Qual trauma da infância você tenta curar no seu relacionamento?
Autor Rosemeire Zago
Assunto PsicologiaAtualizado em 06/08/2026 14:05:42

Quando olhamos para a nossa vida afetiva, é muito comum nos perguntarmos por que certos sofrimentos parecem insistir em se repetir. Muitas vezes, vivemos dinâmicas abusivas - seja trocando de parceiro e revivendo as mesmas histórias, seja permanecendo por anos em uma relação tóxica sem compreender o que nos impede de sair.
Na maioria das vezes, a pessoa sequer imagina que está revivendo o passado. Como bem mostrou Alice Miller em seus estudos sobre o trauma infantil, existe uma cegueira emocional: a necessidade de suprir o que nos faltou na infância é tão intensa que nos impede de enxergar o que está bem na nossa frente, dentro da nossa própria casa.
Acreditamos que tudo não passa de "falta de sorte no amor" ou justificamos como um temperamento difícil do outro. No entanto, a Psicologia e a Neurociência nos mostram uma verdade fundamental: quem escolhe nosso parceiro - e a forma como nos vinculamos - é nosso inconsciente, regido pela nossa história não resolvida e pelo nosso estilo de apego. O modo como você recebeu carinho e atenção na infância vira o seu modelo de amor, mesmo que tenha faltado proteção, segurança ou presença.
A Repetição Invisível do Passado
Quando uma dor ou situação de desamparo acontece na dinâmica familiar, ela deixa marcas profundas - o que chamamos de trauma: qualquer experiência que foi dolorosa demais para a criança processar e para a qual faltou proteção, acolhimento ou segurança.
A escolha de parceiros que agem e nos tratam exatamente como nossos pais agiam na infância é uma busca do Inconsciente para tentar ressignificar esse trauma antigo através da reencenação de padrões conhecidos, o que chamamos de Repetição de Padrão.
Essa repetição da infância aparece de formas muito diversas no dia a dia. Veja com qual você se identifica:
- A busca por aprovação: Se você cresceu com pais muito críticos ou exigentes, sem nunca receber reconhecimento e onde tudo que fazia não era o suficiente, pode se relacionar com um parceiro que vai te tratar exatamente igual, fazendo você se sentir como aquela criança.
- Se você vivenciou rejeição, desamparo ou abandono emocional: Irá se relacionar justamente com quem é indisponível emocionalmente, distante, frio ou com pessoas casadas, fazendo você se sentir novamente rejeitada, invisível ou preterida.
- O papel de salvadora: Se você cresceu sendo a criança boazinha e obediente, que aprendeu que só era vista e amada quando cuidava dos outros ou resolvia os problemas da casa, você pode continuar se vinculando a parceiros que precisam ser salvos ou consertados. Passa a assumir a responsabilidade por resolver os problemas financeiros e/ou emocionais dele para receber validação e reconhecimento que não tinha na infância - e que seu parceiro também não te dá, apesar de todo o seu esforço.
- Se você cresceu em um lar com brigas, gritos, violência, imprevisibilidade: Seu sistema nervoso aprendeu a associar o caos ao afeto. Na vida adulta, você tende a se relacionar justamente por um parceiro explosivo, frio ou imprevisível, que vai te tratar com a mesma falta de respeito e estabilidade que você vivenciou na infância, fazendo você reviver aquele antigo estado de alerta e insegurança.
- A ilusão do "modo espera": Você pode passar anos justificando e minimizando os abusos, suportando a dor no presente sustentada por uma expectativa e idealização que nunca acontece. A mesma idealização da infância.
- No ambiente de trabalho: Essa repetição pode não aparecer no seu relacionamento, mas surgir na convivência com um chefe autoritário no trabalho, com um sócio ou em uma amizade. Se você teve, por exemplo, uma mãe ou um pai autoritário, o padrão pode se repetir profissionalmente, fazendo você voltar a se sentir impotente, desvalorizada ou invisível.
- A Reparação: Presenciar, na infância, brigas constantes dos pais e a falta de afeto e carinho entre eles pode, na vida adulta, te manter em um relacionamento tóxico por anos. Não por amor, mas pela necessidade de reparação. Salvar o seu relacionamento hoje é uma busca inconsciente em curar a dor da criança que se sentiu impotente por não conseguir salvar o casamento dos pais.
