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Egocentrismo hoje

Egocentrismo hoje

por Luís Vasconcellos

Se eu disser que o egocentrismo é hoje uma das características mais insanas – sob o ponto de vista psicológico – atinge a humanidade como um todo - estarei apenas sendo descritivo e informal, pois basta olhar em volta e assistir o show diário de acontecimentos cotidianos.
O homem e a mulher atuais são egocêntricos, como tal, não se enxergam, um ao outro, de fato.
Pode acontecer da mulher, para sua decepção, esperar que o homem aja de acordo com as expectativas dela. Vice versa, o homem sofre no relacionamento por desejar que a mulher se conduza do mesmo modo masculino que lhe é familiar. As relações, portanto, são de desencontro, decepção e desilusão. Ela quer envolvimento e ele quer, bem, sexo... Ele quer cumplicidade e satisfação e ela quer julga-lo e enquadra-lo em seus próprios valores.

Todo relacionamento, de qualquer tipo, pode ser descrito como uma relação Eu e Tu/ o Outro.
Se um EU convive com o Outro que este imagina desejável, sob seu próprio ponto de vista, claro, então este Eu não se relaciona, de fato, com o Outro que está ali presente ao seu lado e, sim, com o que este Outro deveria ser, para atender, de modo absolutamente mágico, todas as suas expectativas egocêntricas. Quem se relaciona com o Outro, sempre comparando-o com o que ele deveria ser (para atender suas expectativas, carências etc.), só procura responder a uma questão: Estará o Outro fazendo aquilo que eu desejo e quero e necessito? Em caso contrário este Outro não me serve (quem não tem um “rei” na barriga?!). Sob o ponto de vista do egocêntrico, o Outro é um servo que deverá “suprir carências, proteger dos medos e compreender as boas e sempre convenientes explicações/justificativas que o Eu tenha para oferecer para tudo que faz”.
Todo egocêntrico está em busca de cumplicidade mais do que em busca do convívio com o Outro.

Quem se coloca deste modo em uma relação, infelizmente, está trabalhando diligentemente para o seu fracasso. A maioria, infelizmente, está presa ao Ego e portanto, só conhece o Outro através de uma comparação entre o que este É e o que este DEVERIA ser (para satisfazer as expectativas do EU). Pois bem, quem assim se coloca numa relação, só vê um fantasma do Outro, uma fantasmagórica imagem idealizada do que o Outro deveria ou poderia ter sido. Um ideal construído na usina de carências, medos, frustrações e necessidades do próprio EU.
Neste sentido, quem vê verdadeiramente o Outro? Quem, nestas condições, tem abertura de visão para enxergar quem é este Outro, obviamente diferente do próprio EU?

Adão e Eva estão mesmo fora do paraíso que, neste caso, significaria a perfeita e natural integração e sincronicidade entre as polaridades masculinas e femininas. Caso houvesse integração, todos veríamos com clareza as necessidades do Outro, ainda que diferentes das nossas.
Se o Universo nos construiu e criou com polaridades, o mínimo que nos cabe fazer é compreender as diferenças no funcionamento da outra pessoa com quem nos relacionamos.

No caso da relação homem/mulher: Se ela dá o número do telefone pra ele, no ver dele, já é preliminar do sexo. Se ele liga e ela aceita encontra-lo é preliminar do sexo. Com freqüência, o mais importante é conseguir conquistar do que se envolver muito com a conquistada.
Para ela, muitas vezes o significado é o mesmo, mas podem ser outros... Ela pode, por exemplo, estar buscando parceria, envolvimento, comunhão de interesses a respeito do relacionamento. Ela pode estar desejando ser mãe e construir uma família...
O abismo entre o Eu e o Outro é gigante. Estou fazendo piada com o masculino, mas não pretendo enquadra-lo numa categoria ou julgamento... Só estou construindo um exemplo comum hoje em dia. . Os homens que não se enquadrem nesta descrição tão precária têm minha solidariedade...

Às vezes a lembrança de que somos animais de uma determinada espécie, o Homo Sapiens (quem sabe, um dia, será sábio!) ajuda-nos a situar algumas das diferenças básicas entre as perspectivas masculinas e femininas. Sob o ponto de vista de uma espécie que precisava sobreviver em um meio muito difícil e perigoso, cercada de feras que a viam como comida, cercada por todos os lados pela possibilidade da morte iminente, o que realmente importava, especialmente ao macho, manter-se disposto para a cópula o ano todo e espalhar suas sementes por todo lado, sempre que pudesse. A multiplicação era o principal, a variedade idem... Vice-versa, sob o ponto de vista biológico e psicológico da fêmea, que acaba ficando gestando nove meses e, depois, anos comprometida com um ser jovem e extremamente dependente dela, a perspectiva era, e é, completamente diferente. Em assim sendo, ela espera dele(s) e da relação com ele(s) estabilidade, sustento, segurança física e emocional e ainda, geralmente, proteção, carinho, cuidado e respeito pela sua existência. Elas não desejam competição e guerrear como a polaridade masculina geralmente deseja. . Um homem que se declare carente destas mesmas coisas terá sua masculinidade posta em dúvida!
Para ele(s) este preço biológico e psicológico é demasiado. Em especial se ele tem como espalhar sementes com quem não lhe exige nenhuma destas demandas pesadas e difíceis. Não há homem na face da terra que ainda não tenha sido, alguma vez, acusado de falta de compromisso...

