Você está em Segurança ou em Perigo?
Autor Rosemeire Zago
Assunto PsicologiaAtualizado em 08/10/2026 23:06:13

Você já se perguntou por que reage de determinadas maneiras, mesmo quando sabe racionalmente que não precisava reagir assim? Por que algumas pessoas explodem diante de uma crítica, outras preferem fugir, algumas dizem "sim" para todo mundo mesmo querendo dizer "não", enquanto outras simplesmente travam e não conseguem fazer nada? E se muitas dessas reações não fossem simplesmente "o seu jeito de ser"?
A Teoria Polivagal, desenvolvida por Stephen Porges, propõe uma maneira de compreender essa dinâmica. Antes mesmo de você perceber conscientemente o que está acontecendo, seu Sistema Nervoso avalia o ambiente, seu corpo e as pessoas ao redor em busca de sinais de Segurança ou Perigo. Esse processo inconsciente é chamado de Neurocepção. É como uma câmera de segurança funcionando 24 horas por dia, captando sons, expressões, tons de voz, sensações corporais e situações que possam representar uma ameaça.
O problema é que nem todo perigo parece perigo. Uma crítica, um olhar, uma discussão, o silêncio de alguém, uma cobrança no trabalho, a necessidade de agradar, uma rotina exaustiva ou até um pensamento repetitivo podem ser interpretados pelo organismo como sinais de ameaça.
Você consegue identificar o que costuma colocar seu corpo em estado de alerta?
Quando a Neurocepção identifica Perigo, o Sistema Nervoso pode entrar em diferentes Estados de Sobrevivência. Na Luta, você confronta, discute, reage e sente necessidade de se defender. Na Fuga, precisa estar sempre ocupada, trabalhando, fazendo alguma coisa, evitando parar. Na Submissão, você agrada, diz "sim" quando queria dizer "não", evita conflitos e passa a cuidar das necessidades dos outros antes das suas. No Congelamento ou Desligamento, você trava, perde a energia, sente a mente vazia, procrastina ou simplesmente quer desaparecer.
Qual desses comportamentos parece mais familiar para você?
O interessante é que essas respostas não acontecem necessariamente porque existe um perigo real naquele momento. Uma experiência difícil do passado pode fazer com que o corpo reaja no presente como se aquilo ainda estivesse acontecendo. Você sabe racionalmente que passou, mas seu coração acelera, seu estômago fecha, sua musculatura tensiona ou sua mente simplesmente trava.
Já aconteceu de você ter uma reação muito maior do que a situação parecia justificar e depois pensar: "Por que eu fiquei assim?"
O trauma também não precisa ser necessariamente um acontecimento extraordinário. Pode estar relacionado a experiências repetidas de medo, rejeição, negligência, críticas, falta de proteção ou ambientes imprevisíveis. E o estresse não precisa vir apenas do passado. Uma rotina de cobranças, excesso de trabalho, preocupação constante, necessidade de controle e incapacidade de descansar também pode manter o organismo em permanente estado de alerta.
Talvez você esteja dizendo a si mesma que é apenas perfeccionista, controladora, ansiosa, explosiva, boazinha demais, preguiçosa ou workaholic. Mas será que esses comportamentos contam uma história diferente?
E se, por trás deles, existir um Sistema Nervoso tentando proteger você?
Uma forma simples de começar a observar esse processo é prestar atenção em três coisas quando uma reação intensa aparecer: o que aconteceu, o que senti no corpo e o que fiz automaticamente. O que provocou a reação? Meu peito apertou, meu coração acelerou, minha respiração mudou? Eu ataquei, fugi, agradei ou travei?
Compreender esse mecanismo não significa justificar todos os nossos comportamentos. Significa perceber que eles podem ter uma história e que, quando conseguimos reconhecer nossos padrões, começamos também a criar espaço para responder de outra maneira.
A Teoria Polivagal coloca a Segurança no centro desse processo. O objetivo não é viver sem problemas, conflitos ou situações difíceis, mas recuperar a capacidade de perceber quando o perigo passou e retornar à calma, à conexão e à regulação.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas "O que há de errado comigo?", mas:
"O que o meu corpo está tentando fazer por mim?"
Se este texto fez você reconhecer alguma situação da sua própria vida, escreva para mim. Conte qual parte mais chamou sua atenção, qual desses Estados de Sobrevivência você reconheceu em si ou simplesmente envie sua dúvida. Quero saber como esse assunto chegou até você.










in memoriam