auravide auravide

A Cela



Cheguei a este mundo e fui aprisionado. Na cela fui atirado com a roupa que estava usando que era minha própria pele, uma vestimenta morena, sem pêlos e totalmente lisa. A porta foi trancada para nunca mais abrir e do outro lado, uma outra porta, pintada de preto com uma cruz branca no seu centro. Era a porta da morte que um dia seria aberta e eu seria conduzido para o nada. Teria que viver naquele quarto escuro sendo que, durante doze horas acendia uma lâmpada, período este que eu podia fazer alguma coisa, qualquer coisa ou nada fazer.

No início, passei todo o período deitado, hora dormindo, ora acordado, ou acordado dormindo ou dormindo acordado. O tempo foi passando e resolvi fazer alguma coisa e passei a estudar a técnica de construir cadeiras, armários e mesas. Foi um período útil, nada mais que útil, sendo apenas uma atividade dentre outras atividades que consomem o tempo. Abandonei o construir por ser uma coisa muito superficial e me deixei mergulhar no nada fazer. Um dia chegou um pregador das palavras de Deus, mostrando-me o caminho da salvação. Escutei o pastor durante muitos anos até chegar à conclusão de que um homem não pode ensinar a outro homem, todos são iguais.

Na estante que fabriquei tinha um livro com o pensamento de todos os filósofos e vagarosamente passei a estudá-los. Li todos, de Tales de Mileto a José Ferrater Mora. Foi interessante para passar o tempo, era o pensar deles e não o meu.
Sem nada fazer, para ocupar o tempo procurei investigar profundamente uma folha seca, que tocada pelo vento, passou pelas grades da janela e caiu em minha cama. Estudei muito, por fim, não mais existia a folha e sim apenas um pequenino elétron que era o meu objeto de estudo. Na minha cela, inúmeros blocos de papel com as minhas teses e contrat-teses da antiga folha que um dia participou de uma árvore. Parei, olhei tudo em volta e acabei jogando toda aquela papelada no vaso sanitário. Tempo perdido ou tempo ganho, não sei, só sei que estudar o ente não leva a lugar nenhum, só ocupa espaço.

Através das grades, via rostos desesperados e atitudes de agonia. Tomado pela compaixão, procurei doar-me na tentativa de aliviar a dor dos outros. Transformei-me, com o passar das luas, em um benévolo cidadão. Inútil, totalmente inútil, cada um é cada um e todos estão na mesma prisão. Sozinho na cela, olhando para um lado e para o outro, contemplando a formiga caminhando na parede levando um pedaço de alimento para o formigueiro, trabalhando para a coletividade, tive a intuição de gritar: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Ao mesmo tempo todos os presos, em uníssono, responderam: “Viva”.
Passei a ser o líder, o defensor dos princípios idealísticos. Ilusão, somente ilusão; palavras, apenas palavras... Estamos todos enjaulados nesta cadeia aparentemente bonita.

Um dia, estava já com os cabelos brancos e observei que eu só conhecia o meu corpo, eu não conhecia a minha essência. Será que de fato eu existo? Olhei para os lados e vi que conhecer o que possui altura, largura e espessura era fácil. Existem métodos para se conhecer o fenomenológico, mas eu não queria conhecer o tridimensional. Queria apenas conhecer a essência que existe no interior de todo ente, queria me ver, queria me encontrar comigo mesmo, queria deparar com o sujeito que estava vestindo aquele corpo, que eu enganosamente chamava de eu.
Resolvi olhar para dentro de mim, mas a porta preta abriu e fui tragado pela morte.

Texto revisado por: Cris
Publicado dia 8/8/2007

  estamos online

Gostou?    Sim    Não   

starstarstarstarstar Avaliação: 5 | Votos: 8




Veja também
© Copyright - Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução dos textos aqui contidos sem a prévia autorização dos autores.




publicidade











auravide

 

Voltar ao Topo

Siga-nos


Somos Todos UM no Smartphone
Google Play


© Copyright 2000-2021 SomosTodosUM - O SEU SITE DE AUTOCONHECIMENTO. Todos os direitos reservados. Política de Privacidade - Site Parceiro do UOL Universa