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ROMPENDO O CÍRCULO

ROMPENDO O CÍRCULO
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Estou sentado na velha cadeira de madeira.
Não existe nada a minha frente ou mesmo atrás ou ao lado.
Estranhamente sei que estou no centro de um pequeno círculo.
Instintivamente percebo que existem outros círculos ao meu redor.
Mas nada vejo.

Sem que perceba ponho-me a vasculhar a empoeirada memória.
Vejo coisas, sinto cheiros, relembro cenas boas ou ruins, por vezes me emociono.
Sinto os olhos marejarem, a garganta apertar, reavalio minhas decisões e indecisões, meus amores e desamores, meus sonhos e pesadelos.
Nem tenho noção de quanto tempo estou aqui sentado, também não sei se quero ou consigo levantar-me.

Caso consiga, para onde irei se nada vejo a não ser essa paisagem estranha?
Sinto-me seguro aqui na cadeira, nada faço, em contrapartida nada é feito contra mim.
Por vezes acho que durmo ou descanso, mas nem sei se faço isso.
Por onde andarão os que tanto amei? Chorarão por mim? Sei que choram.
Como gostaria de revê-los, nem que por um segundo! Abraçá-los, sentir-lhes o calor, dizer o quanto são importantes para mim.
Deus, como gostaria de encontrar respostas...

Acho que jamais virão. Sinto que não acordarei deste pesadelo.
Parece que estou sendo observado. Tento gritar mas não consigo. Nada vejo, mas a sensação de que alguém me vê é algo indescritível.
Já que não consigo gritar ou levantar da cadeira, resolvo fazer uma prece.

Pela primeira vez vejo um vulto que caminha em minha direção. Um homem se aproxima. Acho estranho, percebo que se trata de um índio.
Ele sorri para mim amistosamente. Pede para que eu me levante. Respondo que não consigo. Ele está fora do círculo, me olhando com carinho. Pede também para que eu me concentre que conseguirei! Esforço-me, mas é inútil.
Ele me encoraja, faço nova tentativa. Pacientemente ele pede que eu saia do círculo. Dessa vez não duvido.
Caminho cambaleante e transpasso.

Ao sair, tenho uma surpresa: existem mesmo vários círculos como o meu.
Todos envoltos em luzes das mais variadas.
Em todos eles, outras pessoas que como eu não conseguem sair. E ao lado dos vários círculos, muitos índios, escravos, marujos, baianos, boiadeiros...

O caboclo me explicou que estão aguardando apenas que sejam chamados para ajudarem. Pergunto, quanto tempo podem esperar? Ele me sorri e diz que eternamente se preciso for. Então ele me fala de Deus, Pai do Universo, Criador de todas as coisas. Descreve-me a tristeza do Pai Maior, diante de seus filhos que matam em nome dele, que pouco se importam com a natureza. Que menosprezam a vida e desconhecem a caridade.
O nobre irmão mostra-se um sábio. Lendo meu comentário, ele fala do preconceito como uma grande barreira evolutiva.

Quantas guerras e sofrimentos não seriam evitados se os homens não tivessem preconceitos? Quantas civilizações dizimadas em função do preconceito?
Mas ele não fala com rancor, sinto que sente pena não dos perseguidos mas dos perseguidores...

Pergunta-me se quero renascer. Sem hesitar digo-lhe que sim, sem dúvida aproveitaria esta oportunidade. Satisfeito ele me abraça, diz que estará sempre comigo. Sua luz é tão forte que fecho meus olhos e ainda assim a vejo.
Ainda ouço quando ele diz que aquela luz me guiará sempre. Quando acordo estou em meu quarto.
O mesmo sonho que acompanha desde jovem. Desta vez, saí do círculo. Sinto-me estranho, feliz.
Mas o que será que significa tudo isso? Resolvo que hoje não irei trabalhar. Pego meu carro e guio a esmo.
Passo pela cidade e quando me dou conta estou num bairro para mim até então desconhecido. Encanto-me com as casas, as pessoas, tudo ali me parece belo.

Diante de uma casa branca, sinto um estranho arrepio. Paro o carro e caminho até ela.
Meu coração está acelerado. O portão está aberto. Lá dentro me surpreendo com a cena: vejo várias imagens de escravos, índios, crianças. Um tambor que começa a ser tocado. Pessoas de branco que cantam com fervor. De repente, alguém muda a postura e a voz. Colocam-lhe um penacho. Reconheço aquele que chega. Ele me sorri, pede que entre e me abraça. Diz que me espera há tempos. Devo desenvolver, sair de meu pequeno mundo terreno. Fala que muitos outros médiuns ainda se encontram presos às coisas terrenas precisando desenvolver, fazer caridade.

Agora eu entendo meu sonho. Falo que irei cumprir minha palavra. Só me lembro do grito de guerra que ele deu. Daí para diante foi meu caboclo que veio e finalmente eu soube que aquela luz maravilhosa tinha nome: UMBANDA!!!!!

Sim, eu estava morto: morto para a vida espiritual, preso em meu mundo materialista. Finalmente a redenção em forma da prática da caridade. O círculo da ignorância havia sido definitivamente rompido.

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www.jornaldeumbandasagrada.com.br/edic=id_cp0.php


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