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Ser antagônico: quando o impulso da agressividade pode gerar força interior


Em geral, quando nos referimos a uma horta, surge na mente a imagem de canteiros com fileiras de alface, cenoura, brócolis... Mas se formos visualizar uma horta segundo os princípios da Permacultura, teremos de mudar a nossa mente e ser capazes de imaginar todos esses canteiros num só: alfaces crescendo ao lado de cenouras, junto com brócolis e com flores como cosmos, zínias, dálias e margaridas... É justamente a multiplicidade dos ecossistemas naturais que garante seu equilíbrio dinâmico.

O termo Permacultura surgiu da contração das palavras permanente e agricultura. Neste sentido, a Permacultura visa criar ambientes auto-sustentáveis, capazes de gerar, com harmonia, alimentação, energia e habitação para pessoas e animais.

Elaborada na década de 1970, na Austrália, por Bill Mollison e David Holmgren, a Permacultura envolve o planejamento, a implantação e a manutenção conscientes de ecossistemas produtivos que tenham a diversidade, a estabilidade e a resistência dos ecossistemas naturais.

Por isso, ao cultivar uma horta orgânica de acordo com os princípios da Permacultura, é fundamental seguir um planejamento que considere a integração e sucessão das várias espécies entre as plantas companheiras e as antagônicas, assim como entre as perenes e as anuais.

Semana passada, escrevemos sobre as plantas companheiras, aquelas que se ajudam e se complementam mutuamente. Hoje vamos refletir sobre as plantas antagônicas.

Uma planta é antagônica para outra quando inibe seu potencial de crescimento: ela libera substâncias no solo ou no ar capazes de invadir o espaço de outras plantas e limitar suas necessidades de luz e água.

Por exemplo, toda pessoa que tem uma horta sabe o quanto é difícil controlar o crescimento das ervas daninhas, pois como crescem rapidamente, invadem os canteiros sem deixar espaço para o crescimento das verduras. Nada disso seria problema se gostássemos do sabor amargo, forte e selvagem das ervas daninhas... Mas preferimos a doçura da alface, uma planta suave, delicada e mimada pelos cuidados humanos. Curiosamente, ervas daninhas têm muito mais nutrientes que as verduras... Será que temos resistência para lidar com as forças agressivas que evitamos até ingeri-las?

As plantas antagônicas traduzem personalidades agressivas, que exteriorizam seus interesses e conquistam suas necessidades. A agressividade não é, por si mesma, positiva ou negativa, mas sim o instinto da força propulsora. O que define a sua natureza é a motivação por detrás da ação. Sermos diretos e enérgicos pode gerar conflitos ou soluções, conforme a intenção de nossos atos.

Por exemplo: em geral, o picão é visto como planta antagônica devido a seu rápido crescimento. Suas raízes expansivas absorvem água com tanta eficiência impedindo que as raízes de outras plantas recebam a água que necessitam. No entanto, suas folhas são altamente nutritivas, ricas em fósforo. Se soubermos a hora certa de podar o picão, poderemos usar positivamente seu potencial agressivo, deixando que suas folhas mortas virem adubo para as frágeis verduras. Desta forma, a natureza está nos ensinando que podemos usar criativamente a força da agressividade se soubermos como direcioná-la.

As plantas antagônicas podem se parecer com as pessoas egoístas e narcisistas que visam unicamente seguir o seu próprio impulso sem considerar os limites alheios, mas, assim como as pessoas agressivas, elas também têm suas limitações: quando deixadas à deriva, acabam por se extinguir.

Uma pessoa agressiva sofre constantemente, pois não sabe como se abrir para receber a solução de seus conflitos. Sua constante atitude de ataque e revolta a isola até de si mesma.

As pessoas agressivas reagem a tudo e a todos. Elas não sabem agir de outro modo! Aquele que reage com agressividade diante dos fatos mais insignificantes revela um complexo de inferioridade, pois seu ato agressivo surge do hábito de se defender até mesmo antes de ser atacado. Como ele vê o mundo externo como uma ameaça constante para sua fragilidade interna, nega-se a travar qualquer troca que possa levá-lo a contrariar suas expectativas. Em outras palavras, o agressivo ataca para não correr o menor risco de ser rejeitado!

