Análise Transacional - Parte 4
Autor Osvaldo Shimoda
Assunto Vidas PassadasAtualizado em 12/11/2004 11:16:14
No artigo anterior de AT, eu descrevi que a estrutura da personalidade é composta de três partes: a) Pai (mãe); b) Adulto; c) Criança. Desta forma, trazemos gravados em nossa estrutura de personalidade os pais que tivemos, o adulto que somos e a criança que fomos. Essas três estruturas de personalidade se comunicam entre si em nossa cabeça constantemente em forma de diálogos internos.
Neste artigo gostaria de descrever como ocorre o funcionamento destas três estruturas de personalidade. Análise Funcional da Personalidade
Funcionalmente dividimos a nossa personalidade em:
1) Pai (mãe) Crítico (PC) : Lado da personalidade que critica, censura, pune, castiga, dá ordens, impõe regras, proíbe e que usamos em nossas relações interpessoais (comigo mesmo) e interpessoais (com os outros). É o lado da personalidade que vive julgando, condenando, apontando falhas e defeitos. O criticismo acentuado e a visão preconceituosa fazem parte também desta estrutura de personalidade.
Ex: “Como sou burro. Eu não faço nada certo”.
“Você faz tudo errado”.
“Eu não confio nos homens. São todos iguais”.
“Cala a boca você fala muito. Só fala besteira”.
“Eu odeio gente ignorante”!
Se você teve pais muito críticos, autoritários, preconceituosos, moralistas, a tendência é reproduzir essas atitudes consigo mesmo e com os outros. Em outras palavras, se você foi humilhado, maltratado, criticado ou ignorado pelos seus pais, a tendência é fazer o mesmo. Por outro lado, se você foi amado, qualificado e respeitado, a tendência também é fazer o mesmo consigo e com os outros.
Um estudo da Vara da Infância e da Juventude concluiu o seguinte: Crianças espancadas tendem a se tornarem pais espancadores. Da mesma forma, crianças abusadas sexualmente tendem a se tornar adultos abusadores. Desta forma, quando criança, incorporamos os padrões de comportamentos e os sentimentos dos nossos pais e tendemos a reproduzi-los quando nos tornamos adultos. Se você veio de uma família violenta, agressiva, onde seus pais brigavam muito, é bem provável que você vá reproduzir isso no seu relacionamento conjugal.
2) Pai (Mãe) Protetor (PP): É o lado da personalidade que protege, ajuda, apóia, ensina, estimula, incentiva, dá segurança, colo.
É o oposto do Pai (mãe) crítico (PC).
Ex: “Faça uma boa viagem. Que Deus o acompanhe”!
“Conte comigo; é só me procurar”.
“O seu trabalho está bom, parabéns”!
“Não se preocupe, vai dar tudo certo”.
Quando sirvo um café, faço um favor, apóio, oriento, encorajo uma pessoa, elogio alguém, dou um abraço bem “redondo” ou consolo uma pessoa que perdeu um ente querido, estou usando o lado protetor (PP) da minha personalidade.
Em contrapartida, as pessoas que conviveram com pais indiferentes, não participativos, ou mesmo ausentes, tendem a ter muita dificuldade em darem colo, carinho e proteção às pessoas.
3) Adulto (A) : É o lado da personalidade que pondera, usa a razão, o bom senso, analisando os prós e os contras com base na realidade para tomar uma decisão, resolver problemas.
Ex: Quando faço uma pergunta para entender melhor o comportamento de uma pessoa, busco dialogar, me inteirar mais da realidade do mercado de trabalho para saber se é o momento de mudar de emprego, estou utilizando o meu lado ADULTO da personalidade. É também o lado ético, lúcido, coerente, atualizado, bem informado, flexível, em pleno contato com a realidade.
Uma pessoa saudável é aquela que tem flexibilidade, plasticidade e um contato amplo com a realidade. Esta pessoa, portanto, ‘tem’ em si um ADULTO bem estruturado.
4) Criança Adaptada (CA):
a) Submissa: Lado da personalidade que reage passivamente por medo ou culpa. É o lado inseguro, medroso, fóbico. É aquele garotinho(a) que carregamos dentro de nós que oprime suas emoções ou desejos, vive para os outros. Funciona só na obrigação, no dever. Está sempre querendo agradar os outros, tem dificuldade de dizer não. Foi programado pelos pais a cumprir suas exigências e expectativas.
