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CARTAS DO CORAÇÃO


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Nelson Rodrigues a Elza

Campos do Jordão, 12 de junho de 1939.

Elzinha, meu divino amor:

[...] Ah, querida! eu sofro ainda, ou sofro mais do que nunca, o doce mal da saudade. Só existe na terra um remédio – e que maravilhoso remédio! – para essa nostalgia que me acompanha, que me ronda, e que está impregnando todos os instantes de minha vida: é a tua presença...
[...] Conversei muito com uma pessoa (uma velha senhora, diretora de um sanatório daqui) sobre o amor, ou antes: sobre o amor na vida de quem já foi doente do pulmão. Eu contei-lhe que amava uma menina carioca, com um desses sentimentos vivos, palpitantes, irresistíveis, que só florescem uma única vez num destino humano. Então ela me disse que, na sua opinião, um doente curado só deveria casar-se com uma mulher que tivesse amargado a mesma doença. Porque – argumentava essa senhora – os esposos se uniriam melhor pela experiência de martírio comum.
Diante dessa reflexão, eu estive pensando, Elza, muitos dias, se não seria melhor para tua felicidade que eu me afastasse de ti e encerrasse, de modo implacável e definitivo, esse nosso romance, que é tão doce e tão triste. Amar-te sempre e aceitar o teu amor não seria o mesmo que te condenar a um destino incerto, a um futuro cheio de presságio e de angústia? Depois pensei melhor: lembrei-me do que tens sofrido e chorado; já possuis a experiência da lágrima; se a saúde do teu corpo está intacta, tua alma conheceu a dor, a dor que ilumina a consciência, que purifica o sentimento e faz a mulher digna de ser amada. Pensei também que não me cabia o direito de duvidar de ti; com o sofrimento, tua alma se redimira de toda frivolidade. Tu serias para mim uma fonte docemente imortal de amor, de consolo, de carícia. Sim, Elzinha: eu te amarei sempre, e só te deixarei de amar se te revelares, um dia, indigna do meu amor.

Querida: sinto que há, nesta carta, uma certa tristeza, que não pude evitar. Não importa. Hoje a minha ternura está triste. Acho que terás de me mandar outros retratos, porque os que me enviaste parecem perdidos. Gostei que tivesses vencido o medo tão pouco amoroso da dedicatória. Era chocante receber fotografias sem uma palavra de saudade e de amor. Não podes imaginar como te amo mais quando, num gesto próprio de mulher, te abandonas mais um pouco, e confias mais em mim, e pões nas minhas mãos alguma coisa de tua vida, de tua alma, de tua profunda e sagrada intimidade. Quero te ver frágil diante da vida, para que eu te defenda, te ampare contra o mundo e contra a própria fatalidade...

[...] Dois beijos intermináveis do meu amor imortal.

Nelson.

Nelson Rodrigues (1912-1980) Grande dramaturgo e cineasta brasileiro. Sua peça "Vestido de Noiva" foi um marco do teatro brasileiro moderno.
www.vaidarcerto.com.br/

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