Neste sentido, a pessoa será mais agressiva conforme sua necessidade de atenção ou carência. Como ela ataca para compensar sua falta de estrutura emocional e de segurança afetiva, cria um círculo vicioso de abandono e solidão.

Uma pessoa agride quando quer mostrar que não foi tratada como gostaria de ter sido. Agride para chamar atenção de que algo está lhe faltando. A agressão é a forma que encontra para protestar sobre aquilo que a fez sentir-se injustiçada. Em outras palavras, agressivo é aquele que se sente fraco por crer que aquilo de que necessita está fora de si, está no outro, e como ele não sabe ser receptivo para receber o que tanto quer, continua inutilmente agredindo para aclamar a sua falta.

Para romper este ciclo vicioso de carência e agressão é preciso dar a si mesmo a chance de ser diferente. Para tanto, temos primeiro que admitir que nos habituamos à disputa, isto é, ao fato de tendermos a atacar sem termos sido atacados. Paralelamente, temos que admitir para nós mesmos que temos carência e baixa auto-estima. Quando nos encaramos com abertura e honestidade, paramos de nos criticar com menosprezo. Quando superamos o medo de admitir nossas fraquezas, começamos a diminuir a arrogância de nossa expressão agressiva. Pois assim que sabemos como nos sustentar diante de nossa vulnerabilidade, já não precisamos mais do outro para projetar nossa própria disputa interna.

É interessante saber que as plantas antagônicas mais agressivas surgem para cobrir uma falta, seja ela de nutrientes do solo, seja para preencher o espaço vazio de um solo descampado. Neste sentido, a erva daninha tem a função de equilibrar o solo ao invés de invadi-lo. Por exemplo, o picão surge espontaneamente numa horta quando ela está pobre em fósforo. De modo semelhante, podemos reconhecer que a agressividade surge em nosso interior justamente quando nos falta coragem para reagir. Ela é uma força instintiva, que vem para nos ajudar a tomar um novo impulso, capaz de mover nossas emoções paralisadas pela falta de coragem diante das adversidades.Neste momento, temos a chance de aprender a lidar com o lado positivo da agressividade. Para tanto, temos que dar a nós mesmos a chance de sermos diferentes, isto é, de nos arriscarmos a ser receptivos à nossa própria dor. No lugar de continuarmos a lamentar nossa dor, atacando a nós mesmos com autocrítica exagerada ou agredindo insistentemente os outros à nossa volta, podemos acolher o desafio de escutar o que nos falta.

As plantas nos ensinam sobre a coragem de aceitar os desafios. Rudiger Dahlke, em seu livro “A Agressão como oportunidade” (Ed. Cultrix), ressalta a importância de a pessoa estar disposta a lidar com seus conflitos para ter uma boa saúde física: “Quando não damos espaço para uma luta conveniente ou um conflito na consciência, ele tem de procurar um outro lugar qualquer para si. O corpo se oferece como o palco no qual os temas não elaborados na consciência podem expressar-se. Disso se segue que quanto menos as brigas acontecerem de forma consciente, tanto mais situações de guerra o corpo terá de apresentar”.

Neste sentido, aquela pessoa que estiver disposta a encarar de frente seus conflitos, isto é, a tirar suas máscaras e se defrontar com elas, estará estimulando seu sistema imunológico.

Quando decidimos encarar de frente nossos opositores, despertamos um desejo autentico de viver, de nos recriar. Rudiger Dahlke ressalta: “Quem se deixa estimular pela vida, aceita os desafios e empreende sua luta voluntária e conscientemente, tem o seu sistema de defesa fortalecido e pode defender com sucesso os limites do seu corpo contra os inimigos externos”.

Fugir dos conflitos é fugir da vida: quando não os confrontamos, deixamos vulnerável nosso próprio sistema imunológico!



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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