O que transforma a dor em trauma no seu corpo?
Autor Rosemeire Zago
Assunto PsicologiaAtualizado em 23/07/2026 12:54:43

"O TRAUMA é o Perigo que você sentiu e a Proteção que não recebeu...
...e a Segurança é a CURA"
Rosemeire Zago
Imagine a seguinte cena: você era uma criança pequena, caiu, se machucou e começou a chorar. O que o seu corpo precisava naquele segundo? De proteção. De um colo. Do abraço acolhedor para acalmar o medo e avisar ao seu Sistema Nervoso que estava tudo bem.
O acolhimento e a proteção seriam o caminho para o seu corpo encontrar a Segurança. Eles não fariam a dor sumir magicamente, mas trariam a certeza de que você não estava sozinha, ajudando o seu Sistema Nervoso a se autorregular e a processar aquele medo.
Mas o que aconteceu? Talvez você tenha ouvido um "engole o choro, não foi nada" . Ou viveu outra cena muito comum: chorar sozinha no quarto escuro até dormir, esperando por um amparo que nunca veio. Como bem aponta o Dr. Bessel van der Kolk, o que define o impacto de uma dor é: quem estava lá com você? Enfrentar o medo sem ter um colo para te acolher e te proteger é o que mantém o seu Sistema Nervoso travado no modo Perigo.
O desamparo e a invalidação da sua dor são os fatores que configuram o trauma no seu corpo. O trauma é, em essência, a proteção que você não recebeu. É o medo que ficou preso no corpo, em um Sistema Nervoso que ainda não percebeu que o Perigo passou.
Seja um sofrimento que aconteceu aos 5 ou aos 50 anos, se a dor foi grande demais e você se sentiu sozinha e desamparada, o seu Sistema Nervoso ficou travado naquele momento. Na infância, uma criança não tem recursos biológicos para se acalmar sozinha - ela precisava ter recebido a proteção e o amparo de um adulto (a corregulação). Como essa proteção externa não veio, e como na vida adulta a maioria de nós não aprendeu a acolher a própria dor, o caminho da cura consiste em dar a você mesma, hoje, exatamente aquilo que faltou no passado: a aceitação, o acolhimento, a proteção e a validação do seu sofrimento, sem minimizar o que passou.
Ressignificar o trauma é olhar para a sua história com carinho, acolhendo as suas dores, emocionais e físicas. E, principalmente, começar a conversar com você mesma, enviando uma mensagem clara de que o Perigo ficou no passado e que você está segura hoje:
"Eu sinto muito por você ter passado por isso. Mas o Perigo ficou no passado. Você sobreviveu. Você está segura aqui e agora, e eu estou com você."
Sentir-se protegida hoje não é apenas um pensamento positivo; é o sinal biológico necessário para o seu corpo finalmente entrar em modo Segurança e sair daquele estado onde ficou travado no medo, oferecendo a ele, finalmente, a proteção que faltou no momento do medo e da dor.
Na infância, quando enfrentamos situações de medo e desamparo de forma recorrente, o Sistema Nervoso entra em sobrecarga crônica e perde a flexibilidade de retornar ao Estado de Segurança. Como lutar ou fugir é impossível para uma criança, o corpo é forçado a ir para o Congelamento ou para a Submissão (o comportamento de se anular e agradar para se proteger).
O resultado disso na sua vida adulta? Apesar do tempo ter passado - e principalmente se o seu corpo não teve a chance de processar e ressignificar essas dores -, você continua presa no Estado de Sobrevivência. O seu corpo continua agindo como se ainda estivesse enfrentando aquele Perigo lá de trás, deixando você rígida, anestesiada, com um cansaço exaustivo ou com o corpo adoecido.
Afinal, um Sistema Nervoso saudável e flexível é justamente aquele que ativa um Estado de Sobrevivência quando há Perigo, mas que desativa esse Estado de forma automática assim que encontra proteção e Segurança. Como geralmente o alarme ficou travado ainda na infância, o sistema não sabe fazer esse caminho de volta sozinho.










in memoriam