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Aceite o fundo do poço, mas arrume uma flauta


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Era uma vez dois amigos, Pedro e Zéfiro, que gostavam muito de caminhar pelos bosques, procurando coisas de valor.
Ocasionalmente encontravam algum objeto perdido, uma moeda, uma pedra bonita ou até mesmo um pé de fruta, enfim, algo que lhes proporcionasse algum lucro ou saciasse a fome do momento.

Aconteceu que na região onde eles moravam, a mineração já havia devastado quase tudo e não havia mais trabalho e nem alimentos.

Sem comida, sem dinheiro e sem ânimo, os dois caminharam o dia todo procurando trabalho sem encontrar. As únicas coisas que acharam pelo caminho, foram um cãozinho abandonado e um escorpião, debaixo de umas pedras.

Pedro teve compaixão do filhote e resolveu ficar com ele, enquanto Zéfiro teve outra ideia.

- Esse filhote tenro vai dar mesmo um bom churrasco! Quando vamos comer?

- Você só pode estar brincando, Zé. Vou cuidar dele, não comer!

- Cuidar dele como, se não há alimento nem para você e sua família?

- Isso eu ainda não sei. Quem sabe ele me dá sorte!

E assim a dupla continuou caminhando pelo vilarejo, até que no final do dia, o desespero e a fome bateram firme.

No dia seguinte, deprimidos e sem saber o que fazer, os dois resolveram pedir um conselho para o Eremita da vila, que morava num local mais afastado.

Pedro amarrou uma trouxa numa vara com alguns pertences e um porrete na outra mão, para se proteger. Junto com ele, seguia o seu cãozinho.

- Mas precisa levar esse cachorro inútil? Só vai nos atrasar!

- O Migucho é rápido e pode farejar alguma coisa no caminho. E se der fome e sede, terei o que precisar. E você só vai levar essa corda enorme?

- Claro Pedro! Quem carrega bolsa é mulher! Não preciso de nada além de uma corda, para amarrar o que encontrar de valor pelo caminho.

E assim os três seguiram em frente. Zéfiro caminhava na frente, sempre com as mãos nas costas, como se fosse um soldado fazendo a ronda.

Atrás dele caminhava Pedro, com Migucho alegre, o seguindo. Já era quase noite, quando avistaram o Eremita.

Do lado de fora da choupana, a silhueta de um velho de chapéu pontudo fumando um longo cachimbo com cheiro de ervas se destacava na penumbra.

- Senhor Eremita, por favor nos ajude, precisamos de um conselho seu. Não temos trabalho e estamos sem alimento. O que fazer? Perguntou Pedro muito desanimado.

- Eu não aguento mais! Estou sofrendo muito! Eu não merecia essa vida, velho! Argumentou Zéfiro.

O Eremita calmamente olhou para os dois, deu uma longa tragada no cachimbo e apontou o dedo para a mata.

- Ouvi dizer que lá mais adiante existe comida e coisas preciosas.

- Se isso fosse verdade, os aproveitadores já teriam ido para lá e dizimado com tudo. Não pode ser verdade, velho!

- Eu conheço você, Zéfiro. Já ouvi falar muito sobre a sua coragem. Também ouvi dizer que um gigante protege o lugar, por isso ninguém ousa invadir.

- Está tentando nos matar, velho? Gigantes não existem! Mas se minha fama de valente já chegou até aqui...pensando bem...nada tenho a perder. Posso mesmo dar um jeito nesse gigante e parece que eu estava adivinhando, porque já trouxe até uma corda grande, para amarrá-lo.

- Senhor Zéfiro sua sabedoria e valentia serão bastante uteis nessa jornada e de qualquer forma, a fome e a morte vão alcançar vocês em pouco tempo.

- Ele tem razão, Zé. De um jeito ou de outro, a morte nos alcança. Que seja então pelo menos tentando nos livrar dela. Senhor Eremita, pode nos ensinar o caminho?

