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Encarando a dor moral

Encarando a dor moral
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A pressão interna é uma expressão deste segundo tipo de sofrimento. Ela aumenta ao passo que tentamos não nos conscientizarmos do sofrimento que já está presente em nossa mente.

A chave para liberar a pressão interna consiste, portanto, em tornarmo-nos atentos e curiosos em relação ao confronto conosco mesmos.

Perdemos tempo e energia vital evitando entrar em contato com a dor. O quantum energético de pressão interna que sentimos refere-se à quantidade de sentimentos e tarefas inacabadas que encontram-se dentro nós, esperando por serem tocadas, sentidas e dissolvidas.

Se quisermos superar a pressão interna, teremos que ser muito sinceros ao responder a seguinte pergunta: “Preferimos um relacionamento direto com a vida, ou viver e morrer com medo”?

Os sentimentos que estão nos pressionando para serem sentidos expressam-se em nossas reações de irritação, medo, decepção, ciúmes. Dentro de nós, habita uma mente infantil, mimada e carente de atenção. Alguns sentimentos pedem por explicações.
Outros já compreenderam o ocorrido, mas ainda não foram digeridos. Eles ainda estão presos a algo que ficou para trás. Como diz Naomi Remen, em seu livro "As bênçãos de meu avô": “A dor que não é sofrida transforma-se numa barreira entre nós e a vida. Quando não sofremos a dor, uma parte nossa fica presa ao passado”.

Cada dor tem um quantum de energia acumulada que precisa ser consumida. A consciência da dor acelera seu processo de dissolução. Ter consciência não é lutar contra a dor, é vivenciá-la com aceitação incondicional. Por exemplo, dizendo: “OK, agora aceito aceitar, pois sei que um dia entenderei melhor o que essa dor veio me ensinar” ou então: “Não quero ficar estagnada nessa dor, quero seguir em frente; por isso, abro-me para novas oportunidades sem compreender agora o que estou deixando”.

Certa vez, na Malásia, o Lama Gangchen Rimpoche nos mostrou um monge que havia feito uma oferenda queimando o próprio dedo. Fiquei chocada e perguntei: "Mas não dói?". E ele me respondeu: "Aquilo que a mente aceita não dói".

A humildade de abrir mão da necessidade imediata de compreender racionalmente o ocorrido é um antídoto para irmos além do dualismo do certo e errado. O constante julgamento de nosso mundo interno e externo é como gasolina para o fogo da pressão interna.

Temos que aceitar a verdade de que é a nossa própria visão limitada da realidade que nos prende ao sofrimento. Aceitar a dor é ser autêntico frente a ela. É ter um relacionamento direto com a vida.

Quando estamos sob pressão interna, nossa mente se desloca em várias direções ao mesmo tempo e intensifica nossas avaliações. Aí mora o maior perigo: concluirmos “quem somos” a partir da intensificação de autoimagem presa na confusão mental. Esse é o momento de nos dizermos: MENOS.

O humor e a delicadeza de nos dizermos MENOS nesse momento nos trará de volta o bom senso.

A pressão interna existe porque não nos permitimos mais sentir nossos sentimentos com abertura. Mas, quando rompemos esta atitude e passamos a nos sentir de fato, vemos que é possível romper este hábito.

Quando a pressão interna surgir, feche os olhos, respire profundamente algumas vezes e pergunte-se: “O que está acontecendo aqui?”. Ao nos abrirmos para sentir o sentimento, deslocamos nosso foco de atenção sobre o sentimento em si mesmo e nos abrimos para a percepção da consciência do sentimento.

A consciência do sentimento nos lembra que não somos apenas a experiência mental do sentir, mas que temos a capacidade de nos sustentarmos no que quer que estejamos sentindo.

A capacidade de autossustentação diminui a ameaça e a pressão interna passa a ceder.

Com a prática de meditação budista conhecida por Tong Len acabamos nos acostumando a sentir aquilo que habitualmente evitamos sentir.

Ao inspirar, inverteremos nosso padrão de endurecer o coração e temos a experiência de suavizá-lo.

Ao inspirar nos propomos: “Abro-me para sentir o que quer exista em mim agora” e ao expirar afirmamos: “Envio-me coragem e suavidade”.

Ao inspirar, acolhemos nossa pressão interna e ao expirar deixamos que ela se dissolva no espaço interno que nos oferecemos para ela se esvair.

Inspiramos buscando espaço e expiramos expandindo o espaço.

Bel César

Recebido de Lígia


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