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Reino dos Infernos: quando a mente não encontra saída


Hoje cedo, quando pensei em escrever sobre mais um reino, escutei minha voz interior: “que experiência será que vai me inspirar a escrever sobre o reino dos Infernos”? Logo desisti de escrever e fui até o Pete ajudar a podar umas roseiras... Eram 10 horas da manhã. O dia estava lindo. Tudo parecia calmo, até que o silêncio foi bruscamente rompido pela música do sítio vizinho que faz atividades de bingo e vaquejada... (rodeio com vacas). Há dois anos, na crença de que o mal se consome por si mesmo, preferimos deixar que eles próprios criassem os obstáculos que os levarão embora. No entanto, apesar das multas que já receberam, os meses se passaram e eles voltaram com sua música, tão alta que nos leva a sensação de que vamos enlouquecer: tal como o sofrimento no reino dos infernos, somos tomados por raiva e indignação, e não vemos saída para tal problema.

Como agir diante de tais situações? Horas depois, diante do insistente som mantido durante o dia todo, exaustos e conscientes que somos a minoria, optamos por “abandonar o barco” e voltar para São Paulo. No carro, vim pensando: “Hoje passei o dia fugindo da raiva. Ela é mais penetrante do que a minha tolerância. Estávamos certos em correr dela”.

Será que adiantava reclamar outra vez? Na dúvida, é melhor não agir. Aqui cabe bem um ditado tibetano que escutei certa vez: “Só enfrente um inimigo quando você estiver mais forte que ele. Até lá, continue se fortalecendo. Lembre-se: nosso maior inimigo é o egoísmo”. Neste sentido, renunciamos à situação por reconhecer o mal que ela nos faz.

Aliás, perguntei certa vez a Lama Gangchen Rinpoche: “Como lidar com uma pessoa agressiva”? Ele respondeu: “Quando alguém for agressivo com você, continue normal... dentro de você tudo deve continuar normal”. Quando somos tomados pelo padrão emocional do reino dos infernos, este é um conselho que não conseguimos colocar em prática.

Agora de volta a São Paulo, tenho clareza de minha intenção ao escrever sobre o Reino dos Infernos: quero inspirar o leitor a cuidar de sua mente, pois, de fato, não vale a pena visitar este reino...

Vale a pena ressaltar que o reino dos infernos não se refere ao inferno descrito pela igreja judaica-cristã, mas sim a um padrão mental que surge pelo Karma negativo acumulado através de ações baseadas no ódio e na violência.

O Reino dos Infernos, também chamado de narakaloka, é o estado mental que surge quando somos expostos a torturas extremas: forças que pressionam nossa psique, levando a estados de raiva e medo.

O reino dos Infernos, segundo a psicologia budista, pode ser quente ou frio. Os infernos quentes são descritos como locais onde os campos e as montanhas são feitas de metal quente e os rios são transformados em ferro derretido. O espaço preenchido pelo fogo é claustrofóbico.

Já os infernos frios são regiões de extremo frio, onde tudo está congelado e coberto de gelo e neve.

Nos infernos quentes estão aqueles que vivenciam os padrões mentais gerados por raiva violenta, enquanto que nos infernos frios estão as mentes que ficaram presas ao egoísmo e ao orgulho.

Em geral, os mestres tibetanos falam pouco sobre este reino. Certa vez, quando solicitei ensinamentos sobre os reinos dos infernos, Gueshe Sopa me disse: “Você não gostaria de ouvir, pois é muito sofrido. Além do mais, nem sei se acreditaria no que tenho para te dizer”.

Por exemplo, os textos descrevem que no Inferno Avitchi, daqueles que usaram a magia para destruir seus inimigos, os seres são cortados ou serrados em pedaços, estrangulado com laços, perfurados por espinhos e expostos a pressões esmagadoras.

Existem quatro tipos de seres dos infernos: seres dos Grandes Infernos, seres dos Infernos Circundantes, seres dos Infernos Gelados e seres dos Infernos Ocasionais. São muitas as formas de sofrimento e tão intensas que, nós, os seres humanos, não poderíamos sobreviver nesses lugares. No entanto, podemos reconhecer a natureza deste reino nos lugares onde há constantemente pessoas se matando, provocando intenso sofrimento físico e mental.