O Eremita mais uma vez deu uma tragada no cachimbo e perguntou.

- Você tem certeza de que quer arriscar, Pedro? Sei que você não gosta de correr riscos.

- Certeza não tenho, mas a necessidade nos força a trilhar esse caminho. Não sou valente como Zéfiro, mas tenho meu amigo Migucho para me acompanhar, já perdi tudo o que tinha, menos minha esperança no bem. Se sou livre para decidir, então decido arriscar novas possibilidades.

Ainda sentado num pedaço de tronco, o Eremita picou mais um punhado de fumo e preencheu o cachimbo.

- É para espantar os mosquitos!

Apanhou seu cajado de carvalho com guizos pendurados e se levantou.

- Sigam-me em silêncio, para não despertar as criaturas da noite.

E assim os quatro seguiram rumo a floresta, com o Eremita na frente e os três atrás.

Era uma noite de lua minguante e na escuridão a única coisa que iluminava era o vermelho das ervas do cachimbo queimando.

Quando as ervas se consumiram e a fumaça parou de deixar seu rastro, os guizos do cajado eram a única coisa que os guiava, até que por fim, o som também parou e a voz do Eremita se fez ouvir.

- É aqui. A partir de agora começa a jornada de vocês. Boa sorte.

- Aqui onde velho? Não consigo enxergar nada! Velho? Cadê você?

- Acho que ele já se foi, Zé, sem fazer ruídos.

- Então se foi com o vento, porque os guizos também emudeceram, Pedro! Velho estranho...

- Melhor usarmos a escuridão a nosso favor, porque o tal gigante deve estar por aí, caçando o jantar! Vamos tentar arrumar um abrigo para passar a noite e amanhã cedo conheceremos o lugar. Vem Migucho!

- Fale por você! Eu tenho fome e sinto cheiro de carne queimando! Vamos nos guiar pelo cheiro e roubar o jantar do gigante!

- Mas é muito perigoso Zé! Está muito escuro!

- Deixe de ser pessimista homem! Se está escuro para nós, também está escuro para o gigante! Vamos lá, covardão!

- Não sei. O gigante já deve conhecer essa floresta como o jardim de sua casa! Temo que algo possa nos acontecer!

- Então fique aí com esse cachorro inútil, que eu vou buscar o meu churrasco! Hummm...cheiro bom! Que fome! Não como carne faz tempo!

- Espere Zé....Não corra assim!

- Me deixa!  Aiiiii......Pedro o gigante agarrou no meu pé! Estou caindo!

- Zéfiro! O que está acontecendo? Cadê você? Ops....pisei num buraco! Estou caindo também!

E assim, os dois amigos caíram em buracos diferentes, um não muito longe do outro.

Com medo de que o gigante estivesse ouvindo os gritos, ambos permaneceram quietos, até que o dia clareou.

Primeiro dia.

Dentro do buraco, Zéfiro se lamentava, resmungando baixo.

- A culpa é do Pedro! Se ele tinha tanta certeza de que o gigante estava por perto, por que não me avisou? Maldito Pedro e maldito Eremita! Ele deve ser amigo do gigante!

Um pouco mais distante, Pedro despertou dentro de outro buraco e começou a chamar por Zéfiro.

- Zéfiro! Zéfiro! Onde está você? Você está bem? Está por perto?

Zéfiro ouviu, mas achou que era o gigante imitando a voz de Pedro. Se ele respondesse, o gigante o acharia e seria o fim, então resolveu permanecer calado.

E dentro de seu buraco úmido e cheio de raízes, se deitou desconfortável, esperando alguém chegar para ajudar. O dia passou, a noite chegou, mas ninguém apareceu.

Já Pedro permaneceu em silêncio, pensando em mil maneiras de sair do buraco, mas nada parecia fazer sentido.

Segundo dia.

Amanheceu um dia muito nublado e frio. O vento soprava fora dos poços onde eles caíram, anunciando que nos próximos dias poderia nevar e chover.

