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Conto: UMA VIDA MARGINAL



Sentado em um banco da estação central do Metrô, Carlos pensava a que ponto de mendicância chegara. Roupa suja, rasgada, barba por fazer, cabelos longos, sem contar o mal cheiro que exalava, pois não sabia o que era banho há muito tempo.

Olhando aquela multidão em constante correria, cujos sons se misturavam ao barulho dos trens que iam e vinham, se questionava sobre sua vida atual. Não havia uma explicação aparente a não ser por ela. Há muito vagava sem rumo. Mas houve um tempo em que vivera uma vida normal, confortável e sadia. Emprego de destaque, um bom apartamento, carro, cartões de crédito, roupas de grife, bons perfumes e lindas mulheres. Da janela de sua empresa na Avenida Faria Lima, em São Paulo, podia observar prédios, casas, além do rio Pinheiros e do Jóquei Clube.

“Dr. Carlos, a reunião vai começar”, era a voz de Clarita, sua secretária que se confundia com o barulho do metrô, em suas lembranças. Solteiro, de boa aparência, vivia gastando seu dinheiro em bons restaurantes, casas noturnas e viagens. Não queria ter relacionamentos duradouros e sempre os terminava magoando, enviando flores e uma jóia, como se amores fossem comprados em prazos determinados. “Por quê? Por quê?”, recordou-se da voz de Amanda querendo apenas uma explicação e lhe devolvendo a jóia e as flores. Mesmo Clarita, sua secretária, o amava, mas trazia em silêncio esse sentimento, pois por várias vezes tinha sido a encarregada de colocar um ponto final nas conquistas de Carlos encomendando flores e jóias.

Certo dia, no elevador, viu pela primeira vez Maria Augusta. Seu coração bateu mais forte, sentiu algo estranho, como se tivesse visto aquela mulher em algum lugar. No escritório determinou uma nova missão para Clarita: descobrir quem era aquela mulher. Dias se passaram. Um mês, dois, três e Clarita não aquentava mais as cobranças do seu chefe.

Naquela tarde chuvosa, Carlos acompanhava o entêrro de um amigo no Cemitério da Consolação. Caminhando pelas alamedas taciturnas, sua atenção foi chamada para um túmulo. Sentiu um calafrio, seu corpo tremeu e lá estava ela. Sua foto e seu nome: Maria Augusta Olviedo. Nascida em 11 de agosto de 1963. Falecida em 15 de setembro de 2002. Carlos ficou parado ali por um longo tempo, nem acompanhou o enterro e só se deu conta quando o guarda veio avisar que o cemitério seria fechado.

Saindo dali começou a caminhar sem rumo. Seus pensamentos eram somente para aquela mulher. “Onde a conheci? Quem era? Por que a amo tanto?”. Sem respostas perambulava pelas ruas, sem destino. Nunca mais voltou para o trabalho e para a sua vida. Alimentava-se de restos de restaurantes, dormia ao relento e vez por outra recebia moedas da caridade humana. Com esse dinheiro comprara uma passagem do metrô e ali estava sentado, sem destino aparente.

Como uma alucinação viu Maria Augusta numa das plataformas e saiu correndo para toca-la. Carlos estava confuso. Seu corpo doía, mas estava numa sala limpa, numa cama de hospital. Queria se levantar, mas não tinha forças. Quis gritar, mas não tinha voz.
Em outro departamento, Maria Augusta era repreendida por mentores espirituais. “Meu grande amor estava vivendo uma vida marginal e isto o afastava cada vez mais de mim. A única solução foi busca-lo. Sei que não agi certo. Mas assim como aqui, na Terra o amor transcende barreiras!” se justificou.

Texto revisado por Cris
Publicado dia 27/1/2007

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