O Cerne do Padrão
Como podemos perceber pelos exemplos acima, nem sempre a situação se repete na vida adulta exatamente igual ao que aconteceu na infância - como ter tido um pai alcoólatra e casar-se com alguém alcoólatra, o que também é comum.
É aqui que compreendemos a grande chave:
Repetir um padrão não significa viver exatamente a mesma cena da infância, mas sim visitar o mesmo lugar interno e sentir a mesma dor. Os cenários podem ser diferentes, mas o lugar interno de dor é o mesmo.
E por que a Repetição acontece? O nosso inconsciente busca o que é familiar porque interpreta o conhecido como segurança - mesmo que esse familiar seja doloroso e tóxico. Por mais difícil que possa ser entender isso, é assim que acontece: o cérebro busca o "perigo conhecido" em vez da "paz desconhecida",
Ela também se repete com o intuito de que, ao recriar a situação já conhecida e não resolvida da infância, você possa agora resolvê-la. Porém, na prática, encontramos exatamente o mesmo cenário tão conhecido de dor.
Sinais de que você repete padrões:
- Parceiros iguais: Escolher pessoas que te tratam como seus pais te tratavam, revivendo atitudes de controle, agressividade, frieza emocional, manipulação, críticas constantes, invalidação, imprevisibilidade ou qualquer outro comportamento abusivo.
- Mesmo papel: Assumir sempre a mesma função na relação, como a pessoa que cuida de tudo ou que cede demais apenas para evitar conflitos.
- Fim idêntico: Terminar os namoros ou casamentos pelos mesmos motivos e com os mesmos sentimentos de rejeição ou abandono.
E por que rejeitamos possíveis parceiros saudáveis?
Se você cresceu em um ambiente tóxico, abusivo ou disfuncional, é essa referência de relacionamento que ficou gravada no seu sistema nervoso. E como ele confunde o que é familiar (mesmo que seja doloroso ou abusivo) com Segurança, ele vai rejeitar um relacionamento tranquilo e saudável por ser desconhecido - e, portanto, interpretado pelo sistema nervoso como Perigo.
Quando o trauma deixa de escolher por você?
- Quando você sai do automático e faz escolhas conscientes.
- Quando ressignifica os traumas na psicoterapia.
- Quando identifica suas necessidades emocionais não supridas da infância e começa a dar a si mesma o que não recebeu.
A verdade libertadora é uma só: essa resposta do outro para suprir o que sua criança não recebeu, nunca virá, porque o parceiro atual não é o seu pai e nem a sua mãe. E você não é mais aquela criança vulnerável e impotente que nada podia fazer a não ser permanecer naquele ambiente e suportar aquela dor. Você cresceu! Continuar em uma relação que te machuca e te faz reviver dores tão conhecidas não vai curar o passado dos seus pais, e nem o seu. Sim, hoje você pode ir embora, se afastar e dar a si mesma a proteção e o amor que nunca recebeu.
A repetição de padrão só perde a sua força quando você traz a dor para a consciência. É quando aprende a acolher a sua própria história, identificar as próprias dores e passa a suprir cada necessidade emocional que a sua criança não recebeu.
Quer dar o primeiro passo agora? Experimente este exercício de conexão:
Reserve um momento a sós, feche os olhos e traga à mente a imagem da sua criança. Olhe para ela com afeto e diga: "Eu estou aqui com você. Você não está mais sozinha. Eu te vejo, eu te ouço, e vou te proteger."
E pergunte em silêncio: "O que te faltou?" Aguarde a resposta com paciência. Pode ser que ela não venha de imediato, e tudo bem. Continue fazendo essa pergunta em momentos de silêncio e presença, até que a sua voz interna consiga responder.
Quando você identifica as necessidades emocionais que não foram supridas na infância, finalmente assume a responsabilidade de dar a si mesma o reconhecimento, a validação, proteção e o amor que faltaram.
É através do autoconhecimento e do processo terapêutico que conseguimos sair do automático, curamos as nossas feridas e aprendemos a construir relações baseadas na real segurança do presente, e não mais na busca por curar o passado.
É assim que, enfim, deixamos de chamar de "amor" o que na verdade era apenas uma busca do inconsciente por reencenação e reparação.










in memoriam