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Você tem medo de morrer?


Todas as vezes que tive a oportunidade de fazer essa pergunta a alguém, escutei respostas diferentes. Quando disseram que sim, os medos mais comuns eram: sofrer uma dor incontrolável, ser humilhado, ficar dependente, separar-se de pessoas queridas ou sentir-se arrependido por ter vivido inutilmente. Mas o maior medo era o de sentir o próprio medo.

Sob um aspecto mais geral, o medo da morte é o resultado de um tabu.
Se tivéssemos mais familiaridade com a própria idéia da morte, não a veríamos sob o manto da tragédia. Quanto mais tentamos fugir de um medo, mais ele cresce.

A consciência da morte nos ensina a desfrutar a vida com mais intensidade e, ao mesmo tempo, de maneira menos dramática. Se encararmos com naturalidade o fato de que somos mortais, valorizaremos muito mais cada momento da vida.

Sob um aspecto mais sutil e profundo, não são os objetos e as situações externas que criam em nós o medo da morte, mas a idéia - ilusória - de um EU permanente e de existência inerente, que seria aniquilado com a morte.
O medo da morte, então, surge como uma atitude defensiva egóica frente a essa desintegração.

Muitos de nós estamos estancados pela idéia de reconhecer a morte como uma aniquilação. Nuland escreve em “Como morremos” (Ed. Rocco): “Nenhum de nós parece psicologicamente apto a lidar com o pensamento de nosso estado de morte, com a idéia de uma inconsciência permanente em que não existe vazio nem vácuo - e simplesmente não existe nada. Isso parece tão diferente do nada que precede a vida”.

Temos dificuldade de sustentar a idéia de não sermos nada. Não é natural pensar em algo que não tenha continuidade. A certeza de uma continuidade após a morte ajuda-nos a lidar com o niilismo de nossa cultura materialista, em que o abstrato e o invisível não são reconhecidos como verdadeiros e possíveis.

Precisamos aprender a ver além das aparências imediatas. Temos de aceitar a existência de níveis sutis da realidade que não são concretos nem mensuráveis. Enquanto não ampliarmos a idéia acerca do que somos, teremos dificuldade para compreender que não somos apenas uma mente pensante!

Quando encaramos a morte como uma transformação e não como um fim, o medo generalizado da morte perde o seu poder sobre nós, e a energia vital, até então bloqueada pelo medo, é liberada, gerando disponibilidade e alegria de viver.

Um dos medos mais fáceis de dissolver é o relativo à dor. Com a medicação correta, pode-se controlar a dor sem obscurecer a consciência do paciente. Hoje em dia, isto já é possível.

Ao sentir medo, em geral, sentimo-nos frágeis e isolados. Mas se tivermos alguém com quem compartilhar nosso medo, logo nos daremos conta de que eles são universais, o que nos ajudará a sair do isolamento.

O Medo e a Morte são dois "indutores" poderosos, que nos levam a buscar o autoconhecimento. Refletir sobre a impermanência leva-nos a buscar com maior dedicação a vida espiritual.

Por isso, os textos budistas aconselham-nos a pensar em nossa própria morte três vezes ao dia. Se nos ocuparmos apenas com a vida material, não daremos espaço para essa prática, que faz com que estejamos prontos para o momento em que nossa morte chegar.

Na próxima semana, falaremos sobre como fazer companhia a uma pessoa que está próxima da morte.


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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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