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Usando a morte e a impermanência de forma criativa


Recentemente recebi a notícia do falecimento de duas pessoas de forma súbita, inesperada. O impacto da realidade da morte sempre nos pega de surpresa! É como se estivéssemos refletindo pela primeira vez sobre a impermanência desta vida!

Lama Gangchen Rinpoche escreveu em seu livro “Autocura Tântrica III” (Ed. Gaia) como usar a consciência da morte e da impermanência de forma criativa. Quando estamos sensibilizados pela morte de alguém, este texto nos toca ainda de modo mais profundo. Confiram:

“A razão por que não usamos bem a oportunidade fantástica que esta vida oferece para nossa autocura é o fato de guardarmos secretamente no coração a esperança de vivermos para sempre. Sem contato algum com a realidade, desperdiçamos todo nosso tempo nas atividades desta vida. É claro que precisamos trabalhar, relaxar, dormir, nos divertir, fazer compras e consertar a casa; mas precisamos também ter uma perspectiva para a nossa situação atual.

Sabemos que apenas um louco perderia tempo decorando seu quarto de hotel, mas nos comportamos assim durante toda a nossa vida. Quando a realidade nos pega de surpresa no momento da morte, levamos um grande choque ao vermos nossas fantasias interrompidas pela desintegração do corpo. É melhor então enfrentarmos a verdade agora e temer a morte enquanto somos jovens e podemos fazer algo para melhorar suas condições e a situação de nossa próxima vida através da Autocura. Se lembrarmos da morte todos os dias, rapidamente perderemos a fascinação neurótica por esta vida, e nossas atividades do dia-a-dia se tornarão assim ações autocurativas. Caso contrário, é melhor morrermos jovens, pois teremos menos tempo e oportunidades para colocar programas autodestrutivos em nosso computador da realidade.

Lembrando da morte e da impermanência, produzimos uma quantidade enorme de energia para nossa prática de autocura. Esse é o motivo por que os iogues tântricos usam malas feitos de osso, potes de crânio e outros objetos afins, e não porque são mórbidos ou gostam dessa moda. No começo da prática, pensar sobre a morte desvia a mente das trivialidades. Já que não conseguimos abandonar nossos apegos, devemos ao menos encontrar uma forma de usá-los positivamente. À medida que a prática avança, pensar na morte passa a nos encher de energia e intensidade e, por fim, abraçando a morte nós a conquistamos com a prática do estágio de completamento. Se estivermos muito assustados para enfrentar nossa própria morte, não poderemos realizar com sucesso o estágio de completamento pois, no momento em que nossa energia se concentrar e a respiração cessar, ficaremos desesperados e nossa prática será bloqueada pelo medo.

Se pensarmos na morte agora, no momento em que ela acontecer de verdade poderemos morrer em paz e sem arrependimentos. Meditar sobre a morte é um processo de cura, pois nos faz enfrentar nossa recusa, raiva e depressão, até finalmente chegarmos a um estágio de aceitação e paz interior. É melhor fazermos isso agora, antes que uma doença terminal apareça, pois, caso isso aconteça, corremos o risco de não ter tempo suficiente para aceitar psicologicamente nossa morte, morrendo então com a mente cheia de medo e raiva, justamente o que desejamos evitar. A última mente grosseira do momento da morte (quando a respiração cessa) ativa o Karma que nos projeta para a próxima vida. Morrendo com uma mente feliz e em paz, teremos uma próxima vida feliz e em paz. Por isso, temos que enfrentar a morte agora.

Além disso, é apenas aceitando a morte que podemos viver de verdade. Como disse Kelsang Gyatso, o Sétimo Dalai Lama: ’Depois do nascimento não se tem descanso nem liberdade na corrida ao encontro com Shinje Raza, o Senhor da Morte. O que chamamos de vida é apenas uma jornada na estrada para a morte’.

Intelectualmente, todos sabemos que vamos morrer. Precisamos, porém, integrar esse conhecimento em nosso coração, no lugar da crença secreta “eu não vou morrer agora”. Devemos meditar sobre o fato de que nem mesmo os cientistas podem evitar a morte. Algumas pessoas acreditam que guardando o corpo congelado em nitrogênio líquido poderão ficar em estado de “suspensão”, até que os cientistas descubram uma forma de revivê-las. Mas ninguém jamais encontrará um método para unir novamente o corpo e a mente, uma vez que eles tenham se separado no momento da morte. A morte é programada em nosso corpo no momento em que ele é concebido, e ninguém jamais poderá deter sua inevitável decomposição. Segundo após segundo, nossa respiração está sendo consumida, e nos aproximamos mais e mais do abraço da morte. Shije Radza, o Senhor da Morte, está devorando todos nós. E como não sabemos exatamente quando nosso momento chegará, é melhor praticarmos a Autocura hoje, e não amanhã, por via das dúvidas...

Devemos usar o tempo que usualmente passamos lendo jornais ou assistindo noticiários na televisão como uma forma de autocura, por exemplo, meditando sobre a morte. Ao vermos as formas horríveis como algumas pessoas morreram no dia anterior, devemos sentir: “Isso poderia acontecer comigo”. Precisamos nos identificar com as pessoas das histórias que assistimos para perceber assim nossa própria impermanência. Que outro motivo nos levaria a assistir tais coisas? O desejo de se deprimir e de ter algum tipo de divertimento sádico?

Nada evitará nossa morte; nenhum programa de exercícios, vitaminas, injeção de placenta, macrobiótica, ioga, viver em um ambiente limpo, nada. A única coisa que separa esta vida da próxima é nossa respiração, que pode cessar a qualquer momento. E quando esse momento chegar, quem nos ajudará? Quem será nosso verdadeiro amigo e nosso verdadeiro inimigo? Nossa riqueza nos causará apenas sofrimento, especialmente se soubermos que outra pessoa ficará com ela. Nossos amigos não poderão nos ajudar, e até nosso corpo vai nos trair: quando mais precisarmos dele, ele começará a morrer em nós. A única coisa que nos ajudará será o nosso Lama Curador, a Autocura, a companhia espiritual e o conteúdo do disco do espaço interior. Por isso, o melhor investimento é começarmos a praticar a Autocura e a programar apenas informações positivas em nosso disco interior a partir de hoje.Devemos tentar imaginar como será nossa morte. A finalidade dessa meditação não é nos deprimir ou assustar, mas sim nos convencer de que, se desejamos ter uma experiência positiva da morte, precisamos começar a integrar a Autocura em nossa vida já, e não depois da carreira, dos negócios, da família, etc. A qualidade de nossa morte está em nossas próprias mãos. Se aceitarmos nossa morte e impermanência, não ficaremos deprimidos como poderíamos pensar num primeiro momento. Ao contrário, teremos mais liberdade e felicidade interior, pois muitas das trivialidades da vida deixarão de ter influência sobre nós. As oito emoções desequilibradas perdem o poder sobre nossa mente e, então, naturalmente passamos a ter muito mais paz interna em meio às circunstâncias mutantes da vida. Apenas essa razão já é suficiente para fazermos as pazes com a morte. Precisamos nos preparar agora para a longa jornada de nossas vidas futuras, arrumando cuidadosamente nossa única bagagem: o conteúdo de nosso disco do espaço interior.

Esse é o objetivo da meditação sobre a preciosa vida humana, a morte e a impermanência. É um remédio forte, mas nós precisamos dele para nos tirar da condescendência de nossas atitudes mundanas que, despercebidas, pouco a pouco vão desperdiçando nossa vida e energia”.



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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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