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O Administrador da Dor - Parte 4

O Administrador da Dor - Parte 4

por Luís Vasconcellos

Podemos passar anos sem nos apercebermos que a maior parte daquilo que pensamos - do modo “peculiar” como o fazemos - não é e nem nunca foi, verdadeiramente nosso.
Cada vez que, inseguros quanto ao que decidir ou fazer, sucumbimos ao conforto de nos comportarmos em acordo/consonância ao convencional / assimilado / imitado / aprendido... em cada uma destas centenas de milhares de milhões de impasses, paradoxos e hesitações, quase que invariavelmente, vence o ponto de vista convencional e o plano individual se vê reprimido.
A cada vez que este processo se reinstala, a consciência individual perde/transfere o poder (de decisão, de ação, de expressão) que é seu, para o ADMINISTRADOR DA DOR, que assim se fortalece de forma exagerada, em detrimento do senso pessoal e da orientação INDIVIDUAL nas decisões.
Qualquer um pode observar o quanto nossas crianças (ainda não submissas ao AdmDor) tentam, inventam, erram e aprendem enquanto que o adulto civilizado não erra, não inventa, não se aventura e vive cheio de tédio...

O poder de criar, experimentar, originar, seguir o próprio instinto ou intuição acaba reprimido nos adultos. É este o poder que deve ser reivindicado: o poder que sempre pertenceu ao EU, mas que acaba transferido paulatinamente ao AdmDor, tornando-se, este último, uma simulação, apequenada e tímida, das verdadeiras alternativas e possibilidades, que se oferecem no “horizonte” de uma consciência individual ativa e funcional.
A conseqüência de iluminarmos a consciência individual (ativando-a mais e mais!) é que esta se confronta com os valores e conceitos estruturados e organizados no sistema de funcionamento do Administrador da Dor (que, como já vimos, fundamenta-se em medos de qualquer tipo), diferenciando-se gradativamente dele.

Os relatos pessoais a respeito desta mudança no foco da consciência (migrando do eixo do pensamento originado no AdmDor para o do pensamento individualizado) apontam a direção de uma descoberta, a de que ao emprestarmos uma “voz” ao pensamento do AdmDor estabelecemos um fato psicológico importante: aos poucos o plano individual se diferencia do plano coletivo (internalizado) e este último começa claramente a aparecer, aos olhos do EU, da forma que de fato é, ou seja: internalizado, sim, porém coletivo (familiar/social) e não verdadeiramente individual.
De certa forma, temos que reivindicar o poder pessoal (de arbítrio, decisão, escolha) que, ao longo da vida, foi delegado e transferido ao AdmDor.
Então, o que se pode fazer (ao emprestar ao AdmDor uma voz!) é nos diferenciarmos, cada vez mais, deste pensamento, antes tomado como único e coeso, reforçando e estimulando os resultados do pensamento verdadeiramente individual.
Temos que ir deixando, aos poucos, de nos identificar com os valores e conceitos reunidos no AdmDor em prol do desenvolvimento de nosso próprio e pessoal ponto de vista a respeito de tudo e de todos. Temos que filtrar todo o conteúdo do AdmDor para ver, aos nossos olhos, o que fica e o que não fica. O que é útil e serve à vida e o que não serve à possibilidade de se viver plenamente.

O que sempre noto é que o pensamento assim individualizado vai se construindo de forma progressiva e gradual, em função das descobertas pessoais, e é de serventia muito maior para que um sistema de decisão e de orientação consciente se construa.
O pensamento que se origina verdadeiramente da consciência individual passa a servir, progressivamente, como orientação pessoal, nas decisões, escolhas e opções que temos que fazer em nossas vidas.
Intimamente, o que se passa é que o AdmDor perde parte do poder absoluto que já teve (o Guarda autoritário) e a consciência individual, como se fosse um OUTRO PENSAMENTO (sentido e experimentado como diferente do repetitivo, velho e conhecido pensamento do AdmDor) passa a considerar, refletir e meditar a respeito do vivido, de um modo espontâneo e rico, vislumbrando alternativas e possibilidades antes não percebidas...
Alguém ainda duvida de nossa insuperável facilidade para seguir os ditames da moda, hábito social/familiar ou preconceito disseminado?
Nesta sociedade massificante, quem não despertar a consciência individual vive em um transe inconsciente e automático sem se aperceber dele.
Ao agir de acordo com, p. ex., um preconceito adquirido, o fazemos de modo irreflexivo, sem o concurso de nossa consciência individual. Geralmente, é com base no pensamento convencional que julgamos e condenamos, fofocamos, comentamos e analisamos tudo e todos.

