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A Cruz Quebrada

por Eduardo Paes Ferreira Netto

Publicado dia 22/2/2008 em Autoconhecimento

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Senhor de grandes conhecimentos filosóficos, após muitos anos de trabalho quedou-se a meditar sobre o trabalho que vinha desempenhando à frente da organização a que pertencia. Pensou nas horas de sono que deixara de gozar para atender ao serviço da sociedade e dos fins de semana que sonegava à família para viajar a serviço. Recordava que praticamente só ele se dedicava com tanto afinco aos afazeres sociais; os demais companheiros sempre encontravam uma desculpa qualquer para se furtar ao dever.

Começou a sentir uma certa revolta contra os companheiros que não se dedicavam adequadamente ao trabalho, deixando-lhe a parte mais difícil e trabalhosa dos encargos da sociedade. Era um homem realmente religioso e absolutamente honesto em suas convicções e isso lhe granjeara a simpatia e a confiança dos associados, mas antipatia de muita gente.

A meta da organização era realizar o paraíso aqui mesmo no mundo em que vivemos. Não era lá muita vantagem ter primeiro que morrer para alcançá-lo e Alberto esforçava-se realmente para realizar seu ideal. Sua meditação estava nessas alturas tomando um rumo muito negativo, quando diante de si "surgiu" um cidadão de aparência distinta que lhe disse:

- Se você deseja realmente alcançar o paraíso deverá ir à cidade de Esperança, apanhar a sua cruz e seguir em frente pela estrada que lhe indicarão. Você chegará infalivelmente ao seu destino. Lembre-se, entretanto, que você deverá carregar sua cruz e não a de outrem.

- Como é que eu vou reconhecer a minha cruz?

- Você verá seu nome inscrito.

Dirigiu-se à estação ferroviária, apanhou o primeiro trem para Esperança, lá chegando após algumas horas de viagem.

- Meu amigo, onde é o local em que eu posso encontrar a minha cruz? Perguntou ao chefe da estação.

- Você segue por aquela estrada e logo encontrará o Bairro das Cruzes, respondeu o Chefe, apontando numa determinada direção.

- Muito obrigado, o senhor é muito gentil. Assim dizendo, Alberto tomou a direção indicada. Uma caminhada mais ou menos longa e Alberto chegou ao local indicado onde havia uma incalculável quantidade de cruzes de todos os tamanhos.

- Meu Deus, como é que vou encontrar minha cruz no meio de tantas?

Enquanto assim questionava o Criador, surgiu à sua frente um ancião informando-lhe:

- Procure pelo tamanho.

Alberto agradeceu e entrou na área onde se localizavam as cruzes dando inicio à pesquisa. Certamente seria uma cruz nem muito grande, nem muito pequena; afinal, não se julgava muito santo, nem ter um carma tão pesado para resgatar e assim iniciou sua busca pelas cruzes de tamanho médio. Não a encontrou. "Não é possível que minha cruz esteja entre as maiores... eu não posso acreditar." Assim pensando procurou a área em que as cruzes eram menores. Foi uma busca demorada e inútil. Também não estava ali. "Será possível que minha cruz seja tão grande assim? Não posso acreditar!"

Cansado de tanto andar entre aquelas cruzes todas, sentou-se e começou a rememorar sua vida. Passou um longo tempo a remoer seu passado e, afinal, conformado com a situação levantou-se e foi procurar seu fardo entre as maiores.

Procura aqui, procura acolá, por fim encontrou-a: era a maior de todas, não dava para acreditar. Olhou para o topo do grande madeiro e lá em letras bem visíveis estava gravado seu nome, com todas as letras. Não havia possibilidade de engano. Sua cruz era a maior e certamente a mais pesada. Olhou-a mais uma vez e pensou: "Como é que eu vou carregar uma cruz tão pesada?" Sentiu-se cheio de aflição. Sentou-se mais uma vez, pôs as mãos na cabeça, desconsolado. "Não posso ficar aqui parado sem nada fazer. Voltar atrás seria uma grande covardia. Ela parece tão pesada, será que vou agüentá-la?"

Levantou-se, chegou mais perto, tocou-lhe a madeira. "Deve ser um bocado pesada", pensou. A cruz não estava enterrada, apenas encaixada num buraco de profundidade suficiente para mantê-la em pé. Passou os braços em torno e procurou levantá-la. Realmente tinha um peso apreciável, mas dava para tirá-la dali. Fez um esforço maior e conseguiu levantá-la pousando-a no chão.

- Meu prezado, qual é a estrada que me levará ao Paraíso? Perguntou ao guardião do bairro.

- É aquela lá, respondeu-lhe, apontando o dedo numa determinada direção.

- É muito longe até lá?

- Nem longe, nem perto.

Alberto por fim desistiu de continuar o diálogo com aquele ser tão lacônico. Voltou ao local onde pousara sua cruz, colocou-a às costas e tomou o rumo indicado. Foi andando, andando e não encontrava ninguém pelo caminho com quem pudesse conversar um pouco. Estava só na estrada cheia de buracos e obstáculos de toda sorte. A cruz cada vez pesava mais. Lá pelas tantas, cansado, pousou a cruz no chão para descansar um pouco. "Já andei um bocado e não encontrei ninguém! Não sei quanto vai durar ainda esta caminhada. Se eu tirar um pedaço ela vai ficar mais leve e ninguém vai saber."

- O que é isso Alberto? questionou sua consciência.

Sem tomar em consideração o alerta de seu Eu Interior quebrou um pedaço da cruz e reencetou a caminhada. A estrada continuava a mesma, cheia de buracos e desníveis e pedras de todos os tamanhos e a cruz parecia ter aumentado de peso. Tirou mais um pedaço, não tinha mesmo ninguém vendo. Embora com remorsos, anestesiava a consciência justificando-se de que não podia agüentar tanto peso.

Após mais algum tempo de caminhada chegou Alberto às margens de um rio cujas águas corriam num turbilhão extremamente violento. Na margem oposta, uma placa indicava o fim de sua jornada: PARAÍSO!

Alberto pulou de alegria, tinha atingido sua meta. Pousou a cruz no chão e foi procurar uma ponte. Não encontrou. Simplesmente não havia ponte. A violência das águas descartava qualquer possibilidade de atravessá-la a vau. Que fazer? Estava assim pensando, quando viu uma pessoa se aproximando da margem oposta. O homem parou observando o rio.

- Amigo, como é que eu faço para atravessar este rio? Perguntou Alberto já um tanto aflito.

- Pegue sua cruz e faça com ela uma ponte. Seu tamanho é suficiente para ligar as duas margens.

Alberto olhou desconsolado para sua cruz. Seu tamanho original serviria para chegar ao Paraíso.

Voltando do estado meditativo, visivelmente chocado com a vivência que lhe fora proporcionada decidiu não se preocupar mais com os companheiros e o excesso de trabalho e tratar de carregar com humildade sua cruz.

Texto revisado por Cris

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