Não quero estar certo, não quero ter razão, não quero ter opinião para qualquer coisa, não quero. Não quero falar sério, não quero a verdade, não quero. Não quero dizer se é tarde ou cedo, se é novo ou velho, se é bom ou ruim, não quero me proteger, não quero. Não quero ser correto, ser um pai exemplar, um filho exemplar, um marido exemplar, não quero exemplos.
Não quero chegar na hora certa, na honra errada, não quero impressionar, não quero morrer uma única vez, não quero. Não quero ter um endereço, um guarda-chuva, um testamento, não quero. Não quero me salvar, me converter, me ajuizar de modos, não quero. Não quero palavras inteiras, quero apontar com o dedo, não quero concordar rápido, não quero. Não quero contar o número de janelas, o número de portas, o número de vizinhos, não quero.
Não quero me repetir para me confirmar, decidir para me poupar, quero baldear as estradas mais remotas, encontrar pouca coisa que não há como lembrar. Não quero falar o que se espera, esperar o que não existe, não quero. Não quero usar talheres pequenos e grandes, cálices pequenos e grandes, pratos pequenos e grandes, não quero. Não quero acusar, dar um preço, dar um parecer, dar uma sentença, não quero. Não quero a demora sem manchas, o sol sem videiras, arrendar uma carta, não quero.
Não quero um livro se não sentir frio nos pés, não quero uma música se não aquecer as mãos, não quero um amor se não me distrair para o que não queria, não quero. Não quero a fama da modéstia, uma rua sem becos, uma casa sem fundos, não quero. Não quero uma chuva sem pensar em dilúvio, não quero um conhecimento que perca a simplicidade, não quero uma oração que não seja úmida, não quero. Não quero passar a porta sem metal, passar o orvalho sem as unhas, passar o ouvido de uma cidade sem ao menos escutar um sino, não quero.
Não quero conversar com os mortos em um copo vazio, os mortos merecem mais respeito, não quero ter cuidado com os lábios, ajeitar o cabelo para as despedidas, não chorar em público, não quero. Não quero ser comedido, contido, tolhido, não quero. Quero ser combatido, me combater como uma doença sem cura. Não quero separar as chaves, as amizades, as obras, não quero. Não quero silenciar sem silêncio, quero uma ruga para achar meu rosto, quero amar antes da missa, quero ver a pedra dentro da escada, a escada dentro da árvore, um barco a seco. Quero amarrar uma corda no lugar do cinto, amassar o verão da grama, andar de cadarço desamarrado, olhar perdoando por não olhar meus olhos perdoando. Não quero uma notícia para ser real, garantias, fiador, caução, não quero. Não quero a imponência, a importância, a indiferença, não quero.
Quero percorrer uma escola em pleno recreio para despertar a voz mais abafada, quero regressar lento para onde não nasci, predestinar a dor a uma alegria. Não quero confirmar milagres, continuar sem parar, acreditar sem desistir, não quero. Às vezes, só não quero existir tanto.
Fabrício Carpinejar
@carpinejar
Aproveite e leia o artigo: Você sabe dizer não... clicando no link abaixo...
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4/5/2013 10:04:18 PM -
Nossa, é assim que me sinto ultimamente! Me caiu como uma luva nesta noite quando não quero mais nada, não quero fazer nada, nem quero existir tanto. Só o quanto meu Criador quiser! E já não basta?
6/4/2010 9:03:45 AM -
Não quero nada... Talvez essa seja a mais difícil verdade. Quando sabemos o que não queremos fica fácil identificar o que queremos? O que eu quero, se não quero nada? Obrigada pelo presente que é este texto. Sorte, amor e unidade a você!
4/9/2010 2:30:51 PM -
São tantas coisas que não queremos e tantas outras que desejamos... O misto do não e do sim faz parte da vida de todos, talvez, um pouco mais na minha, pela fase que estou passando. Para conseguir o sim, preciso aprender falar muito mais nãos. Lindo o texto, amei! Parabéns!
4/9/2010 1:41:48 PM -
Estou neste momento, de Não Quero. E pensava que seria necessário saber o que ser Quer, mas o saber que Não se quer é bem interessante e elucidador. É isso aí. Paz Luz Luciene
3/26/2010 2:00:28 AM -
Já estava na hora de V. aparecer por aqui. Seja bem vindo, Fabrício!
1/8/2009 10:38:12 AM -
ADOREI O TEXTO. PARABÉNS PELA INSPIRAÇÃO E PELA EXPRESSÃO. AGRADEÇO POR COMPARTILHAR. QUE SEJAS ILUMINADO SEMPRE. BEIJOS NO CORAÇÃO
9/3/2008 6:31:13 AM -
Parabéns pelo texto. Parabéns pela coragem. Parabéns por não querer, querendo. Querendo que o mundo seja uma imensa irmandade, onde cada um possa ser único, livre e consciente. Onde cada ser possa ser verdadeiro, sem amarras e, contudo, sem interferir no direito do outro o ser também. Foi assim que o seu texto me chegou. Esse é o sonho inconsciente de quase todos. Necessário se faz tomarmos consciência dele e tentar pô-lo em prática. Obrigada.
8/22/2008 1:40:15 PM -
E QUE MINHA LOUCURA SEJA PERDOADA. P/ QUEM NASCEU NA GERAÇÃO PLUTÃO/ESCORPIÃO COMO EU, FICA AÍ.
Aos Filhos de Escorpião (Oswaldo Montenegro)
É o reino da força Vermelho é a cor do teu coração Ferro em brasa na casa da morte É o escorpião A força criadora que habita o mundo O animal da auto-regeneração O homem que renova, signo fecundo O fim planta o início É a transmutação Cabala do grande sinal Cabala da força do ....
8/20/2008 9:48:51 AM -
Este texto resume a busca de todo ser, conseguir viver o hoje, o agora e o sempre, sem se permitir ser e fazer o que a sociedade falsa e moralmente vazia espera e cobra. Parabéns ao autor por tanta sensibilidade e veracidade. Abriu uma nova janela para o Sol em minha vida. Meu eterno agradecimento.
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