NA CADEIRA DE GALILEO GALILEI



No dia 7 de setembro completaram-se 20 anos em que sentei na cadeirinha onde
sentou também Galileo Galilei e Giodano Bruno no Palácio do Santo Ofício
(ex-Inquisição) em Roma para defender opiniões do meu livro
Igreja: carisma e poder . Ser convocado à presença da mais alta instância
doutrinária da Igreja não é um fato corriqueiro na biografia de um teólogo.
Reportando-me ao poeta chileno Pablo Neruda, é certamente memorável e, ao
mesmo tempo, dilacerador encarnar, por um momento sequer, a razão e o
destino de toda uma caminhada de pensamento e de prática eclesial com os
pobres.

Subjetivamente é muito oneroso sentir o peso da instituição milenar da
Igreja caindo sobre sua cabeça. Mais penoso ainda é sentir os limites desta
instituição, pois, percebe que não raro, ela está mais interessada na
segurança do que na verdade, mais na manutenção da própria imagem do que
servir à causa dos humilhados e condenados da Terra.

Passados 20 anos, vejo que houve aí algo providencial. O fato foi noticiado
e comentado nos principais órgãos de comunicação do mundo. Por aí, a opinião
pública pôde entrar em contato com um outro tipo de Igreja, destituída de
poder, simples e profética, que faz corpo com os pobres e que, por isso,
participa também da maledicência e da perseguição que padecem. Pôde conhecer
também uma teologia que coloca a vida no centro, feita no sentido da
libertação histórico-social dos oprimidos e não apenas para a edificação
interna da galáxia eclesial. A teologia da libertação virou assunto de
conversas nas ruas, nos bares e em rodas de intelectuais.

A opinião pública captou a dimensão ética da libertação: ela concerne às
grandes maiorias sofredoras da humanidade. Entendeu a argumentação
básica: os cristãos, pelo fato de serem seguidores do Nazareno, torturado e
morto na cruz, são urgidos a serem agentes de libertação. É possível uma
teologia que nasça deste compromisso, fiel à grande Tradição e articulada
contra a injustiça social e em favor de mudanças estruturais. A imagem de
Deus que daí surge é compreensível por todos: Deus está mais interessado na
justiça que no rito, mais ligado ao grito do oprimido que às louvações dos
piedosos. São as práticas e não as prédicas que contam.

Por fim, por mais que as autoridades se considerem "Eminências
Reverendíssimas", não deixam de ter as limitações da humana condição. Bem o
disse o teólogo francês Yves Congar, que me defendeu no La Croix
(08.09.84): "O carisma do poder central do Vaticano é o de não ter nenhuma
dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida é, a um tempo, magnífico e terrível. É
magnífico porque o carisma do centro c onsiste precisamente em permanecer
firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque, em Roma, estão
homens que têm limites de toda espécie, em sua inteligência, no seu
vocabulário, em suas referências e no seu ângulo de visão. E pesaram contra
Boff". Mas recuso-me a vê-los na ótica do Grande Inquisidor. Do seu jeito,
pretendem também eles servir à verdade. No fim, cabe a ela e não a eles a
última palavra.

A Roma fui e voltei como teólogo católico. Nenhuma doutrina foi condenada,
só "opções que põem em perigo a fé cristã". Mas opções pertencem à ética,
não à doutrina. Sou consciente de que nisso tudo fui mero servidor. Fiz
aquilo que simplesmente devia fazer, como cabe a um servidor.

Jornal do Brasil, 12 de setembro de 2004
Leonardo Boff
lboff@uol.com.br


Recebido de Renata Louredo
(10/SET/2004)

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

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