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Psicoterapia Breve: Uma Abordagem Eclética - Parte 2


2. Um referencial teórico, ainda que genérico

Quando se fala em "psicoterapia breve sem escola" não se está pensando em ausência de qualquer tipo de fundamento teórico e sim numa visão eclética, onde todos os pontos de vista são levados em conta. O ideal seria que o terapeuta estivesse familiarizado com as diversas correntes que têm se digladiado, que evitasse o conflito e buscasse extrair o que de melhor elas têm para o tratamento de seus pacientes. Uma psicoterapia focada no paciente implica em domínio da prática sobre a teoria: o terapeuta observa a realidade com cautela e a maior objetividade possível e tenta encontrar o melhor caminho de ajudar seu paciente. Trata-se, comparando com a moda, de um trabalho de "alta costura" e não o "pret a porter", uma técnica e um procedimento que terão que servir para todos. Cada caso é um caso.

Acho que a expressão que pode definir um posicionamento teórico eclético e de utilidade operacional é a de que "o homem é um ser bio-psico-social", o que ouço desde os tempos em que era estudante de medicina e que só muito recentemente entendi exatamente o que significa - ou acho que entendi! Que tenhamos nascido com uma máquina bastante interessante e potente, constituída de 100 bilhões de neurônios, é fato que não desperta mais nem espanto e nem dúvidas. Apesar de possuí-la, vivemos quase como os macacos superiores por cerca de 100 mil anos antes de termos podido iniciar a constituição de uma vida típica da nossa espécie. As eventuais conquistas, feitas por pequenos grupos de humanos, não se perpetuavam, não passavam de uma geração à outra. Não havia forma de registrar tais aquisições, de modo que cada novo grupo humano tinha que iniciar tudo do zero.

Nosso cérebro só começou a ser usado de modo mais efetivo quando fomos capazes de construir nossa principal e mais fascinante conquista: a linguagem. Ao associarmos símbolos aos objetos, situações e ações, ao usarmos fonemas para descrever tais símbolos, fomos capazes de construir seqüências deles - e seus sons - que descreviam acontecimentos e também indicavam o que se passava na mente da pessoa que falava e que agora passava a ser inteligível aos outros membros daquele grupo, uma vez que todos aceitavam os mesmos símbolos como indicativos das mesmas coisas. Desta forma, tornou-se possível a transmissão de informações também de uma geração à outra, iniciando um processo de acumulação de conhecimento que desembocou nos avanços que temos acompanhado ao longo dos últimos séculos e, principalmente, das últimas décadas.

A construção da linguagem criou condições para que as correlações entre os símbolos (agora chamadas de palavras) pudessem se dar das formas as mais variadas e mesmo sem conexão direta com o mundo material. Surgem hipóteses, idéias a respeito de condições que não existem, surge a capacidade de julgar, de avaliar a conduta dos semelhantes, surgem as possibilidades de constituição de grupos cada vez maiores através da constituição de certa ordenação e também da racionalização do trabalho; e assim por diante. Surge também a mentira! Ou seja, a capacidade de uma pessoa falar que sente o que não sente, que assistiu o que não ocorreu, que fez o que não fez. A memória passa a ser usada de forma mais eficaz, uma vez que armazena mais e com mais facilidade graças ao uso das palavras. Surgem também os lapsos de memória.

Mesmo que compreendamos que o nosso sistema de pensamento deriva da atividade cerebral, a verdade é que não temos a menor idéia de como aquelas células são capazes de produzir pensamentos. E muito menos como estes pensamentos se correlacionam entre si, como se comunicam e interagem com outros humanos, como eles geram novos pensamentos que poderão se transformar em novos fatos que irão, através da ciência e seus avanços, gerar um habitat cada vez mais modificado em relação àquele que o homem primitivo encontrou. Assim, o pensamento é parte de um fenômeno que percebemos como autônomo, independente da função cerebral. Vivemos nossa subjetividade como constituída por algo imaterial, um universo de idéias, emoções e correlações que não tem mais nada a ver com a atividade cerebral e que só irá depender dela nos casos em que ali vierem a existir problemas ou danos físicos efetivos. O fato é que vivenciamos nossa subjetividade como desvinculada do cérebro. Talvez daí se tenha extraído a idéia tradicional de que ao nosso corpo se incorporava uma Alma - termo com o qual simpatizo muito e que proponho seja reintroduzido em substitição a Mente, que tem uma conotação um tanto material e científica que nos induziria a pensar que temos mais conhecimento sobre o assunto do que efetivamente temos. Alma implica em algo quase mágico, capaz de produzir a música, as obras de arte, os poemas, e tantas outras coisas boas e más.

Ao usar o termo "alma" estou pensando que ela é uma parte imaterial que se formou a partir da atividade cerebral, mas que ganhou vida própria, na qual os pensamentos se inter-relacionam de uma forma livre, aleatória e independente do corpo - do qual só volta a depender, insisto, em casos de danos na parte física que a sustenta. Assim, existem os problemas derivados de danos na atividade cerebral. Existem também problemas e sofrimentos derivados de equívocos que surgem no seio das atividades próprias da alma. Correspondem a dois domínios independentes, mas que interagem permanentemente. Na metáfora de informática, útil já que este setor da atividade sempre tenta imitar o que acontece conosco, o cérebro é o hardware enquanto que a alma corresponde ao software.

