais, não se importa com um crescimento qualitativo, pois ela é essencialmente quantitativa. A pessoa gananciosa é aquela que não vê limites para ganhar o que deseja. Ela não tem nenhuma ética, nenhuma consideração de respeito às demais pessoas. Para o ganancioso, os fins justificam os meios.

Existem três tipos de fantasmas famintos:

1. Aqueles que sentem sede e fome a todo o momento. Embora exista água ou comida perto deles, eles não conseguem percebê-las por causa dos obstáculos externos que surgem de seu Karma negativo. Caso consigam percebê-las, experienciam enorme frustração ao ser impedidos de alcançá-las.

2. Aqueles que conseguem beber ou comer, mas a comida ou a bebida se transforma em substâncias horrendas: resultado dos obstáculos internos gerados por seu karma negativo.

3. Aqueles que não conseguem satisfazer sua fome e sua sede, porque a própria comida e bebida tornam-se obstáculos: o próprio alimento se transforma em veneno.

Os fantasmas famintos também experienciam seis sofrimentos gerais:
1. O sofrimento do calor: sentem intenso calor;
2. O sofrimento do frio: sentem um frio intenso;
3. O sofrimento da fome: sentem fome por centenas de anos. E, se consomem algo, o alimento transforma-se em fogo em seu estômago;
4. O sofrimento da sede: sentem sede por centenas de anos. E, se consomem algo, a bebida transforma-se em ácido em seu estômago.
5. O sofrimento da fadiga: exaurem-se em busca da comida e da bebida que desaparece como uma miragem;
6. O sofrimento do medo: estão constantemente assustados por ser destruídos por fantasmas famintos maiores ou por ferozes guardiões que protegem a comida e a bebida.

Como podemos ver, neste reino o sofrimento é intenso, pois o padrão mental está sempre contaminado por ansiedade, ilusão e medo.

Se quisermos nos liberar da insatisfação constante, teremos que compreender a natureza do desejo para sermos capazes de ter prazer diante da satisfação!

O budismo nos ensina que o problema não se encontra em nossos objetos de desejo, mas sim nas convicções que temos a respeito deles. Se as qualidades dos objetos de desejo fossem próprias deles, eles nos despertariam sempre as mesmas sensações. No entanto, o que eu hoje considero como algo profundamente atraente, em outro momento posso vir a sentir repugnância. Todos nós já experimentamos desejo e aversão por uma mesma pessoa. Ou seja, a primeira coisa que devemos ter em mente é que nada existe por si só, tudo resulta de nossas percepções.

Neste sentido, a origem da insatisfação de um desejo está em nosso hábito de nos apegarmos aos prazeres sensoriais como se eles fossem algo real e, portanto, constante. Quantas qualidades ilusórias atribuímos às coisas e às pessoas, pensando que elas poderiam existir por elas mesmas independentemente de nossos humores!

Reconhecer que nossas projeções são exageradas, sem dúvida é um passo importante. No entanto, isto não significa cultivar um olhar neutro em relação ao tudo e a todos. Pois tal postura representa outra projeção ilusória, apenas disfarçada por um mecanismo de defesa da negação.

O ponto é simples, no entanto tão profundo que em geral encontramos dificuldade de reconhecê-lo. Por isso vamos repassá-lo: sofremos de insatisfação por que atribuímos aos nossos objetos de desejo qualidades que não estão neles, mas sim em nossa mente! Mas como não nos damos conta de tal erro, continuamos buscando fora o que está dentro de nós!

O passo seguinte para nos libertarmos da insatisfação consiste em renunciar a esta visão errônea. Sem dúvida, este é um processo longo e complexo, pois isto significa nos libertar de um hábito extremamente arraigado: buscar felicidade constante em algo ou em pessoas que, em essência, são transitórias.

É importante compreender que renúncia não significa abandonar o prazer ou negar a felicidade, mas sim abandonar nossas expectativas que algo será capaz de nos satisfazer constantemente. O budismo tibetano não condena o prazer, como se ele fosse a origem de nossos pecados. Aliás, a palavra pecado nem existe no vocabulário tibetano. O que esta filosofia nos alerta é que a origem de nosso sofrimento está no modo de pensar ávido e exagerado.

Lama Yeshe explica em seu livro “La Via Del Tantra” (Chiara Luce Edizioni) que o termo tibetano geralmente traduzido como “renúncia” tem um significado literal de “saída definitiva” ou “transformar-se em autêntico”. Ele indica uma decisão profunda e sincera de emergir definitivamente das profundas frustrações e insatisfações da vida ordinária. “Podemos dizer simplesmente que a renúncia é a sensação de estarmos tão nauseados dos nossos próprios problemas recorrentes, a ponto de nos sentirmos prontos para abandonar o apego com relação a qualquer coisa e iniciar a busca de um outro estilo de vida, em que a existência se torne significativa e cheia de contentamento. Por isso, cultivar a renúncia ou o ‘transformar-se em autêntico’ consiste em cultivar o nosso desapego daquele ‘grudar-se’ habitual, que é como uma cola que impede de experimentar a nossa mais completa potencialidade”.Lama Yeshe ressalta que existem certos momentos na nossa vida em que os nossos sentidos se retraem dos objetos e nós experimentamos aquilo que pode ser chamado de um desapego natural ou uma renúncia natural.

Nestes momentos podemos compreender que desapegar-se não significa desconectar-se do o mundo à nossa volta, mas, sim, ter uma relação mais relaxada, menos gananciosa.

Neste sentido, desapegar-se não significa abandonar completamente qualquer coisa, mas, sim, acalmar o nosso desejo.

Uma vez serenos, seremos capazes de confiar em nossa própria capacidade de sentir prazer. Afinal, enquanto estivermos presos pelo desejo de querer mais, sentiremos tensão e medo, próprios do padrão emocional dos fantasmas famintos!

Quanto mais compreendermos que os prazeres imediatos não são capazes de nos dar a felicidade duradoura que desejamos, mais valor iremos dar ao nosso desenvolvimento interno. Neste sentido, estaremos cultivando metas de felicidade mais elevadas: a realização da nossa verdadeira natureza essencial.

“Quando nós não reconhecemos a natureza pura da manifestação da sabedoria, somos tirados da condição da mente desobstruída obscurecendo a sua intrínseca vacuidade e luminosidade e separamos os fenômenos indivisíveis em sujeito e objeto. Enquanto houver divisão, haverá impureza e obstrução. Com essa divisão o Eu torna-se sujeito, e o que esse Eu percebe torna-se o objeto. [...] Com essa divisão existe um constante movimento para trás e para frente, entre sujeito e objeto, que é começo da noção de direção e tempo, entre as circunstâncias causais e conseqüentes, entre rejeição e aceitação de fenômenos desagradáveis e agradáveis, entre más e boas intenções, e entre dúvida e esperança. Nós chamamos essa mente dividida de mente dualística, que é a causa do mal e do bom karma”, explica Thinley Norbu em Magic Dance Shambhala (Boston & London).

Enquanto não reconhecermos nossa natureza básica, energética, pura e indivisível, nosso relacionamento com o mundo será a expressão de nossa visão impura, baseada na dualidade do certo e do errado, do bonito e do feio, do que gostamos e do que não gostamos.

Insatisfeitos, avaliamos o mundo externo sempre como algo distante de nosso mundo interno. No entanto, ao passo que reconhecermos nossa capacidade natural de satisfação interior, iremos nos aproximar cada vez mais do mundo à nossa volta!



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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