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Uma cidade é o testemunho da memória dos seus habitantes



Há algum tempo atrás fiz um curso de Educação Ambiental. No final do curso o professor retirou do bolso uma pedra com uma forma arredondada e pediu que todos os alunos a tomassem em suas mãos e tocassem aquela pedra, que a segurassem por algum tempo e fossem passando para todos os outros. Fiquei esperando algo, pois não tinha entendido o motivo daquele gesto. O referido professor, simplesmente pegou a pedra após este ritual e guardou-a no bolso.

No final da aula perguntei ao professor qual era o sentido daquele ato, e ele me explicou que gostaria de estar junto das pessoas que já tinham passado por ele nos cursos e aquela pedra tinha um significado especial para ele, pois já fazia muitos anos que ele tinha adotado este ritual com a pedra. Enfim, um objeto que levava na sua história a possibilidade de ser um ponto de encontro de tantas mentes que comungaram um tempo na existência daquele professor.

Já li muitos textos sobre memórias arquivadas de forma sutil em objetos pessoais. Quem já teve oportunidade de visitar museus, sabe – se é sensível a este tipo de situação – o fascínio que exercem sobre nós os locais históricos, templos, praças, antigos casarões, entre outros. Todos nós temos em um momento da nossa vida a oportunidade de ver pessoas à procura de talismãs, objetos de sorte, seja lá o que for. Um senso comum de que certo tipo de força, de valor e mesmo de poder pode ser encontrado e/ou dado a determinados objetos.

No Tibete os objetos pessoais de um Lama são guardados como preciosidades, pois poderão ser utilizados a qualquer tempo, como testemunhos, para identificar e reencontrar esses Lamas em suas posteriores encarnações.

Quem é que não sente a magia de uma praça, de algumas ruas históricas, paços públicos, monumentos, etc.? Desde os 15 anos tenho estudado, de tempos em tempos, fora da minha cidade natal. E sempre quando retorno, o que mais faz vibrar meu coração são as primeiras imagens de aproximação dos limites dela. São cenas que sempre me fazem vibrar de emoção, até mesmo neste momento, quando paro um pouco, fecho os olhos e me transporto para alguns lugares de significado marcante que nela vivenciei. Sinto a força dessas memórias se tornarem vivas em meu corpo. Ganham cores, pulsação e se transformam em sentimentos renovados.

Assim, tenho em mente, baseado nas minhas vivências e experiências, que tudo o que acontece numa cidade, desde o farfalhar das folhas numa praça, o barulho de uma água corrente numa fonte, o canto de pássaros, as mudanças de clima, os festejos das tradições folclóricas e históricas, os sons de crianças brincando, demarcam sítios arqueológicos guardados em nossa memória, que se tornam vivos na própria percepção ativada pela fonte produtora dessas memórias: pensar a cidade.

Trazendo essas reflexões para o título deste texto, percebo a responsabilidade de ser um cidadão, pois aquele que mora em uma cidade pode contribuir para a construção de memórias positivas do seu município. Uma cidade precisa de seres humanos para cuidá-la e ampará-la; e ela é, em si mesma, a memória viva da vida de um povo, de um clã, de uma raça, determinada por seus feitos num certo período de tempo e de espaço. Não tenho dúvida de que a aura de uma cidade é o reflexo de como vivem os seus cidadãos; que nos fala, numa linguagem sutil, da coletividade, das subjetividades expressas em forma de ruas, praças, museus, jardins, bosques, pontes etc. Daí não perder de vista a possibilidade de um ser que pulsa e vibra, que produz freqüências que se espalham eternamente em forma de ondas, buscarmos sempre nos harmonizar positivamente com os espaços onde passamos, pois, num certo sentido, isso será guardado em estado latente na memória.

Em cada cidade que passei, tenho memória de um ponto vivido e guardado dentro de mim que, com certeza, também se instituiu em minhas entranhas para me constituir como ser no mundo. Algumas cenas moram muito vivas dentro de mim e cada vez que retorno a algum desses pontos é como se tivesse voltando a um lar entre tantos lares.

Uma cidade é o reflexo de todas as suas expressividades subjetivas e/ou objetivas, guardadas em formas, cores, sons, sabores e fragrâncias dos seres vivos ou mortos que nela se constituíram como comunidade. A eternidade do momento vivido em matizes diversos, reafirmando a eterna glória da vida que se renova na presença das novas gerações.

Portanto, não tenho dúvidas de reafirmar o título deste texto. Que ele sirva de reflexão para pensar a cidade, cidadania e cidadão, pois, por mais rude e caótica que seja uma cidade é o testemunho da memória das pessoas que a habitam.

Texto revisado por Cris


Publicado dia 29/4/2007
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Autor: Samuel Macêdo Guimarães   
Formação em Psicoterapia Corporal Neo-Reichiana, Psicoterapia Corporal para Crianças e Adolescentes, Psicoterapia Holográfica. Mestre em Educação Física, Consultor de Bem Estar.
E-mail: smgbahia@outlook.com | Mais artigos.

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