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O amor e o casamento - Parte 2

por Flávio Gikovate
Publicado dia 28/08/2008 16:14:49 em Psicologia

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Casamento

Falar de casamento também significa ter de separar casamento de amor. Pode parecer ingenuidade de minha parte falar isso, mas na cabeça das pessoas, notadamente na dos jovens, amor e casamento não se separam. E mesmo nas cabeças mais adultas, o amor intenso pede casamento, o que ainda é entendido como um compromisso sólido, estável e de coabitação entre duas pessoas.

De fato, amor e casamento também têm de ser claramente separados em duas categorias: o amor é uma emoção e o casamento é uma instituição – derivada do amor há muito pouco tempo e, aliás, não com resultados brilhantes. Nos tempos em que o casamento derivava de outras causas que não o amor (arranjos racionais entre famílias), parecia ter um número maior de bons resultados; isto, sem dúvida, requer a necessidade de revermos os termos do que acontece quando adolescentes e adultos jovens se encantam emocionalmente. E aí entramos em um outro problema fundamental: o encantamento. O que faz com que uma determinada pessoa, em um dado momento neutra para mim, se transforme repentinamente em um ser especial, único, sem o qual não posso mais viver? O que provoca essa mágica? Esta pessoa seguramente será uma figura que substituirá a materna; mas, na minha opinião, ao mesmo tempo nada tem a ver com a mãe. Será que sempre escolhemos as pessoas ou os objetos amorosos adultos de acordo com algum problema que tivemos com ela?

Ao se falar, por exemplo, que um homem escolhe a mulher conforme a imagem e semelhança da mãe quando teve uma boa relação com ela, não se está esclarecendo nada: ele escolhe a mulher parecida com a mãe ou o oposto dela porque todas as mulheres do mundo são parecidas ou opostas a ela. Será que sempre escolhemos os objetos amorosos adultos de acordo com algum problema que tivemos com ela? Ao se falar, por exemplo, que um homem escolhe a mulher conforme a imagem e semelhança da mãe quando teve uma boa relação com ela, não se está esclarecendo nada: ele escolhe a mulher parecida com a mãe ou o oposto dela, porque todas as mulheres do mundo são parecidas ou opostas à sua mãe.

Esse tipo de explicação não leva a lugar algum; então é muito perigosa essa relação entre os eventos infantis e as coisas adultas; aliás, tenho um certo pavor a esse tipo de raciocínio – tão ao gosto de muitos profissionais de psicologia – que nos leva a imaginar que o adulto se transforme dessa ou daquela maneira por causa de certo trauma. Tantas pessoas transformaram-se do mesmo modo e não tiveram o mesmo trauma. É preciso um espírito um pouco mais rigoroso e científico. O fato de a explicação ser lógica e bonita não garante a sua veracidade. Para tal, precisamos usar critérios um pouco mais apurados.

Não quero ser exageradamente behaviorista (a minha especialidade é basicamente psicanalítica), mas tenho formação médica e, nesse sentido, muito rigorosa: acho que conceitos têm de ser comprovados e não simplesmente ser bonitos. Em psicologia, as pessoas fascinam-se mais com a estética do que com a verdade. O fato de o conceito ser bonito, lógico e harmonioso parece agradar mais do que se fosse verdadeiro. A busca da verdade parece ser um caminho muito pouco percorrido nesses últimos tempos. Indubitavelmente, é preciso buscá-la. Caso contrário, chegaremos a um amontoado de conceitos pouco úteis, o que resulta, até mesmo, em um certo desprestígio profissional perante algumas pessoas e notadamente na área médica, dada a visão pouco objetiva e de maus resultados na prática.

Sobre o amor adulto, penso como Platão, que, aliás, é um dos autores mais fascinantes a tratar essa questão (trabalhou esse tema em alguns de seus diálogos mais lindos, O Banquete, Fedro e um diálogo sobre a amizade, que se chama Menon); para ele, na vida adulta, o amor deriva da admiração. Portanto, o encantamento se dá porque o indivíduo admira no outro algo muito especial, que, evidentemente, vai depender dos seus próprios critérios de admiração, os quais são variáveis dependendo da época e também em função da própria auto-estima. Apenas para vocês terem uma idéia do que estou querendo dizer: quando o indivíduo tem de si um juízo negativo, a tendência para o encantamento pelo oposto é quase inevitável. Este acaba por determinar um tipo de encantamento que talvez seja muito interessante em certos aspectos; mas do ponto de vista prático, ou seja, daquilo que o casamento tem de concreto, vai implicar relações catastróficas – pelo menos atualmente.