A Criança Adaptada Submissa (CAS) é conseqüência de Pai (mãe) crítico (PC) em excesso. Aprendeu a colocar os outros sempre em primeiro plano, é ‘travada’ emocionalmente (tem dificuldade em expressar o que pensa e sente).
Com isso, vai perdendo a espontaneidade, o encantamento pela vida, a vitalidade e o entusiasmo. É a criança que foi muito censurada, reprimida.
Tornam-se adultos medrosos, inseguros.
Ex: Quando você está sempre querendo a aprovação alheia.
Quando está sempre pedindo desculpas, “pisando” em casca de ovos para não magoar as pessoas.
Quando costuma dizer sim e acaba ficando com raiva de si por fazer algo que lhe desagrada.
Quando você tem dificuldade de olhar nos olhos de seu interlocutor ao conversar com ele.
b) Rebelde: Lado da personalidade que busca sempre desafiar, bater de frente, contestar as pessoas, principalmente as figuras de autoridade. É o lado polêmico, agressivo, radical, desafiador.
É a parte da personalidade que só funciona dessa forma. É conseqüência também de pais muito críticos, controladores e autoritários. Enquanto a criança adaptada submissa (CAS) se submete às exigências dos pais, a criança adaptada rebelde (CAR) busca sempre desafiar, enfrentar as atitudes dos pais. É também o lado pirracento, birrento, provocador.
Ex: “Não estou nem aí”!
“Faço o que eu bem entender”.
“O problema é meu”!
“Você não tem nada que se meter com a minha vida”.
c) Criança Livre: (CL) : Lado da personalidade que libera de forma espontânea pensamentos, sentimentos e atitudes.
É também o lado intuitivo, criativo e alegre. É a parte mais saudável da personalidade. A liberdade de expressar pensamentos e sentimentos, dar boas gargalhadas, contar piadas de forma descontraída e divertida vem dessa criança livre (CL).
Ex: Quando se está com vontade de rir ou de chorar e não bloqueamos.
Quando se está com raiva e se desabafa de forma sincera.
Quando se toma um sorvete num dia quente e nos deliciamos totalmente com isso.
Portanto, a criança livre representa a parte espontânea e criativa da personalidade.
O objetivo da AT é trazer de volta essa (CL) no paciente. É resgatar a vontade de viver, o encantamento pela vida que o paciente perdeu, “matou” dentro de si. É exercitar as cinco emoções básicas, inerentes ao seu humano: medo, raiva, tristeza, alegria e afeto.
O Dr. Eric Berne, o criador da Análise Transacional (AT), traduziu o postulado filosófico da AT numa singela parábola: “Todos nós nascemos“ príncipes” ou “princesas”. No decorrer do processo educacional, nos transformamos como que enfeitiçados em “sapos” tristes e acomodados, porém com o potencial de realeza apenas aguardando ser redespertado”.
Para finalizar este artigo, quero reproduzir uma oração de fé na pessoa na linguagem da AT.“Creio no homem. Creio na sua essência de luz, na sua inclinação para a saúde, na sua vocação para a vida. Creio no seu potencial evolutivo e na sua possibilidade de despertar. Creio no homem mesmo quando ele me chega “disfarçado” de doente, de fracassado, de impotente. Creio no homem mesmo quando está manipulando e sendo manipulado; mesmo quando destruído pela existência; mesmo quando reduzido a farrapo. Creio no homem mesmo quando mendigando, exibindo suas feridas; mesmo construindo bombas nucleares, mesmo quando me chega enfeitiçado de “sapo” triste e acomodado; ainda assim, creio na capacidade do homem despertar seu “Príncipe” ou “Princesa” interior.
Incondicionalmente, creio que eu sou OK, você é OK e a humanidade é OK.
Roberto Crema - “Análise Transacional Centrada na Pessoa... e mais além”.
Editora Agora
Caso Clínico: Pavor de Altura.
Mulher de 30 anos, solteira.