A complexidade própria da nossa condição não para por aí. Por força de vários elementos, alguns de natureza instintiva e outros ligados ao estilo de vida que fomos construindo, vivemos em grupos cada vez maiores, definidos por interesses territoriais, divisão do trabalho e dos seus frutos, língua única e estilos de vida definidos que se constituíram ao longo da vida das gerações que nos antecederam. Elas construíram também um conjunto de normas de valor e de pontos de vista com os quais nos familiarizamos desde pequenos e que constituem nossas crenças. Assim, o homem, em virtude de suas características biológicas e principalmente do modo como funciona sua alma, se constitui e se organiza em grupos sociais peculiares.

Nascemos com o cérebro praticamente formado. A alma inexiste, e terá que ser moldada a cada geração - ontogênese. Isso acontece de modo mais fácil do que no início da nossa história como espécie - filogênese - justamente porque o grupo onde hoje nascemos já estava composto e acumulou informações práticas e crenças. Cada nova criatura abastece, ao menos inicialmente, sua alma incorporando os usos e costumes do seu grupo, de modo a melhor fazer parte dele. Nossa constituição sofre, pois, brutal influência do grupo onde crescemos e das crenças que o regem. Cada geração fará avanços justamente ao colocar em dúvida as crenças adquiridas sem reflexão e propondo novos conceitos práticos ou de estilo de vida. Assim, nossa alma irá primeiro se constituir a partir das normas do grupo social em que nascemos e depois irá ser o fator de modificação dessas mesmas normas. Nunca será demais ressaltar a importância das primeiras e fundamentais relações afetivas entre cada bebê e seus pais, especialmente sua mãe, na formação de cada novo adulto, uma vez que elas exercem papel essencial na maneira como as normas e crenças da cultura são transferidas em cada contexto familiar específico.

Mesmo não sendo o caso aqui de discutir em profundidade como se constituem nossas sociedades e as regras práticas que as regem, fica claro o quanto somos os criadores delas e como somos influenciados por elas. Aliás, tudo o que se passa conosco como espécie é assim: o cérebro "produz" a alma que ganha vida própria e pode mesmo influir sobre o corpo. O homem, agora possuidor de alma, se constitui em sociedade e depois ela irá influir sobre as almas que as constituíram e sobre as gerações que vierem. Ou seja, o corpo gera a alma e essa a sociedade. A sociedade influencia sobre a alma e o corpo, enquanto que a alma influencia o corpo e a sociedade, sendo verdade que nada disso existiria sem a atividade cerebral.

Fica muito difícil, pois, pensarmos em nós como possuidores de uma "natureza humana" fixa, algo similar ao que acontece com os outros animais, inclusive com os mamíferos superiores com os quais muitos autores insistem, equivocadamente a meu ver, em nos comparar. Costumamos chamar de nossa natureza aquilo que nossos antepassados formaram como hábitos, ou seja, a mistura de algumas propriedades biológicas com um conjunto de crenças. Porém, tais crenças - e mesmo o que é biológico - constituem apenas uma das possibilidades, uma das quase infinitas possibilidades. Nossa "natureza" se modifica em cada época, pois temos que nos adaptar àquilo que nós mesmos criamos em termos de meio externo, estrutura social e até mesmo convicções intelectuais. Somos seres incrivelmente mutáveis, de modo que me soam um tanto simplistas afirmações, por exemplo, de neurobiologistas influenciados pelas teorias darwinianas de que estamos apenas a serviço da perpetuação da espécie. Prefiro o ponto de vista de Ortega y Gasset, de que o homem não tem natureza; o homem, segundo ele, tem história!

Este caráter "plástico" que nos caracteriza explica inclusive certas variações que se passam no domínio da psicopatologia. Minha geração viu desaparecer as manifestações de histeria de conversão, aqueles quadros que correspondiam às primeiras pacientes de Freud. Ainda vi muitos casos de paralisia e cegueira histérica nos meus tempos de médico residente, isso nos anos de 1966-7. Todos sabemos que a freqüência de homossexualidade cresce e decresce conforme as normas de cada época e sociedade. Hoje assistimos uma epidemia de casos de bulimia e anorexia, fenômenos que eu desconhecia 30 anos atrás. E assim por diante. É sempre bom estar atento a mudanças tanto no plano dos distúrbios psíquicos como mesmo das doenças físicas. No meu caso, tive o desprazer de acompanhar alguns dos primeiros casos de AIDS que surgiram no Brasil, trazidos por homossexuais viajantes e que freqüentavam boates e bares em Nova York e Paris. A perplexidade era enorme, pois ainda não se tinha idéia do que estava acontecendo. Isso se deu por volta de 1980.