Hoje em dia, existem algumas diferenças em relação ao que era no passado, onde o homem "dava as cartas" dentro da relação conjugal; as mulheres obedeciam e pronto! Na atualidade, os dois pensam. E assim sendo, é evidente que afinidades intelectuais, de pontos de vista, projetos de vida e objetivos transformam-se em coisas fundamentais, porque garantem a harmonia. Diferenças acabam por determinar brigas, tensões e contradições de todo o tipo – tanto que hoje é difícil imaginar que o casamento possa existir e funcionar bem, a não ser quando baseado em afinidades.

Isso não foi sempre assim, e o próprio Freud defendia a idéia de que as boas ligações afetivas eram entre opostos. Em Introdução ao Narcisismo, ele afirma isso e acha até que se ligar a pessoas afins é uma expressão narcisista, o que quer dizer que a pessoa tem amor por si própria e só consegue amar alguém parecido consigo mesma. Na realidade, não vejo assim. O indivíduo que estiver satisfeito com o seu jeito de ser tende a achar graça em pessoas semelhantes a ele, sem isso significar narcisismo ou ausência da capacidade de amar a terceiros, mostrando claramente boa aceitação em relação à sua pessoa. Se gosto de conviver com alguém meigo, calmo, educado, não-agressivo e generoso, não há razão para chamar isso de narcisismo, a não ser como o jogo de palavras que, a partir de um certo ponto de sua obra, visava a busca da coerência com a teoria (o que, na minha opinião, era um dos grandes problemas de Freud). Quer dizer, ele já estabelecera o conceito de narcisismo, que significava amor por si mesmo – o que, aliás, também não é o meu ponto de vista.Para mim, os narcisistas, com esse temperamento mais egoísta que lhes é peculiar, são pessoas que na verdade se odeiam, têm de si um péssimo juízo. Sabem que são um blefe! Uma mentira! Então, também não há amor por si mesmo no narcisismo: ele é um jogo de faz-de-conta, onde as pessoas agem como se fossem extraordinárias, sabendo que não o são. E não querem que ninguém saiba a verdade. O encantamento por opostos parece-me basicamente um sinal de baixa aceitação de si mesmo. Há uma outra razão que leva as pessoas ao encantamento pelo oposto, que tratarei mais adiante.De qualquer modo, o amor deriva da admiração e pode se dar entre todos os tipos de pessoas. Posso encantar-me com quem nada tem a ver comigo. Agora, com relação ao casamento, se tal encantamento se der apenas porque a amo e as diferenças existirem como um fato marcante, provavelmente irão minar e destruirão a relação afetiva e o próprio casamento em pouquíssimo tempo.

Há estudos interessantes feitos nos Estados Unidos. Americanos são o oposto dos psicanalistas: eles medem e pesquisam tudo, tornando-se objetivos até demais em certos aspectos. Estudaram pessoas, por exemplo, que se casaram menos apaixonadas mas segundo critérios racionais de afinidade, ou seja, um casamento racional – mais ao gosto de nossos avós. O sentimento era menor em uma primeira fase, mas, no final de cinco anos de vida em comum, as relações afetiva, conjugal e amorosa cresceram. Pessoas com um bom relacionamento apegam-se umas às outras. Por que não haveria um avanço do aconchego e da boa qualidade afetiva com o passar do tempo? Ao contrário, as que se casam apaixonadas, mas ricas em diferenças fundamentais – de caráter, estrutura, projeto de vida – cinco anos depois, aproximadamente, divorciam-se.

Portanto, não basta que elas se amem para que o casamento perdure. Casamento é um assunto diferente de amor; ele também exige afinidades práticas por ser uma sociedade civil, uma instituição para fins práticos. E se não for respeitado esse lado prático, lógico e objetivo, as coisas não evoluirão favoravelmente, o que significa acabarmos efetivamente com a idéia de que o amor tem de estar em oposição à razão. Ambos têm de andar juntos para que o casamento não aborte. Aliás, é preciso olhar com objetividade para os fatos outra vez. Aproximadamente 90% dos casamentos são fracassados em menos de sete anos. Com relação ao número de divórcios, possivelmente ele seja menor.

Portanto, é preciso saber que o casamento é uma empreitada de alto risco e, portanto, torna-se necessário que a razão dela participe. Aliás, o desprezo pelo lado racional do ser humano é a outra face da modernidade psicológica, em que o importante é sentir e não mais pensar. É querer que o humano seja subumano. Não aprovo o oposto: as pessoas querem que o humano seja sobre-humano, pronto para a caridade, a renúncia, o sacrifício integral. Mas também não gosto do desprezo pela razão, que faz o homem parente próximo demais do macaco. Existe um lugar nessa escala para nós. Não somos macacos e nem santos. Há um ponto intermediário no qual podemos ficar e com a razão absolutamente em ação e funcionamento.



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Sobre o autor
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Flávio Gikovate é um eterno amigo e colaborador do STUM.
Foi médico psicoterapeuta, pioneiro da terapia sexual no Brasil.
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Faleceu em 13 de outubro de 2016, aos 73 anos em SP.
Email: [email protected]
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