Quando o amor vira consumo, o laço se torna descartável.
Autor Raphael Mello
Assunto Almas GêmeasAtualizado em 2/4/2026 11:22:19 AM
Vivemos um tempo em que o laço amoroso é atravessado pela mesma lógica que organiza o consumo, o trabalho e a imagem: rapidez, eficiência, satisfação imediata. O afeto não escapa à racionalidade técnica. Ao contrário, é capturado por ela. Os aplicativos de relacionamento não criam essa lógica, apenas a escancaram: o encontro passa a operar sob o regime da escolha infinita, da comparação constante e da substituição sem resto.
O outro deixa de ser sujeito para ocupar o lugar de objeto. Objeto de uso, de gozo, de validação narcísica. Se não corresponde à fantasia, se frustra minimamente o ideal, é descartado. Não há elaboração da falta, não há trabalho de luto: há troca. O sujeito contemporâneo não sofre pela perda, ele substitui. E é justamente aí que o sofrimento retorna, de forma mais silenciosa e mais solitária.
Na racionalidade neoliberal, cada sujeito é convocado a se tornar gestor de si mesmo. Não apenas no trabalho, mas também nos afetos. Surge o imperativo da autovalorização constante, da performance emocional, da autoproteção. O discurso é conhecido: "preciso me preservar", "não posso aceitar menos", "sei o meu valor". A linguagem econômica invade o campo do desejo e o amor passa a ser pensado como investimento: calcula-se o risco, evita-se o prejuízo, exige-se garantia.
A psicanálise, porém, nos lembra que o desejo não obedece à lógica da utilidade. O desejo nasce da falta, não da completude. Ainda assim, vivemos numa época que tenta abolir a falta a qualquer custo. A demanda ocupa o lugar do desejo: quer-se o outro sob medida, alinhado ao ideal narcísico, disponível, previsível, sem excessos. Qualquer diferença é vivida como falha. Qualquer opacidade do outro é sentida como ameaça.
Nesse cenário, o encontro deixa de ser experiência para se tornar contrato implícito. Ama-se enquanto o outro sustenta a imagem esperada. Quando essa imagem falha, rompe-se. Não por acaso, práticas como o ghosting se tornam socialmente aceitáveis. Desaparecer sem palavra não é apenas falta de educação: é efeito de uma cultura que recusa o conflito, o limite e a responsabilidade pelo laço. O silêncio substitui a fala. O corte substitui a elaboração.
O paradoxo é evidente: quanto mais o sujeito tenta se blindar, mais precarizado se torna afetivamente. Vínculos frágeis, descartáveis, intercambiáveis. Há abundância de contatos, mas escassez de laço. A solidão contemporânea não nasce da ausência de encontros, mas da dificuldade de sustentar um encontro quando ele deixa de ser ideal.
Amar, do ponto de vista psicanalítico, é consentir com a própria incompletude. É aceitar que o outro não vem tapar a falta, mas confrontá-la. No entanto, a cultura do desempenho e da autossuficiência vende a fantasia de que depender é fracassar. Amar passa a ser vivido como risco excessivo, como perda de controle, como ameaça à imagem de si.
Queremos resposta imediata, validação constante, garantia de satisfação. Mas o amor não se organiza como algoritmo. Ele exige tempo, fracasso, desencontro e repetição. É travessia, não transação. Quando tentamos eliminar o risco, eliminamos junto a possibilidade do laço.
Talvez seja por isso que, em meio a tantos matches, a experiência amorosa esteja cada vez mais empobrecida. E que, cercados de possibilidades, tantos sujeitos se encontrem afetivamente exaustos, defensivos e, sobretudo, sós.
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Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Almas Gêmeas clicando aqui. |
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