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A fugacidade das experiências e do viver



Em todos nós existe a necessidade de integrar sentimentos e desejos onde todas as descrições que estão por vir, com base nas vivências e experiências, possam revelar a dimensão de vida que nos permita permanecer em paz conosco mesmos e com os outros. Revelar descrições de dimensões para emancipação, ecologia corporal, sincronicidade consciente, alteridade madura e sustentação da vida que quer viver é tarefa que exige constância apesar da fugacidade das experiências e do viver.

Mas é preciso compreender os passos de uma pedagogia amorosa, uma utopia, na qual a harmonia seja uma experiência muito mais comum que violência. Muita paz, nenhuma guerra. A competição cedendo lugar à cooperação. Um exercício vivencial para se tomar uma atitude de arte de encontros e não de desencontros. Um dos caminhos é buscar uma melhor consciência da própria corporeidade, tornar-se corpo buscado em direção a si mesmo, como no sentido socrático do “conhece-te a si mesmo”, restabelecer formas esquecidas de ver e enxergar além do véu das necessidades.

Além do que cotidianamente chamamos de corpo e na condição de veículo de ser e estar no mundo, viver nos oferece miríades de possibilidades, fugazes quase sempre, de dispor de uma ótica de auto-realização e de busca do sentido de si. Uma percepção de melhor viver, transcendente à percepção das sutis camadas que envolvem a existência, estruturada em múltiplas camadas de experiência humana sob a forma de músculos, ossos, nervos revestidos por uma pele. Neste sentido a vida se redimensiona na emoção, que busca na razão o equilíbrio da sua existência. Olhar o corpo-no-mundo, em busca da revelação de uma compreensão possível, uma descrição das percepções da possibilidade de expressão de dimensões mais evoluídas que podem ser manifestas no corpo físico.

Diante do ilimitado número de limitações humanas a que – ou a quem – deve-se recorrer para responder questões eternas como: Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? E ainda mais, quais são as ferramentas para contribuir com uma visão probabilista ao invés de uma visão determinista? Como compreender a relação de casualidade para em certo sentido, divertir-se com a causalidade? Também não é o caso de desvalorizar a linguagem probabilista, pois corre-se o risco de subestimar o que foi feito pelos seres humanos no interior da história do conhecimento.

Existe um conceito na física quântica que diz que a luz não pode ser uma onda e um fóton ao mesmo tempo, é uma coisa ou outra; mas o poeta Sufi Rumi nos alerta: “Muito além das idéias do certo e do errado existe um campo. Nos encontraremos lá.” Na biologia já ouvimos falar de neurotransmissores e peptídeos — substâncias pequeninas — mensageiras das informações para o sistema imunológico. Existem algumas dezenas desses “mensageiros”. Acredito que provavelmente um para cada situação necessária, pois intuo que eles são probabilisticamente altamente flexíveis e moldáveis. São produzidos pelo cérebro e se instalam em determinados lugares chamados “receptores” que também acredito sejam tantos quantos se precise para receber os neurotransmissores que aparecem.

Será que são o próprio pensamento? A inteligência se deslocando em suas carruagens biológicas de alta precisão e significado para construção da vida? Neste momento não disponho de recursos para descrever esta percepção. Com certeza não seria filosofia, não seria ciência, pode ser algo que permeia a ambas, tão fugaz que a consciência poderia se multiplicar em multiconsciências.

Para refletir sobre as experiências de viver, da fugacidade do sentido do encontro com a própria corporeidade, gostaria de apresentar uma definição de ciência de um filósofo que aprecio, Jacob Boehme: “Ciência - verdadeira raiz - base da compreensão e da sensibilidade, é o fundamento de todos os começos espirituais.” O mesmo também sugere que “o Ser tem o poder de gerar a si mesmo e se configurar como o verbo eterno, em formas.”

O silêncio que gera as ações corporais só pode, portanto, se reconstituir por uma dupla redução: primeira, a da relação com o outro na vivência da comunicação indicativa. Segunda, a da expressividade como camada ulterior, superior e exterior à do sentido que nos remete a uma das perguntas clássicas da filosofia: - A essência é o que é? Isso nos põe a refletir sobre o sentido corporal da pura possibilidade. É essa pura possibilidade que nos permite distinguir de imediato a direção e o desejo das realizações.

Sendo assim, seria o corpo pura possibilidade que nos permite distingui-lo de imediato de todo outro corpo e, a partir do sentido de presença que lhe é próprio, possa ser percebido, de alguma maneira por transparência? E o que é essa transparência? Imagino que se possa chamá-la de integridade, não no sentido apenas moral, mas, precisamente, no sentido físico e no sentido prático.

Assim declinado, seria semelhante a dizer que a transparência é notada quando a integridade é reconhecida. Reconhecer a integridade é saber-se pessoa, considerando não apenas as virtudes, mas também aquilo que não são virtudes. Nossa integridade é aquilo que somos sem fingimento nenhum. É podermos ser enquanto somos, sem máscaras e sem recursos estabelecidos pelo ego. Contemporaneamente poderíamos dizer, sem marketing pessoal. Em outras palavras, reconhecer-se como a primeira pessoa do próprio movimento humano, com os afetos da dualidade intencionalmente percebidos e resolvidos, no sentido de assumir-se agente cem por cento responsável pelos próprios atos, palavras, erros e omissões.

Se a essência permite reconhecer um comportamento, é porque ela é sempre idêntica a si própria, não importando as circunstâncias contingentes de sua realização. Ela é a visão do sentido ideal que atribuímos ao fato materialmente percebido e que nos permite identificá-lo.

Temos então uma prerrogativa: a de tentar descrever todas as vivências e seus mistérios - não imagino poder desvendá-las - deixar espaços para o incomensurável, para a surpresa, para o encantamento, para algo vivo e não necessariamente orgânico. Para algo que permeia o sentir enquanto corpo. Um ser humano que pudesse ver e olhar, no exercício do sentir como cidadão, proprietário da sua própria corporeidade e saber que somos o Espaço de Probabilidades e Possibilidades de nosso ser-no-mundo. Na condição de ser essa humanidade, de ser auto-reconhecido nela, somos o mundo que em nosso ser, por princípio fraterno, em si mesmo estrutura suas experiências vividas, desperto pela consciência de que em qualquer sentido a melhor possibilidade é viver, considerando a fugacidade da vida em todas as suas dimensões de experiências vividas ou do vir-a-ser.

Texto revisado por Cris


Publicado dia 25/5/2007
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Autor: Samuel Macêdo Guimarães   
Formação em Psicoterapia Corporal Neo-Reichiana, Psicoterapia Corporal para Crianças e Adolescentes, Psicoterapia Holográfica. Mestre em Educação Física, Consultor de Bem Estar.
E-mail: smgbahia@outlook.com | Mais artigos.

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