Ora, em terapia, observamos que uma consciência verdadeiramente pessoal só se constrói gradativamente, com o concurso da análise e do senso de realidade pessoal, tornando-se a referência básica para escolhas, atos e decisões individuais.
De nada adianta a pessoa imitar o que não lhe serve – ainda que, em si, seja uma coisa boa -.
De nada adianta a pessoa seguir, por exemplo, a profissão do momento ou a que “está dando mais dinheiro”, se esta não corresponde à sua vocação.
De nada adianta agir dentro do convencional (e do que está prescrito) em situações reais que não correspondam aos “modelos” rígidos de onde se originaram os “regulamentos” a serem seguidos.
Há momentos em que um “estilo” de “sempre agir prontamente”, por exemplo, é a melhor coisa a fazer; em outras, o agir desta forma pode ser desastroso. Quem está preso ao AdmDor é repetitivo; quem se diferencia dele, acaba tendo, para cada momento, a resposta que o momento exige...
Quando submissos (à ação coletivizante do AdmDor) somos repetitivos, previsíveis e sempre os mesmos. Vice-versa, quando nos diferenciamos dele, somos pessoas que estão presentes no seu “aqui e agora” decidindo o que fazer a cada momento...
O que se observa, no exercício de ativar e de responder ao plano pessoal e íntimo, é que a responsabilidade individual aumenta na mesma medida em que o prazer (de agir em maior consonância consigo mesmo!) eleva a auto-estima e agrega confiança e originalidade às expressões e ações individuais.
Até mesmo as palavras a serem usadas em uma simples frase passam a ser escolhidas de modo que se consiga transmitir da melhor maneira possível o que de fato se pensa, evitando-se os subentendidos e as “concordâncias implícitas” que nunca funcionam eficazmente na vida prática.
Quanto mais a consciência está aliada ao Guardião interno, menos – proporcionalmente – ela necessita de Guardas (internalizados ou não!) para balizarem seu caminho.
Guardiões desenvolvem um SENSO enquanto que Guardas (assim parece o AdmDor em seu discurso cheio de advertências e medos!) dão ênfase total ao “regulamento”. Os primeiros amam a experiência e são abertos à renovação, os últimos são demasiadamente zelosos quanto à própria segurança, para poder absorver os riscos implícitos em qualquer busca / descoberta / experimentação, cujo valor e sentido sejam duvidosos ou incertos.
O Guarda serve à adaptação a um mundo fixo e imutável: o mundo civilizado e aculturado.
O Guardião serve à alma em busca do saber.
O Guarda serve ao Conhecido. O Guardião serve ao Desconhecido.
O Guarda atende às pressões externas e se submete, invariavelmente, àquilo que ele supõe que os “olhos dos outros” gostariam de ver...
O Guardião atende também às necessidades e pressões íntimas. Ele inclui, entre as suas prioridades, além da segurança e manutenção própria, o atendimento, na medida do possível e do realizável, para inclinações pessoais, instintos, fantasias, intuições ou para a busca prazerosa da realização pessoal.

De nada adianta fugir do fato de que carregamos potenciais que desconhecemos, talentos e qualidades que nos são inconscientes. Para cada um de nós, o prejuízo de fazer aquilo em que não se “acredita” sempre é grande, frustrante e deprimente.

Tenho que advertir que não há substituto eficaz para uma psicoterapia, pois um texto tem limites muito estreitos – no que se refere a uma transformação da consciência individual.
Só quem está muito próximo de uma descoberta pessoal pode se beneficiar de um simples texto, desde que este seja verdadeiramente esclarecedor. E isto se deve ao fato da consciência individual já estar ativada e funcional.
Felizmente, fica sempre a possibilidade de que cada um desperte para o valor essencial da conscientização (Individual) e do aprendizado que possa sintetizar por si próprio.

Não é possível responder aqui às muitas perguntas que recebi. Os textos foram desenvolvidos para tal. Contudo:
1- Sim, Camila, é um AdmDor exagerado que está por detrás da ação castradora de uma “super-mãe” que não deixa seu filho desenvolver-se, independer-se e viver a sua própria vida... Você tanto pode ter sido a vítima de uma “super-mãe” quanto pode ter desenvolvido este estilo por si própria. Uma AUTORIDADE insegura e controladora, com poder nas mãos, pode ser muito negativa para todos que dela dependam.
2- Sim, Jorge, é conseqüência de um AdmDor desequilibrado e exagerado que você - movido por sua insegurança e medo de perder o ser amado – praticamente afoga a companheira em ciúmes e tentativas sufocantes de controlar a vida dela. Observe que, infelizmente, você acaba atraindo para si o resultado contra o qual você parece se esforçar tanto por evitar, ou seja, a separação e o fim do relacionamento. Não deve ter sido a primeira vez, assim como não será a última se você não se fortalecer e “sair do transe” do pensamento originado no AdmDor. Enquanto você segue inconscientemente os seus medos, colherá resultados indesejáveis. Necessita libertar-se e diferenciar-se do AdmDor, relativizando-o e se tornando mais aberto para a vida, com tudo o que ela tiver pra oferecer.
3- Sim, Samantha, é o seu AdmDor que desestabiliza sua auto-estima antes de uma entrevista importante para um emprego (em outras pessoas, pode ser antes de uma prova, antes do casamento, antes de ter que falar pra uma grande platéia, antes de tomar uma decisão importante e assim por diante!). O AdmDor lhe assopra pressentimentos pessimistas e a faz ficar convencida de que o pior virá. Mas é bom notar que, ainda assim, ainda que você esteja se movendo, digamos, “de freio de mão puxado,” acaba indo meio descrente, mas vai e enfrenta... Contudo, o seu desempenho, livre dos pensamentos obscuros do AdmDor, seria mais eficiente, límpido e seguro.
4- Sim, Sr. Prudente, o Sr. não deixa seus subordinados se desenvolverem ou terem autonomia e é bom que esteja notando isto. Note também que o Sr. tem um estilo gerencial autoritário, do tipo “toma e controla” e que nunca delega responsabilidades. É fato, o Sr. atrai para si responsabilidades excessivas e é a sua insegurança básica, seus medos, que o impedem de confiar e de saber tirar, das suas costas, o peso suplementar de tentar carregar tudo e todos. Suas dores nas costas são o fruto das tensões que compõem a base emocional do funcionamento do seu AdmDor.

Àqueles que não citei aqui, peço desculpas, pois acredito ter respondido às suas perguntas (e pedidos de ulteriores esclarecimentos) através dos textos posteriormente enviados.
A todos agradeço a participação e a oportunidade de diálogo em um assunto tão importante e relevante – em nossas vidas – como este.

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O Administrador da Dor - Parte 3


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Atualizado em 08/04/2005 13:55:22

Luís Vasconcellos é Psicólogo e atende
em seu consultório em São Paulo.

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