A paciente me procurou por conta de sua fobia de altura, isto é, medo ou pânico ao passar por viadutos, pontes e passarelas. Quando atravessava um viaduto começava a ter taquicardia, tinha vontade de sentar e ficava paralisada. Não gostava do mar, de água turva. A paciente tinha também pavor de se envolver afetivamente. Tinha vontade de fugir, de se esconder, de sair correndo quando um homem se interessava por ela. Entrava em desespero, em pânico.
Ao regredir, me relatou: “Vejo um acampamento cigano. Tem uma fogueira alta no meio das cabanas. Sou uma cigana, uso um vestido vermelho, meio rodado e um lenço na cabeça. Estou descalça. Sou bem mais morena do que sou hoje. Devo ter uns 22 anos. Vejo um casamento... É o meu casamento. O meu noivo usa uma blusa branca, um colete vermelho. Os botões da camisa estão abertos. A gente está fazendo um pacto. Nós estamos cortando as mãos. É um pacto cigano, a gente bebe o sangue do outro. Corta-se a mão esquerda com um punhal e entrelaçam-se os braços e um toma o sangue do outro, simbolizando uma união para sempre“.
- Como você se sente – lhe pergunto.
“Eu me sinto bem. Mas a partir desse dia, me senti presa a ele pelo pacto. Foi o nosso símbolo da união de todas as existências passadas” (Paciente diz que os dois já estiveram juntos em outras vidas passadas).
- Avance mais para frente, anos depois – lhe peço.
“A gente está com mais idade. Ele está morrendo. Ele me faz prometer que eu não iria ficar mais com nenhum homem. Eu digo que sim, que vou cumprir e ele então falece” (pausa).
“Agora me vejo andando numa cidade. As pessoas têm preconceito com relação aos ciganos e alguém atirou uma pedra perto do meu olho esquerdo (paciente coloca a mão no seu olho). Está doendo muito, minha cabeça está girando (começa a gemer de dor)”.
- Prossiga nesta cena – lhe peço.
“Estou em cima de uma ponte. Vejo o sangue gotejar do meu rosto. Lembro o pacto que fiz com o meu marido. Agora atiraram uma pedra maior na minha cabeça e eu caí na água (paciente chora copiosamente). A correnteza me leva e bati a cabeça numa pedra grande. Estou me afogando, não consigo respirar (começa a tossir). Meu estômago dói, minha cabeça também. Estou engolindo água, ninguém me ajuda (pausa).
Eu morri afogada nesse rio. Ainda sinto o gosto de água na minha boca. Ninguém me ajudou, mataram-me por preconceito. Foi esse o motivo de ninguém me ajudar. Não é justo (paciente fala com raiva). Senti muita raiva, desamparo, ninguém estendeu a mão para me ajudar”.
- Veja o que acontece após sua morte – lhe pergunto.
“Estou no plano espiritual. Estou deitada. Estão me ajudando. São os espíritos de luz. É o Rafael, o meu mentor espiritual. Ele fala que vai ficar tudo bem. Minha cabeça ainda dói, meu estômago também. Ele coloca luz na minha cabeça, no meu peito e no meu estômago. Minha cabeça ainda dói, machucaram-na muito. Ele fala que vem cuidando de mim há muito tempo. Diz que o propósito dessa regressão foi me curar de muitos traumas. Eu tenho que me desligar desses acontecimentos passados e sozinha não iria conseguir.”
No final desta sessão, a paciente me disse que não fazia mais sentido continuar mantendo um pacto de casamento ocorrido numa vida passada até porque ela identificou o seu marido dessa existência passada como sendo um conhecido seu da vida atual e ele é casado e tem uma filha. Desta forma, não fazia mais sentido ambos perpetuarem um pacto selado de não se envolverem amorosamente com outra pessoa. Ela entendeu também o porquê de seu pavor de água turva e de altura. Para ela foi muito doloroso ser apedrejada, cair daquela ponte e perder sua vida nas águas turvas daquele rio.
Na sessão seguinte, a paciente me disse que a dor de cabeça que sentira naquela regressão continuou durante três dias, vindo a cessar após esse espaço de tempo.
Passando por mais oito sessões, a paciente compartilhou sua felicidade dizendo que seu pavor de altura desaparecera por completo e que não tinha mais vontade de fugir, de sair correndo quando um homem se interessava por ela. Estava se sentindo mais madura e disposta a se envolver num relacionamento amoroso.








in memoriam