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O diretor de cursinho!



Não lembro seu nome, mas vejo sua imagem e ouço sua voz, chamando a atenção no palco do anfiteatro para o que iria dizer. Mais de trezentos lugares, praticamente todos ocupados. Início da década de 1970.

“Por favor, pessoal, a atenção de vocês. Vocês estão iniciando um ano de cursinho preparatório para seus vestibulares e há algo que precisamos combinar e deixar bem claro: há aqui duas partes: vocês alunos e, nós, o cursinho. Há também duas e não mais do que duas obrigações, uma de vocês e outra nossa. A de vocês é pagar em dia as mensalidades. A nossa é oferecer os melhores professores que encontrarmos no mercado. Portanto, vocês terão que administrar apenas essa obrigação, já que a nossa vocês já possuem a relação de nosso corpo docente. Não cobraremos presença, trabalhos ou qualquer outra coisa. Vocês façam o que acham que devem desde que paguem e é lógico, não atrapalhem aqueles que querem estudar. E é só o que tinha para dizer”.

Com discurso tão objetivo e curto, deixou claro, primeiro a responsabilidade com o cursinho, mas principalmente a responsabilidade de cada um consigo mesmo. Não havia chamadas nem listas de presença. Não havia trabalhos para notas. Havia sim simulados e classificação, mas para quem quisesse. Nada era obrigatório: só pagar a mensalidade.
Acostumado ao regime escolar, com chamadas, provas e médias estabelecidas para aprovação, onde como sabemos, buscava-se “técnicas” para nosso benefício em melhorias de notas, não estourar em faltas etc., foi surpreendente o índice de frequência das aulas, que eram de segundas a domingos, sem folgas e a participação e interesse das pessoas que ali estavam. Sem cobranças, sem punições.

Aos domingos, as aulas terminavam ao meio-dia, mas era comum grande número de alunos permanecerem até muito mais tarde, eu mesmo cheguei a sair de lá varias vezes, mais de 15h, e sem ter ainda almoçado. Ficávamos estudando, debatendo com os professores, que nunca se negaram a nos dar assistência.

A lembrança desse discurso tem cada vez mais se manifestado, pois na medida em que vamos identificando o descompromisso e a irresponsabilidade com que as pessoas vão se colocando nas várias situações de vida, mais forte fica uma das maiores lições que o cursinho poderia ter nos dado: o do livre arbítrio para fazermos o que quiséssemos, porém sabedores que éramos os únicos responsáveis pelos resultados obtidos.

Acredito que como eu, muitos dali hoje não culpam a vida pelos possíveis problemas ou obstáculos que possam ter. Sabemos sermos os responsáveis pelo que plantamos, portanto, não podemos nos queixar do que colhemos.

A vida pode apresentar maiores facilitações ou dificuldades para uns ou outros, porém, isso não tira a responsabilidade do que cada um conquista em seu viver. Sonhar e perseguir esses sonhos, visando suas realizações são os caminhos que nos levam a autorrealização, com o preço de ser através do esforço de cada um. Nada é de graça. Nada cai do céu.
Iniciar algo e levar isso a sério. Dedicar-se à sua realização e ir até o final. Parece simples quando falado, mas de extrema dificuldade para a maioria das pessoas. Estou me referindo a objetivos significativos, não às possibilidades sem grande repercussão em nossas vidas. É natural pensarmos algo e depois refutarmos, deixarmos de lado, mas por opção, por se perceber que o resultado não será tão querido por nós. É quando se fala e com sinceridade: “Eu não faço conta disso”. E não faz mesmo.

O diretor de cursinho e não “um diretor de cursinho”, porque esse homem foi realmente marcante. Não foi apenas mais um. Com esse pequeno discurso, plantou no coração e mente de incontáveis pessoas a consciência de que a responsabilidade para com nossas vidas é de cada um de nós.

Texto Revisado

Publicado dia 9/9/2018
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