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O exercício do auto-amor

por Maria Aparecida Diniz Bressani

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Muito se tem falado sobre o Amor hoje em dia.
Uma frase moderna e que ecoa por todos os ambientes atualmente é: “Para amar alguém é necessário primeiro se amar”.
O que quer dizer exatamente esta frase?
Estão nos convocando ao egoísmo do tipo “primeiro eu, depois você”?
O que é primeiro me amar para depois amar o outro?
Estes questionamentos levam-nos a uma outra frase muito mais antiga, bíblica mesmo: “Amai ao próximo como a ti mesmo.”
O que é amar ao próximo como a mim mesmo?
Como posso amar o outro como a mim mesmo?
Devo amar o outro e eu igualmente? Como assim?!
Percebe que essas duas frases - a antiga e a moderna - remetem-nos à relação Eu-Outro, onde o que se tem no meio é o Amor?

As duas frases - a Lei Divina e a lei mundana - apresentam-nos a necessidade de haver Amor tanto para si mesmo como para o outro; doado, obviamente, com generosidade.
Como posso doar algo generosamente se não tenho nem para mim mesmo?
Como sei que estou me amando e não sendo absolutamente egoísta e econômico na minha relação com o outro?
Amar significa também prover a subsistência e o prazer.
Como está a sua vida dentro destas duas questões?

Você está se alimentando adequadamente ou está se enchendo de “tranqueiras” e acha que está bom assim?

Está se dando ao direito de descansar? Ou você está se sobrecarregando com atividades de todo o gênero e não sobra tempo nem para dormir sossegado? Vive em estado de stress?

De todas as vezes que as pessoas lhe pediram algo, quantas vezes, que dentro do seu coração você teve vontade de falar “não”, mas, você falou “sim”? Ou você já nem sente um “não” gritando dentro de você e automaticamente atende às requisições?

Estas últimas questões tem a ver com subsistência: subsistência do seu Eu físico e de sua individualidade dentro da sua própria vida e nas suas relações. Como quando você era um bebê e era preciso alguém o amar para alimenta-lo, cuidar do seu bem estar físico, trocando suas fraldas e ficando atento a todo e qualquer desconforto que você pudesse estar passando. Naquela época precisava haver alguém lhe dando amor que se refletia nos cuidados à sua pessoa para que pudesse sobreviver. E hoje, quem cuida de você?

E o prazer, como anda?
Quais atividades você tem tido que realmente lhe dão prazer?
Você sabe, verdadeiramente, o que lhe dá prazer?
“Para amar alguém é necessário primeiro se amar.”

É necessário primeiro se prover, se abastecer de Amor, se proporcionando condições de bem estar físico e emocional.

Para se proporcionar condições de bem estar é preciso se dar ao direito de ter direitos.
Direitos nós já os temos desde que fomos concebidos. Inclusive, existem leis que nos garantem proteção à existência desde a nossa fecundação: o direito à vida!

Contudo, viver é fácil, qualquer ser geralmente consegue viver. Mas o ser humano é um ser vivo mais sofisticado, pois confere significado à sua existência. E o maior significado da existência humana está no Amor. Por isto é um assunto tão presente agora e sempre, desde os primórdios até hoje.

Quanto maior o nível de autoconsciência que o indivíduo tem, mais claros são seus deveres e seus direitos perante a vida. E quanto mais nos damos ao direito de usufruir dos nossos direitos mais nos comprometemos com nossos deveres sem senti-los como um fardo ou uma “cruz” a carregar.

Usufruir dos seus direitos tem a ver com autoconsciência.
Autoconsciência leva à maior capacidade de escolha: ser capaz de escolher qualquer coisa porque é bom ou lhe faz bem - desde que não seja contra ninguém - nem porque é certo ou errado - simplesmente porque seu coração assim o pede.
Usufruir dos seus direitos, portanto, é saber ouvir seu coração. Ouvir seu coração é saber ouvir seu Eu interior, é saber se amar, é se dar Amor. E isto só se consegue se autoconhecendo e descobrindo o que realmente lhe faz bem.

A partir de então, o Amor vai se instalando em suas vidas e o próprio exercício do Viver com Amor é retroalimentado: quanto mais se coloca Amor na própria vida, mais amorosa sua pessoa e a sua vida se tornam.
Aí, amar o outro genuinamente é um passo automático...

Automaticamente, começa a relacionar-se com o outro sem esperar que o outro o supra de um Amor que você já está se dando. Portanto, só quando me dou Amor genuíno posso dar Amor genuíno para o outro!
Neste ponto chegamos à segunda frase, a Lei Divina: “Amai ao próximo como a ti mesmo.”

Ao observarmos atentamente esta frase percebemos que é Lei estabelecer relações honestas e verdadeiras de troca de Amor, onde Eu dou ao Outro o que dou para mim - nem mais, nem menos - e o Outro, idem.
Onde é lei estabelecer relações com direitos e deveres iguais: é seu direito e seu dever amar e ser amado; e ao outro também.

Quando não se dá Amor genuíno a si próprio o que se dá ao outro é algo cheio de segundas intenções, como uma “isca” para se conseguir do outro aquilo que se deve dar: o Amor genuíno.
Por isto voltamos à primeira frase: “Para amar alguém é necessário primeiro se amar”, entendemos que somente quando nos damos Amor primeiramente, podemos dar Amor real ao outro e amá-lo como a nós mesmos, ou seja, Amor puro, e, consequentemente, viver esta segunda frase “Amai ao próximo como a ti mesmo.”

E este é o verdadeiro exercício do auto-amor: aprender a ouvir a voz do seu coração, pois ele sabe exatamente do que você, como indivíduo e ser humano, precisa para ser feliz e fazer as pessoas à sua volta felizes, amar e ser amado, genuinamente.


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Maria Aparecida Diniz Bressani é psicóloga e psicoterapeuta Junguiana,
especializada em atendimento individual de jovens e adultos,
em seu consultório em São Paulo.

Email: mariahbressani@yahoo.com.br
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Publicado em: 10/03/2003 11:58:53

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