Em seu buraco, Pedro apalpava o corpo para saber se tinha quebrado algum osso, mas fora os arranhões, tudo parecia bem.  A trouxa, a vara e o porrete tinham caído junto com ele e isso o tranquilizava um pouco.

- Pelo menos tenho algumas coisas uteis aqui. Tenho uma faca, uma garrafa com água, um pouco de pão, um agasalho e uma pederneira, mas se eu fizer fogo com a vara, vou chamar a atenção do gigante e ficarei desprotegido, se ele me atacar. Também aqui não tem nada para queimar, nem uma raiz sequer, só a vara e o porrete. Vou esperar para ver o que acontece.

E assim passou-se o dia inteiro sem o gigante aparecer. Pedro comeu um pedaço de pão, bebeu a água e se encolheu num canto, sem saber o que fazer.

Do outro lado, Zéfiro que só tinha uma corda longa, pensava em se enforcar.

- Melhor eu me enforcar do que ser comido vivo pelo gigante. Amanhã eu me enforco com certeza! Cadê Deus nessa hora? Eu não merecia estar aqui! Que vida desgraçada a minha! A culpa é do velho e do Pedro ou daquele cachorro ridículo! Sim foi isso com certeza! O gigante sentiu o cheiro do animal fedorento e nos seguiu, porque eu senti uma coisa agarrando minha perna no escuro! Foi isso sim! Miseráveis! Malditos!

Terceiro dia.

No dia seguinte, Pedro acorda e resolve gritar pelo nome de Zéfiro, que novamente não responde, com medo de que fosse o gigante.

Nesse dia o sol volta a brilhar e as esperanças se renovam para Pedro, que fica pensando.

- Se o Zéfiro estivesse aqui seria mais fácil tentar sair, porque ele é muito inteligente, valente e tinha uma grande corda, que ele deve ter usado para sair. Ele deve ter amarrado um sapato ou alguma outra coisa na ponta da corda e lançado para fora do buraco. Com a corda presa, ele consegue subir com certeza. Provavelmente deve estar me procurando ou foi capturar o gigante.

- Se deu bem o Zéfiro! Com certeza já deve estar fora do buraco, e quem sabe me encontre aqui, só que eu o chamo e ninguém aparece. Nem ele e nem o gigante. Eu não tenho uma corda, então preciso pensar em algo. Estou ouvindo um barulho! É o som de um cachorro latindo! É o meu cãozinho Migucho! Está lá na beira do buraco, latindo feliz para mim e isso renovou minhas esperanças, mas ainda não sei como sair daqui. Olá, Migucho!

- Não sei como sair, mas também percebo que se esse buraco que me prende, de alguma forma também me protege. Devo ter caído há uns cinco metros de profundidade. O gigante ainda não apareceu, será que caiu num poço também?

- Se eu estivesse preso lá fora animais poderiam me atacar, porque eu estaria visível e entregue aos ventos, neve e chuva. Aqui pelo menos consigo me abrigar um pouco. Gratidão meu Deus, por eu ter caído nesse poço! Poderia ser pior se estivesse machucado em meio ao relento.

- Minha água e pão estão quase no fim e está anoitecendo novamente. Cãozinho! Vá chamar ajuda! Não... Meu amigo não pode me ajudar. Ele não me entende. Vou dormir e quem sabe sonho com alguma coisa.

Quarto dia.

O quarto dia chega carregado de nuvens cinzentas e ameaça de chuva.

Em seu buraco, Zéfiro resolve que a única coisa a fazer é se matar, antes que o gigante o faça. Nas paredes do poço, ele encontra várias raízes secas e quando tenta amarrar a corda para se enforcar, a raiz enverga, ele cai e machuca o pé direito.

- Com o pé machucado fica difícil subir para me enforcar, então vou me deitar aqui no chão e colocar minhas mãos nas costas, para morrer com dignidade. Quando encontrarem meu corpo terão mais facilidade para puxá-lo para cima, se eu me esforçar para permanecer nessa posição.

