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A Casa Mal-assombrada


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Cartas (Parte 2) 
Meu primeiro contato com cartomancia foi no início da adolescência, por meio de colegas do antigo primeiro grau. Alguém descobriu que, em um bairro vizinho ao de nossa escola, havia uma senhora que lia cartas e respondia às nossas perguntas. A notícia se espalhou rapidamente e ficamos muito curiosas a respeito.

Para irmos até lá, era necessário guardar o dinheiro do ônibus, andando a pé por dois ou três dias. Fomos em um grupo de quatro colegas, à tarde após a aula, em meio a muitas risadas. Mas os risos acabaram assim que chegamos ao endereço e avistamos a casa. Uma pequena mureta com um portão baixo, de ferro, se abria para uma escada, cercada de um matagal. Era uma casa muito antiga e malconservada, no alto de um terreno íngreme e a escada conduzia até a porta principal. Olhando da rua, atrás do velho portão enferrujado, a escada parecia tender ao infinito, com a casa lá no alto do morro, cercada de mato. Imagino que deveria ter sido outrora um belo jardim, mas nessa época de abandono e falta de cuidado se resumia a um matagal, com algumas flores secas. Para nós, dentro da imaginação adolescente, dava a impressão de ser mal-assombrada. Ainda bem que não fomos em dia de temporal!

Chegando lá, tocamos a campainha, que soou como um berro rouco. Uma senhora, com aparência peculiar, surgiu na varandinha que antecedia a porta de entrada e com um gesto nos convidou a subir. Era tudo muito estranho e, ao mesmo tempo, uma aventura que nos provocou medo e euforia. Em nossa imaginação, estávamos entrando em uma casa mal-assombrada e aquela senhora, que pouco ou nada falou, era a típica bruxa dos filmes de Hollywood. Entrando, viam-se móveis empoeirados, tapete velho, cortinas muito pesadas de veludo e a pintura das paredes descascando. Não sei se a imaginação que completou o clima, mas algumas meninas juram que viram teias de aranha e que ouviram a porta ranger ao se abrir, igualzinho aos filmes de terror.

Aguardando na antessala, o coração batia rápido, as pernas tremiam e as mãos suavam. Estávamos com medo desde a porta da casa, mas ali o medo aumentou ainda mais! Por isso, combinamos de entrar as quatro juntas. Quando a outra senhora, irmã dessa primeira, nos pediu para entrar, o medo se transformou em pavor! A sala de atendimento também era escura, pois cortinas pesadas cobriam a única janela. Havia uma grande mesa redonda e a senhora pediu que nos sentássemos ao redor. Contudo, aos poucos, a fala mansa e educada da senhora foi nos acalmando.

Queríamos saber coisas a respeito de paqueras, se iríamos namorar com algum menino da escola ou do bairro. Perguntávamos sobre alguma questão familiar, preocupação com mãe, pois existiam conflitos naturais com as mães, coisas normais de adolescentes. Também queríamos saber a respeito da escola, sobre as provas difíceis ou a respeito dos professores mais severos. Apenas uma de nós se atreveu a perguntar alguma questão relacionada à futura profissão, que faculdade fazer ou algo assim.  De um modo geral, as perguntas foram aleatórias e sobre coisas triviais e não houve nenhum critério para as perguntas. Apenas as curiosidades de adolescentes que nos moveram até a casa da velha cartomante, nada além.

 A senhora utilizava um baralho comum, desses de jogo de cartas. Ia nos dizendo coisas à medida que observava as figuras e os naipes das cartas, abrindo o baralho sobre a mesa coberta com pano pesado, parecendo um feltro. Eu não entendia nada de cartomancia. Mas ela mostrava alguns significados: o valete de Copas ou de Ouros representava um “rapaz clarinho”, nas palavras dela, se fosse de paus ou espadas, era moreno. E se saísse a carta do rei, era um homem mais velho. Não me lembro quais eram as interpretações para as outras cartas e não faço ideia se havia estudo, intuição aguçada ou mesmo mediunidade.

Nós fomos movidas pela curiosidade e ficávamos tentando saber se ela acertava alguma coisa! Como se o intuito fosse testar a capacidade de a cartomante prever o futuro! Tempos depois, uma colega retornou à casa, propositadamente com essa finalidade. Pegou a aliança da mãe e colocou na mão direita, fingindo que estava noiva, sendo que nem namorado tinha. Contou-nos, rindo, que a cartomante viu nas cartas que seu noivo a estava traindo com uma mulher mais velha. Realmente aos quatorze anos, não tínhamos bom senso, noção de respeito ou juízo para lidar com certas questões e tudo era uma grande brincadeira...

Hoje, mais de quatro décadas depois, é possível avaliar com outros olhos. Penso que aquelas duas senhoras estavam com dificuldades para se manter financeiramente. É possível que tivessem herdado a casa e, contudo, não possuíssem renda para manter o antigo padrão de vida da família, o que explicaria o estado decadente do imóvel.  Provavelmente precisavam daqueles recursos para se sustentar. O que pagávamos era equivalente a duas ou três passagens de ônibus, mas poderia ser o dinheiro para alimentação diária. Não sabemos! Quanto à senhora que abria a porta, acredito que tivesse algum tipo de deficiência mental leve, por causa de sua postura, olhar e dificuldade para falar. A cartomante, sua irmã e tutora, deveria passar muitas dificuldades, sendo responsável por tudo!

A diversão e curiosidade imatura da juventude do bairro, ainda que irresponsável, colaborava com o auxílio para as duas senhoras que viviam naquela casa semiabandonada. A casa que ficou com fama de ser mal-assombrada e habitada por “bruxas cartomantes”!

Texto Revisado

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Conteúdo desenvolvido por: Priscila Gaspar   
Priscila Gaspar é Psicanalista, Terapeuta de Regressão e Terapeuta de Casais, com especialização em Sexualidade Humana. Atende em psicoterapia individual e de casal.Contato: [email protected]
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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