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A VIDA, por Cora Coralina


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Há tantas definições na vida...
Bonitas, tristes, expressivas, inexpressivas.

A vida.
Alguns já definiram a vida como um mar
Um mar revolto, encapelado
De ondas violentas
De naufrágios e tempestades
Um mar tempestuoso.
Outros definiram a vida: um rio
O rio é a minha definição da vida
O rio imenso, farto,
Com as suas corredeiras e as suas margens.
A sua corredeira, sobretudo
E sobretudo os seus remansos.
Porque todo rio tem a sua veia corrente
O seu veio de corredeiras e tem seus remansos
E toda corredeira lança tudo para o remanso
O remanso aproxima-se da margem.
Da correnteza ao remanso, uma eternidade
Do remanso à margem, um pulo.
A ânsia dos moços que vão pela correnteza
A compreensão, a filosofia dos velhos lançados no remanso
E passados para as margens.
Eu fiz a travessia da minha vida
Do rio da minha vida
Na correnteza, como todos fazem
Passam os barcos, os grandes transatlânticos
Cantando, dançando
Mesa farta, música
Gente moça, gente despreocupada
Gente que acha o prato feito
E que tem apenas o trabalho de levar à boca aquilo que os outros fizeram
Que os outros acumularam
Que os outros prepararam.
São aqueles que recebem,
Por mercê de nascimento,
Todos os dons da vida.
Vão nos transatlânticos, despreocupados.
Depois seguem os barcos motorizados
Com um bom motorneiro na direção
A família amparada,
A família alegre, festiva
Mulher, crianças, noivos sonhadores.
Sem pensar bem, vão acompanhando as classes
Um homem bem colocado na vida e que leva seu barco com segurança
Mulher, filhos à sua dependência
Vai guiando pelo espelho d’água pelo veio da correnteza
Com sua máquina, seu mundo
Aquelas paisagens todas, encantado com o panorama
Todos felizes, alegres, a família bem constituída
A família alheia às dificuldades do cotidiano
Vai esse barquinho.
Depois vem um barco menor,
Um barcozinho menor,
Com um motor de popa que já pertenceu a outros barcos que já foram desmontados
Vai fazendo a sua forcinha,
Vai fazendo sua diligência
Passa também com seu esforço o grande rio da vida.
Depois um barco a remo, o remador.
Mulher, mãe pobre, pai, filhos, ilhos, ilhos.
Lá vai ele remando.
É um trabalhador, pai de família
Vai levando.
Depois descem os barquinhos fazendo água.
O homem no remo, a mulher com uma latinha para tirar a água.
Joga a água.
Vai fazendo água a ponto de afundar
Quem é o dono do barquinho?
É aquele pobrezinho
Mas ainda não é o último.
E ele vai levando o seu barquinho
Vai fazendo água, mas ele vai levando.
Aí passa eu, bracejando
Água pelo queixo, e eu bracejava, bracejava
Quatro crianças no meu dorso,
Agarradas nos meus cabelos, nas minhas orelhas
Nos meus ombros, nas minhas carnes
Quatro crianças que eu levava comigo e que devia levar até o porto
E eu bracejava, bracejava
Fui a última? Não
Não fui a última
Porque bracejando,
Com aquelas crianças no meu dorso
Eu vi passar náufragos, pedaços de barcos destroçados
Náufragos agarrados numa tábua
Corpos mortos de famílias desajustadas, destroçadas
E um dia,
Um dia a correnteza
Depois de muita luta, muito esforço
A correnteza me jogou no remanso
E o remanso me jogou para a margem
Senti uma solidez para os meus pés. Levantei
Saí da água escorrendo com a dor
Corridos, molhados, ainda sentindo no dorso aquelas quatro crianças
Depois pisei a terra firme da margem
As crianças saltaram do meu dorso
E o que eu vi nesta hora...
Esta hora foi a hora do deslumbramento
Eu havia carregado quatro crianças? Não
Quatro gigantes haviam me carregado.
Eu não carreguei meus filhos
Quatro gigantes me carregaram
Saltaram de meus ombros quatro gigantes
Eu vi
E compreendi que aquelas crianças que eu pensava que estava carregando
Agarradas aos meus cabelos, às minhas orelhas
Eram quatro gigantes que me carregavam.
Daí saiu de um canto um jovem e disse a uma das filhas:
Vamos fazer o nosso barco?

Cora Coralina

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