- Com certeza, o gigante vai me comer em breve, mas se se eu me matar antes, eu apodreço e ele não me come! Se eu quisesse conseguiria desamarrar meu pé, mas para que faria isso, se o gigante logo vai aparecer e me comer!

- Gigante burro! Se meu corpo apodrecer, você não me come! Vou ficar aqui deitado, com meu pé amarrado, assim serei considerado o herói da vila e a vítima de um gigante! Quando encontrarem meu corpo, pensarão que lutei desesperadamente contra o gigante e ele malvado, me venceu traiçoeiramente. Aqui ficarei parado e quando o gigante aparecer, já estarei morto. Otário! Eu sou valente! Você nunca vai me comer, gigante burro!

Já no outro buraco, Pedro também resolve que não há mais nada a fazer. Por mais que ele pense, nenhuma ideia lhe ocorre, para se safar daquele buraco. Resignado, aceita que morrer é a única opção.

Ele faz uma oração, pedindo que Deus receba sua alma, mas antes de morrer, ele tem um último pedido. Ele quer ouvir música, uma coisa que ele tanto gostava.

Então Pedro pega a faca e começa a entalhar uma flauta no porrete, durante boa parte do dia, até que ele termina.

Pedro come sua última migalha de pão e toma seu último gole de água. Pega sua flauta e começa a tocar uma música muito alegre, que ele sempre tocava nas festas. Começa a relembrar coisas boas que já vivenciou e isso enche seu coração de ternura.

O som da flauta chama a atenção do cãozinho, que retorna para a beira do buraco e começa a latir alto.

O latido do cão chama a atenção de um pastor de ovelhas que estava por perto e decide ver o que estava acontecendo. Quando ele chega perto do buraco, vê Pedro lá embaixo.

O pastor lança uma corda e consegue resgatar Pedro do buraco.

Pedro conta toda a história e os dois saem para procurar Zéfiro.

- Realmente Pedro, alguns dias atrás já era noite, quando fiz uma fogueira para proteger minhas ovelhas e a mim. Assei um pouco de carne, quando ouvi gritos que logo silenciaram, mas não vi ninguém por aqui, além de mim.

- Mas e o gigante? Você não tem medo dele?

- Meu amigo, a única coisa gigante por aqui é a imaginação do povo e essas raízes, que sempre causam acidentes.  Deve ser disso que o Eremita estava falando!

Depois de caminhar um pouco, viram uma grande raiz com um fiapo de roupa preso.

- Esse fiapo era da calça do Zéfiro, tenho certeza, senhor pastor!

A poucos passos dali encontraram um poço abandonado e dentro dele, o corpo de Zéfiro.

Zéfiro havia enroscado o pé na raiz, escorregado e caído dentro do poço, não foi o gigante.

Lá estava o corpo de Zéfiro deitado no chão, com as mãos para trás e com o pé machucado, formando um quatro, esmagado por um tronco muito pesado, que se desprendeu junto com a raiz, caindo em cima dele.

Mais tarde entraram no poço, retiraram a enorme raiz e o tronco e com facilidade e removeram o corpo, exatamente como ele imaginou que fariam.

Pedro voltou para casa com seu cachorro e arrumou uma nova profissão: fabricante de flautas.  Ele vendia flautas ou tocava, para animar as pessoas. Ficou famoso, juntou dinheiro e conseguiu mudar de cidade. Assim viveu feliz para sempre, ao lado do seu cãozinho!

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Conteúdo desenvolvido por: Rosana Ferraz Chaves   
Oraculista, sensitiva e escritora. Se dedica aos estudos de anjos, baralhos e tarots antigos, ministra cursos de oráculos, neurolinguística. Desenha mandalas e cria perfumes mágicos em seu atelier. Autora do livro Magid - O encontro com um anjo.
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