A Sociedade do Desempenho: Por Que Pensar Virou Perda de Tempo?

A Sociedade do Desempenho: Por Que Pensar Virou Perda de Tempo?
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Autor Paulo Roberto Savaris

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 3/13/2026 9:13:53 PM




Vivemos um tempo curioso - e talvez perigoso.

Na Atenas de Sócrates, dizer a verdade podia custar a própria vida. O filósofo que ousou questionar as certezas da cidade acabou condenado à morte.

Hoje, paradoxalmente, a verdade raramente mata - mas silencia.
Quem ousa dizer algo fora do coro dominante muitas vezes é rotulado, "cancelado", ignorado ou tratado como um simples sonhador sem relevância.

Mudaram os métodos.
Mas a intolerância ao pensamento livre permanece.

A sociedade que só valoriza quem produz

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han descreve esse fenômeno ao falar da sociedade do desempenho. Nela, a pergunta fundamental não é mais:

Quem você é?

Mas sim:

Quanto você produz?

Para muitos defensores de uma visão estritamente produtivista, filosofia é perda de tempo. Pensar seria quase um defeito.
Refletir seria um luxo.
Contemplar seria preguiça.

Nesse imaginário moderno, o valor de uma pessoa parece resumir-se a algo simples:

"Não importa o que você pensa.
Importa que você trabalhe."

Assim, toda discussão sobre redução da jornada de trabalho, tempo livre ou qualidade de vida costuma encontrar resistência imediata. O argumento surge rápido:

- Isso vai deixar as pessoas preguiçosas.
- Vai prejudicar a produção.

Mas raramente se pergunta: produção para quem?

Enquanto uma pequena parcela acumula riquezas extraordinárias, a maioria permanece na luta diária para garantir o mínimo necessário para viver.

A perda do coração na era digital

Essa lógica frenética tem consequências profundas.

Como lembra Hannah Arendt, o coração humano sempre foi o lugar da memória, da recordação e da permanência. Porém, na era digital, armazenamos toneladas de dados - sem necessariamente lembrar de nada.

Guardamos tudo.
Mas esquecemos quase tudo.

Vivemos cercados por informações, imagens, frases chamativas e emoções rápidas. Um fluxo incessante que cria a sensação de participação constante, onde todos têm voz - nem que seja para comentar algo superficial ou impulsivo.

Nesse ambiente informativo e muitas vezes alienante, raramente há espaço para o contraditório.
O que predomina são narrativas simplificadas, cuidadosamente embaladas por imagens e frases emotivas.

A caverna moderna

Séculos antes da internet, Platão já havia descrito algo semelhante em seu famoso Mito da Caverna.

Na alegoria, homens vivem acorrentados observando sombras projetadas na parede. Para eles, aquelas sombras são a realidade.

Somente quando alguém se liberta das correntes e sai da caverna descobre a verdade.

Mas essa libertação não é simples.

Quem retorna para contar o que viu corre o risco de ser ridicularizado - ou rejeitado.

A lição de Platão permanece atual:

Quem deseja agir racionalmente, seja na vida pessoal ou pública, precisa primeiro enxergar a verdade.

E para enxergar a verdade existe um caminho inevitável:

a contemplação.

Antes da ação, é preciso compreender.

O medo do ócio

Talvez por isso o ócio criativo assuste tanto.

Em uma sociedade movida pelo desempenho, parar parece perigoso.
Silenciar parece improdutivo.
Contemplar parece inútil.

Mas grandes tradições filosóficas sempre compreenderam o contrário.

O silêncio permite escutar.
A pausa permite pensar.
O ócio permite compreender.

Sem isso, a ação se torna apenas movimento cego.

O novo que nos cansa

O filósofo Søren Kierkegaard observou algo curioso sobre a obsessão moderna pelo novo.

Segundo ele, é apenas do novo que nos cansamos.

O antigo, o essencial, o verdadeiro - esses permanecem.
São como o pão cotidiano.

O novo seduz, mas rapidamente se dissolve.
O que realmente sustenta a vida é aquilo que pode ser repetido, vivido e aprofundado.

Talvez por isso as sociedades mais aceleradas sejam também as mais inquietas.

Buscam sempre a próxima novidade, mas raramente encontram descanso.

Cada pessoa como sacerdote de si mesma

No mundo contemporâneo, cada indivíduo se tornou, de certa forma, sacerdote de si mesmo.

Interpretamos a realidade, emitimos opiniões, compartilhamos narrativas e construímos identidades diante de uma audiência invisível.

Mas essa liberdade traz um desafio:

se não cultivarmos reflexão, discernimento e contemplação, acabamos apenas reproduzindo as sombras da caverna.

Sem perceber.

Caminhando com Francisco

Talvez seja por isso que o caminho da simplicidade continua sendo tão revolucionário.

Francisco de Assis não construiu sua sabedoria correndo atrás do novo.
Ele encontrou sentido naquilo que permanece:

no silêncio,
na contemplação,
na gratidão pelo cotidiano.

Em um mundo que valoriza apenas o desempenho, caminhar devagar pode parecer estranho.

Mas às vezes é exatamente isso que permite enxergar o que realmente importa.

Porque antes de agir.

é preciso ver.

E antes de ver.

é preciso parar.

Em um mundo que corre sem parar, talvez o verdadeiro ato revolucionário seja simplesmente pensar.





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Autor Paulo Roberto Savaris   
Paulo Roberto Savaris - Professor Aposentado. Autor dos eBooks da Série Descubra Caminhando com Francisco (Amazon) e de obras publicadas também pela UICLAP. Escreve sobre espiritualidade, fé, natureza e simplicidade. Conheça mais em: https://www.caminhandocomfrancisco.com/
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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