Não é difícil constatar o enorme abismo que se cria entre as expectativas de um e de outro.
O Universo criou, deste o seu princípio, os opostos e, entre eles, as possibilidades do abismo (separação, conflito, desencontro e carência) e da integração (cooperação, união, entendimento e prazer). Entre estes extremos, ele colocou alguns desafios psicológicos. Dentre eles, a identificação do macho com o seu papel de macho (um garanhão sempre pronto para a cópula!) para quem a fêmea é o que lhe falta para ser e sentir-se completo, garantindo para si a satisfação plena.
No caso da fêmea da nossa espécie, a identificação com o papel feminino a predispõe a necessitar de maior estabilidade, e a procurar estabelecer e sustentar uma dinâmica de relação durável, porque uma vez que ela esteja concebendo um filho, por exemplo, sua dependência, impotência, passividade e crescente inoperância prática a faz julgar relevantes o comprometimento para com ela e com os frutos do relacionamento. Ainda que estes períodos sejam pouco freqüentes eles existem por si e ainda são os mais importantes sob o ponto de vista da espécie.
Não se trata de categorizar o homem de “sexo forte” e a mulher de “sexo frágil”, como antigamente se fazia e, sim, de descrever algumas características que, até onde se possa ver, continuam exatamente as mesmas para todos os envolvidos...
Ninguém errará em considerar que estes “papéis” masculino e feminino estão hoje difusos e indistintos. Pois é, ruim com eles, pior sem eles! Não existem “caminhos válidos” onde prevaleça o desrespeito aos nossos valores e necessidades caracteristicamente humanos. O desrespeito nunca trouxe, não traz, nem jamais trará felicidade a ninguém.

Então, por quais razões nós, seres humanos, vivemos tanta incompreensão, tanto afastamento, decepção e dor no terreno do relacionamento entre o Eu e o Outro?
No esforço de construir uma reflexão a este respeito vou apresentar – em alguns capítulos - alguns vícios psicológicos tremendamente nocivos à construção de um relacionamento humano (homem/mulher, pais/filhos, mestre/discípulo etc.).
Cada tipo de limitação pessoal, de qualquer tipo, impõe ao Outro uma fronteira e, às vezes, um abismo intransponível. Ali construímos barreiras e defesas protetoras.

Todo egocêntrico tem um renitente desejo, sempre o mesmo, de levar vantagem e de conseguir o máximo de satisfação mediante o mínimo de esforço. O egocêntrico exige respeito, confiança, consideração,carinho, sem que ofereça ao Outro aquilo que exige. Ele entrega pouco e reclama de tudo que recebe.

O que está ao nosso alcance de mudar não é o Outro e sim, nós mesmos.
O que precisa mudar é o foco de nossa atenção e interesse: nos preocuparmos menos com os evidentes defeitos e imperfeições alheias (comparadas ao Ideal nutrido por nós mesmos!) e nos ocuparmos mais com a qualidade daquilo que estamos “entregando” de nós mesmos para a relação. Valeria a pena nos ocuparmos mais com o que sai de nós do que com o que desejamos receber ou identificamos no outro como possibilidades de satisfação pessoal.

Onde encontrar tanto os limites quanto os alcances para a expressão do próprio EU? A resposta é: nos relacionamentos com os outros!

Um Eu que jamais tenha sido capaz de compreender o funcionamento do Outro – muitas vezes o oposto do desejado - é um EU para o qual só lhe resta o abismo do egocentrismo ( a autonomia e a centralidade exageradas e desequilibradas), o que significa, em poucas palavras ser solitário e isolado, mesmo tendo alguém ao lado e convivendo diariamente com esta pessoa. Este é o verdadeiro abismo.
Quem vê o abismo que ele mesmo está construindo em torno de si, pode se espantar com a feiúra do que está, de fato, entregando, mas também pode se revoltar com este estado de coisas e mudar... Pra isso, muitas vezes, o que falta é só um pouco de coragem para enxergar as próprias limitações. Uma vez feito isso, o resto, o que vier daí, só pode ser bem vindo...

Compreendendo os próprios limites e alcances! É assim - e só assim - que o EU descobre seus reais parâmetros de ser e de fazer, de pensar e de expressar!

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Atualizado em 08/06/2009 15:48:56

Luís Vasconcellos é Psicólogo e atende
em seu consultório em São Paulo.

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