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Além de Mãe, uma Fênix



Um dia vive a dor mais forte que sempre temi passar e reconheço a sua importância para a nova mulher que descobri dentro de mim.
Depois de quase quatro anos, hoje percebo que estive muito atenta a tudo que acontecia comigo, na certeza de que nada estava acontecendo por acaso e sem um motivo muito mais importante do que o meu sofrimento pela perda de uma filha maravilhosa.
Foi um marco, o início do meu processo de morte e renascimento interior, consciente e lúcido.
Não posso explicar como, mas todos os meus canais sensoriais se abriram e eu comecei a ouvir, sentir, enxergar, perceber tudo ao meu redor e dentro de mim com uma intensidade absurda.
Eu não sentia mais medo ou vergonha de nada e de ninguém.
Chorar, por exemplo, na frente de estranhos ou conhecidos, não mais me incomodava. Era tão natural e verdadeiro que eu nem pensava se estava sendo julgada pelas pessoas que me viam assim.
Vivi a verdadeira experiência de estar totalmente centrada em mim mesma, no aqui e agora, respeitando meus sentimentos e escolhas, como nunca fiz em toda a minha vida.
Sempre me preocupei em ser perfeita em todos os meus papéis dentro da família e na sociedade e para isso procurava esconder, manipular e filtrar meus sentimentos e emoções, até de mim mesma.
Lembro-me, por exemplo, que ao participar de um processo seletivo interno para um novo cargo dentro de uma empresa que trabalhei há muitos anos, não pude segurar minhas lágrimas de emoção, no momento em que falávamos de nossos pais.
Era quase Natal e eu ficava muito emotiva nesta época, pois sentia saudades dos meus pais que haviam morrido quando eu era jovem, sem contar que naquela época isso ainda era recente.
Fiquei transtornada, revoltada com a incapacidade de controlar minhas emoções em um momento profissional importante. Julguei-me fraca e imatura.
Depois deste acontecimento, ouvi de uma importante diretora que eu era a melhor candidata até aquele meu momento de fraqueza.
Hoje sinto o quanto nos deixamos conduzir na vida, para sermos aceitos pelos outros e assim padronizamos os nossos comportamentos defensivos e egóicos.
Aceitamos que ser humano e autêntico é inadequado para o sucesso. Nosso medo sufoca e enterra o amor incondicional, até o dia em que percebemos que este sucesso no mundo material não significa absolutamente nada.
Aquela diretora era uma mulher fria e dura como um iceberg e exigia que as pessoas fossem iguais a ela, manipulando seus sentimentos, palavras e ações para manter uma falsa imagem de poder e eficiência.
Ainda bem que nunca cheguei a me tornar como ela, mas em muitos aspectos também agia da mesma forma, procurando ser socialmente e profissionalmente perfeita.
Em cada situação, procuramos nos apresentar da maneira que julgamos melhor, reagindo de acordo com o ambiente e as pessoas, sempre querendo aparentar o que não somos.
Como são muitas as situações vividas, deixamos de saber quem realmente somos e quem gostaríamos de ser. Não exercemos o nosso direito de escolha consciente.
Nossa vida poderá ser uma eterna sucessão de REAÇÕES inconscientes, semelhantes às máquinas ou aos robôs, ligados no “piloto automático”, mas nunca seremos verdadeiramente felizes e completos.
Padrões de comportamentos são as causas da nossa infelicidade nos relacionamentos interpessoais, tanto na vida pessoal quanto profissional, mas não é fácil perceber isso.
O mais incrível foi eu perceber que estes conceitos eu já sabia ou achei que soubesse, entretanto, estava cega para observar que não os praticava da forma certa.
Naqueles dias de luto e reclusão em mim mesma, cada realidade revelada fazia com que eu enxergasse melhor também a reação alheia e o meu primeiro movimento foi querer mostrar isso para as pessoas que conviviam comigo.
Eu ficava eufórica, percebendo que poderia me tornar um ser humano melhor e ingenuamente queria compartilhar este aprendizado especial com as pessoas próximas a mim. Minha frustração era enorme, pois poucos conseguiam entrar na mesma sintonia e absorver a riqueza daqueles momentos.
Percebi depois que o processo de desenvolvimento da consciência é particular de cada ser humano e dependerá do seu momento e vontade de crescer espiritualmente. Eu só poderia ajudar as pessoas que solicitassem a minha ajuda, pois assim estabeleceríamos uma freqüência semelhante.
Dói conhecer o nosso lado sombra, mas foi aceitando as minhas fraquezas que pude renascer mais forte para a vida.
Nossas máscaras, escudos e armas, usados há anos para nos proteger de nós mesmos, ficam tão enraizados que parecem fazer parte do que somos.
Olhar de frente para nossas atitudes, sem culpa ou julgamentos, mas com coragem para ver o que há de verdadeiro nas nossas intenções permite enxergar, ou melhor, iluminar nossas inúmeras facetas sombrias, trazendo para a superfície o brilho da nossa alma.
Sinto como foi importante ter perdido o medo e desta forma destruído as minhas resistências. Isso ocorreu por que o meu sofrimento tirou o meu foco do mundo material.
Não precisava mais provar ser perfeita para ninguém, pois na verdade sentia a morte queimando meu ser a cada dia, ao mesmo tempo em que uma nova vida futura me enchia de esperança. Cheguei a pensar que seria feliz após a morte.
Isso eu não compartilhava com ninguém, exceto meu diário, pois a princípio julguei que estava enlouquecendo de tanta dor e não seria justo deixar as pessoas que me amavam ainda mais aflitas com os meus pensamentos.
Tive mesmo que morrer para renascer das minhas próprias cinzas e lágrimas e, semelhante a música Fênix, de Jorge Vercilo, pude constatar que a noite fez nascer a LUZ da minha própria escuridão e que a minha dor revelou a mais esplendia emoção que ainda não conhecia em sua plenitude, o AMOR incondicional e verdadeiro.
Hoje amo as pessoas, respeitando seus defeitos e fraquezas, procurando conter as minhas expectativas de receber retornos agradáveis, pois somos exatamente iguais.
Sinto tristeza ao perceber alguém manifestando seu lado ruim e prejudicando as pessoas ao seu redor, mas agora aceito a minha incapacidade de poder ajudá-lo, assim como sei que todos serão capazes de sobreviver ao sofrimento e aprender alguma coisa importante com ele.

Publicado dia 12/5/2007
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