Nos Grandes Infernos existem oito tipos de existência: os seres do Inferno Ressuscitador, que lutam e matam uns aos outros e revivem logo após para continuar a lutar e infligir mais dor. Os seres do Inferno da Linha Negra, guardas enormes de faces horrendas que se estendem pelo chão para demarcar as áreas com linhas negras queimadas. Os seres do Inferno da Destruição em Massa, que ficam entre duas montanhas imensas semelhantes aos animais que eles mataram no passado. Essas montanhas juntam-se e os esmagam, e depois se separam até eles serem revividos e esmagados novamente. Os seres buscam abrigo no Inferno dos Lamentos, que, motivados por medo, buscam refúgio numa casa de ferro que explode cada vez que entram nela. Em chamas, são incinerados em completo terror. Seus lamentos e gritos de dor dão nome a este inferno. Já no Inferno dos Altos Lamentos os seres encontram-se em uma casa de ferro dentro de outra e a noção de não ter escapatória e a dor são duas vezes maiores. No Inferno Quente, os seres são perfurados por um espeto de ferro incandescente e depois fritos e revividos para sofrerem novamente. O Inferno Intensamente Quente é duas vezes mais quente que o reino anterior. O Inferno do Tormento Incessante é o pior dos Infernos, pois os seres deste inferno são indistinguíveis do fogo e somente os seus gritos indicam que eles são seres. São os seres da existência cíclica, com sofrimento mais intenso e vivem na infelicidade até que seu Karma negativo seja exaurido.

A simples leitura da descrição destes reinos nos traz sofrimento. No entanto, quantas vezes testemunhamos sofrimentos similares nos noticiários da TV? Homens-bomba assemelham-se aos seres dos Infernos dos Lamentos! Assim como aqueles que vivenciaram os terrores dos recentes atentados no metrô de Londres. Não precisamos de muitos exemplos para perceber que este reino tem estado presente em nosso Planeta Terra. No entanto, a intenção deste texto não é de alarmar ou de aumentar as lembranças dos terrores que nos ameaçam, mas sim de compreender a importância de não cultivarmos estados semelhantes dentro de nós mesmos!Assim como escreve Francesca Fremantle em seu livro Vazio Luminoso (Ed. Nova Era): “Todos os venenos emocionais são viciadores; quando estamos sob o seu domínio, parecem absolutamente necessários para nos manter em movimento, e fornecem uma razão difícil de se livrar, porque nos faz sentir fortemente que estamos com a razão”. [...] “Existe uma lógica distorcida associada com a agressividade, a qual sempre se justifica e põe a culpa nos outros. Tornamos-nos tão convencidos de que o nosso sofrimento depende da situação externa que sentimos que não podemos mudar a própria atitude. Os outros erraram, portanto não devemos ceder a eles e desistir de nossa raiva; ou os outros nos machucaram tanto que nunca podemos deixar de odiá-los e sermos felizes novamente”.

Desta forma, nossa felicidade torna-se totalmente dependente da ação alheia! Quando transferimos a culpa para outra pessoa, cultivamos a sensação interior de que não há nada que possamos fazer a não ser reagir com ódio e raiva.

Neste momento, é importante que possamos também reconhecer a realidade de outra questão: externar nossa raiva pode nos proporcionar um alívio imediato, mas não basta para eliminá-la, pois ela retorna em seguida, uma vez que não nos relaxa verdadeiramente.

Podemos querer destruir aqueles que nos causam dor, mas se pararmos para analisar a natureza de cada situação que nos agride, ela reflete um padrão emocional que carregamos em nosso interior muito antes daquela situação agressora surgir. No meu caso, por exemplo, tenho refletido profundamente sobre o modo como tenho lidado com “as vaquejadas” em minha vida. Pois uma vez que reconheço um padrão de limitação, posso fazer algo para sair dele.

Lama Zopa Rinpoche certa vez nos disse: “Você pode ter criado o karma para estar perdido na floresta Amazônica sendo picado por inúmeros insetos, mas mesmo assim isto não quer dizer que você não pode reagir e sair de lá”.

A reflexão sobre o padrão mental dos reinos dos Infernos nos leva a reconhecer que quanto mais forte for nossa projeção sobre aquele que nos agride, mais poder estamos lhe concedendo. A tal ponto que nossa situação interior torna-se completamente dependente da condição exterior. Por isso, quando achamos que não temos saída, estamos perdendo nossa força diante do agressor. Mas, se recuperarmos as rédeas de nossa raiva interior, poderemos recuperar a clareza de como agir diante de tais circunstâncias. Tarefa nada fácil, porém possível. Os mestres estão aí para nos inspirar.

Semana que vem espero escrever sobre o reino dos Infernos Gelados!



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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