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Psicoterapia Breve: Uma Abordagem Eclética - Parte 4


4. Psicoterapia breve: as primeiras consultas

A primeira consulta em nossa especialidade é a mais importante de todas.
Inicialmente temos que nos fazer conhecer sem que isso implique em qualquer procedimento exibicionista. Temos que ser como somos e ver como aquele dado paciente reage ao nosso jeito. É claro que quando somos pessoas sinceras e razoáveis acontecerão mais simpatias do que antipatias. Ainda assim, poderão ocorrer desacertos, o que provavelmente irá se manifestar em seguida, uma vez que o paciente não retornará. Temos que nos fazer confiáveis, dignos das confidências que ouviremos. Isso, como disse, se faz automaticamente. Faz-se facilmente confiável quem é, de fato, confiável!

Ouvir uma história de forma tranqüila, sem deixar de se emocionar, mas ao mesmo tempo sem se surpreender demais é uma arte. A impessoalidade do terapeuta não é minha postura e nisso estou de pleno acordo com a psiquiatra norte-americana J. Halpern que escreveu um interessante livro sobre empatia. É preciso ter domínio sobre as próprias emoções, pois se emocionar implica em viver a história que se está ouvindo, exatamente como nos acontece quando vamos ao cinema. Porém, é preciso vez por outra sair da situação de empatia para um momento racional de reflexão e ponderação, comunicada ou não para o paciente conforme consideremos necessário e oportuno. Jamais devemos agir de modo a fazer julgamento de valores. O bom terapeuta não é um juiz, apesar de ter seus valores. Tem que respeitar o modo de ser do paciente.

É preciso cuidado para não fazer observações precipitadas, ainda que muito apropriadas, agudas e corretas. Muitos pacientes eu perdi por ter sido “eficiente” demais na primeira entrevista, falando coisas que os surpreenderam a tal ponto que jamais voltaram. Quando revejo, com calma, esses meus procedimentos, eles estiveram a serviço da minha vaidade, de querer mostrar como eu era competente e rápido. Rápido demais para o gosto de determinados clientes. Rápido e ineficiente, já que o paciente foi embora. É preciso serenidade e paciência para falar as coisas de forma adequada e na hora oportuna. É evidente que não existe a menor possibilidade de jamais errarmos. Só não erra quem não faz. Aliás, os críticos da empatia como processo através do qual o terapeuta se envolve e se emociona dizem que tal procedimento aumenta o número de erros devidos a um eventual envolvimento excessivo do profissional. Talvez seja verdade. Porém, penso que erra mais aquele que, acovardado, prefere o distanciamento que impede o pleno contato com a alma do paciente.

De todo o modo, a primeira consulta serve para o mútuo conhecimento e também para que se construa um projeto de trabalho. Para o melhor andamento desse encontro fundamental o interessante seria podermos dispor de um tempo variável e não fixado em 45-50 minutos. O ideal é que a primeira consulta termine depois que se tenha construído o plano de tratamento. Se isso não for possível, o faremos no próximo encontro que, de fato, será a continuação do primeiro. O projeto deverá ser construído em comum acordo. Quando se pensa em psicoterapia breve pensamos em algo como 25-30 consultas, em geral semanais. Ou seja, algo como seis meses de tratamento. Um projeto definido de trabalho se torna indispensável, uma vez que a tendência de um trabalho amplo e aberto como um leque é de durar por muito mais tempo.

O terapeuta coloca os aspectos que lhe pareceram mais relevantes do que foi conversado e propõe que se siga um determinado caminho. Deverá ouvir o que o paciente tem a dizer, se ele considera adequadas as observações que ouviu, se acha mesmo que a problemática levantada pelo terapeuta é a que mais o incomoda. É preciso sempre estar disponível para ouvir o paciente de igual para igual e não da forma autoritária que costuma ser a postura de tantos maus terapeutas. Não se trata da imitação da relação pai-filho e sim de algo mais nivelado, onde a única diferença consiste no fato do terapeuta ter mais conhecimento e experiência para lidar com os temas em questão. O autoritarismo do terapeuta tem a ver com a arrogância intelectual que muitos têm por se acharem parte de um grupo de eleitos, os membros dessa ou daquela “seita”. Nada é mais deprimente do que presenciar a altivez de quem parece que não tem, não teve e jamais terá problemas semelhantes aos dos seus pacientes.

Muitas são as vezes em que o relato do paciente mostra a existência de mais de um problema. Por exemplo, um homem pode ter uma disfunção sexual e também problemas no relacionamento amoroso com sua esposa. Pode ter a disfunção sexual, ser solteiro e ter problemas de ordem profissional, econômica, estar frustrado em outros aspectos da vida social etc. Pode ser tímido ou agressivo com as mulheres. E assim por diante. Se temos que escolher um tema para trabalhar, penso que o mais razoável é tratar da disfunção sexual, uma vez que é possível que muitos dos outros problemas tenham direta ou indireta relação com esse. E mais, que a solução desse problema venha acompanhada de progressos espontâneos em outras áreas. Assim, conversa-se claramente com o paciente sobre o fato de existir mais de uma dificuldade, de que se tem que fechar o leque e focar em um só aspecto como sendo o fundamental porque senão o tempo de duração da terapia poderá ser longo demais - e ainda por cima isso pode implicar em perda de eficiência e menor chance de obter algum resultado em qualquer das áreas de conflito e mesmo em um trabalho de mais longo prazo. Nem sempre a resolução daquele problema específico implica no fim da terapia. Aliás, o termo terapia breve significa mais do que tudo a disposição prática de se buscar resultados. Não é obrigatório que termine com a resolução do problema principal que trouxe o paciente para o trabalho psicoterapeutico. Muitos ficam tão encantados com o procedimento terapêutico que se dispõem a práticas mais longas. Estaríamos diante de um falso dilema, qual seja o da análise terminável ou interminável. Penso que é dever do terapeuta avisar o paciente que os principais objetivos propostos no início foram atingidos e que, dali para adiante, se está passando da fase de trabalho que havia sido programada para outra mais genérica. Cabe ao paciente decidir se quer continuar a trocar vivências com seu terapeuta ou se prefere continuar sem esse tipo de troca. Cada caso é um caso e não cabe a nós decidir o destino da outra pessoa. Afinal de contas, somos meros consultores e não temos nenhum tipo de poder ou autoridade.

Não quero me alongar aqui na descrição do processo de construção de projetos terapêuticos porque eles dependem de cada problema e também de cada tipo de paciente. Alguns são mais verbais e gostam de reflexões psicológicas e filosóficas amplas. Outros são mais diretos e práticos e querem ir atrás de resultados da forma mais objetiva. É importante respeitar o modo de ser do paciente e não impor a eles sempre o mesmo procedimento. Ao menos em parte, é preciso dançar conforme a música. Talvez alguns aspectos do que escrevi até aqui fiquem mais claros à medida que exemplifiquemos por meio de alguns casos clínicos ainda que genéricos. Isso significa que não irei falar desse ou daquele paciente em particular, mas de tipos genéricos construídos com base em minha experiência com milhares de pessoas.



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flavio
Flávio Gikovate é um eterno amigo e colaborador do STUM.
Foi médico psicoterapeuta, pioneiro da terapia sexual no Brasil.
Conheça o Instituto de Psicoterapia de São Paulo.
Faleceu em 13 de outubro de 2016, aos 73 anos em SP.
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