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Irmãs e Rivais

por Flávio Gikovate em Psicologia
Atualizado em 14/10/2002 11:40:39


A rivalidade entre irmãos existe em todas as culturas e está relacionada à disputa pelo amor da mãe. Essa competição, entretanto, quase não existe entre gêmeos ou quando a prole é muito numerosa. Nas famílias menores, com duas ou três crianças, a rivalidade é extrema. A disputa pelo amor dos pais costuma fazer de um o favorito do pai, e do outro o preferido da mãe. Um eventual terceiro filho passa a ser rejeitado por todos.

As crianças pensam por conta própria desde muito cedo. Aos 3 ou 4 anos estão tirando conclusões daquilo que observam. É claro que muitas dessas deduções são equivocadas e, quando há erro no processo, o engano pode se perpetuar. Frases como "olha como sua irmã come direito" e "como ela é mais bem-educada que você" são registradas como indicação de preferência pela irmã, que se torna objeto de uma hostilidade ainda maior.

Os critérios comparativos são um importante reforço da já natural rivalidade entre irmãos, o que atiça ainda mais a competição entre eles e agrega ao relacionamento uma boa dose de agressividade. O desejo de sobressair cresce muito, mesmo porque isso provocará uma sensação ruim no irmão. Sabemos disso por experiência própria: já nos sentimos por baixo quando foi o outro quem se destacou. É como uma gangorra: quando um sobe, o outro desce.

A disputa é menor quando o rival (o irmão) é do sexo oposto. Quando são duas meninas, o grau de competição depende de quanto uma tenha mais dotes – físicos e intelectuais – que a outra, bem como da natureza psíquica delas. Há pessoas menos competitivas e invejosas. Acredito que a regra, cheia de exceções, seja a seguinte: as pessoas mais inteligentes são mais competitivas. Irmãs também tendem a ter temperamentos antagônicos. Se uma é extrovertida e agressiva, a outra será mais quieta e controlada. Se uma for muito organizada, boa aluna e filha exemplar, a outra tenderá a ser bagunceira e apresentar dificuldades na escola. Elas disputam pelo amor dos pais – e pela identificação com eles – e também competem para provar qual dos temperamentos será o mais bem-sucedido. É triste, pois muitas vezes nem chegam a perceber que poderiam vir a ser boas amigas.

Na rivalidade entre as mulheres, a aparência física é vista como fundamental. A mais bela será hostilizada pela que se achar mais feia. Será aberta e sutilmente atacada, sendo esta última manifestação de inveja a mais comum: a agressividade disfarçada para que o agressor não denuncie sua sensação de inferioridade. Se a mais feia for a mais simpática e a mais inteligente, estaremos, então, diante de recíprocas competições, onde cada uma tenta desenvolver o lado em que se destaca, tanto para obter o sucesso social como para vencer na disputa em família.

Não é raro que a mãe se associe a uma das filhas. É quase a história da Cinderela, expressão da competição entre parentes do mesmo sexo. Aqui estamos falando da rivalidade que existe entre as mulheres dentro de uma família. É claro também, como aprendemos com Freud, que este não é o único sentimento que as une. A ambivalência é uma das nossas características, de modo que o amor também está presente, permeando essas complexas relações.



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flavio
Flávio Gikovate é um eterno amigo e colaborador do STUM.
Foi médico psicoterapeuta, pioneiro da terapia sexual no Brasil.
Conheça o Instituto de Psicoterapia de São Paulo.
Faleceu em 13 de outubro de 2016, aos 73 anos em SP.

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