De uma forma bem geral e apenas com finalidade operacional tentarei relatar quais as principais peculiaridades de cada um destes três segmentos que nos constituem no que diz respeito aos distúrbios psíquicos que nos interessa tratar por meio das técnicas breves de psicoterapia. Elas serão apenas mencionadas aqui e algumas delas serão melhor explicadas ao descrever alguns casos típicos de propostas terapêuticas, o que farei adiante. No que diz respeito ao cérebro, dependemos dele basicamente nas seguintes condições:
a) Quando se estabelecem reflexos condicionados envolvendo principalmente situações de medo ou ansiedade. Tais reflexos são fáceis de serem estabelecidos e por vezes difíceis de serem desfeitos. São mecanismos importantes nas fobias de todo o tipo, em distúrbios obsessivos e participam da constituição de vários outros distúrbios.
b) Quando existem experiências traumáticas graves se constitui uma síndrome cada vez mais bem conhecida que se chama Síndrome do Stress Pós Traumático.
c) Quando surgem quadros depressivos relacionados com alterações de concentração de Serotonina nas sinapses cerebrais.
d) Nos casos de dependência química de drogas psicoativas, onde parece haver a interferência de outras aminas cerebrais, especialmente a dopamina.

Quando pensamos naqueles distúrbios que dependem essencialmente da alma, de falhas derivadas do processo de pensar, sentir e avaliar situações e pessoas, podemos enumerar principalmente as seguintes:
a) Erros de avaliação de si mesmo, comprometendo a auto-estima. Isso em diversas fases da vida, dependendo de peculiaridades físicas, forma como somos tratados por pais e irmãos, de resultados que obtemos em tarefas a que nos propomos.
b) O quanto fomos capazes de superar os obstáculos que fazem parte de nossa história de vida, de modo a termos ou não completado nosso amadurecimento emocional e também a plena evolução moral.
c) Os dramas e dilemas que derivam do fato de que temos muitas escolhas fundamentais a fazer ao longo da vida: escolha de parceiros sentimentais, escolhas profissionais e também de estilo de vida.
d) As angústias que podem derivar das grandes questões de nossa existência e que a alma pode detectar: o sentido da vida, o medo da morte, possíveis condições posteriores ao fim dessa vida etc.

Por fim, e apenas esboçando questões extremamente complexas, dependemos do modo como as normas de uma dada sociedade influem sobre nós, propondo valores consistentes ou não, exigindo desempenhos possíveis ou não. Vejamos alguns exemplos capazes de desestabilizar nossa subjetividade:
a) Nos desequilibramos quando a moda nos propõe padrões estéticos que não fazem parte de nossa biologia e não são fáceis de serem atingidos por nós, como é o caso de um peso ideal muito baixo. Isso implica em aumento grande dos casos de bulimia e anorexia, além de enorme número de pessoas que passam a depender de substâncias químicas anorexígenas, sem falar da epidemia de cirurgias estéticas de resultados duvidosos. b) As pressõ
es de desempenho sexual só têm crescido. Sempre foram grandes sobre os homens, o que é importante fator nos distúrbios sexuais masculinos. Têm se tornado muito grandes também sobre as mulheres, levando muitas delas a problemas e a fingir orgasmos que inexistem.
c) Temos sofrido pressões enormes no sentido da socialização, especialmente os jovens, em especial no trato com o sexo oposto, o que gera timidez. Os meninos sofrem pressões enormes no sentido de estarem de acordo com os padrões agressivos tidos como típicos da virilidade; quando não conseguem, ficam predispostos ao desenvolvimento homossexual. As meninas sofrem pressões estéticas e de sucesso com o sexo oposto o que também gera condições facilitadoras da homossexualidade feminina.
d) Posturas de rejeição da sociedade sobre determinados grupos minoritários gerando frustração, humilhação, ressentimentos e reações emocionais indevidas. São vítimas os negros, índios, minorias étnicas em geral, divorciados ou solteiros em determinadas sociedades, homossexuais etc.
e) Pressões no sentido de padronização da vida afetiva, das pessoas todas se casarem e com parceiros complementares. Preconceitos contra aqueles que decidem viver sozinhos, ou, mesmo casados, que não querem ter filhos. Pressões para o casamento precoce podem determinar erros na escolha de parceiros, gerando dilemas emocionais de monta em momentos futuros.

É claro que esses poucos exemplos não cobrem toda a gama de questões relativas aos dilemas da vida emocional e dos distúrbios psíquicos. Fazem parte, porém, dos principais ingredientes com os quais temos que lidar na prática clínica quotidiana, pois dizem respeito à grande maioria dos nossos pacientes, especialmente aqueles que podem ser tratados pelas técnicas breves de psicoterapia.



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Flávio Gikovate é um eterno amigo e colaborador do STUM.
Foi médico psicoterapeuta, pioneiro da terapia sexual no Brasil.
Conheça o Instituto de Psicoterapia de São Paulo.
Faleceu em 13 de outubro de 2016, aos 73 anos em SP.
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