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Cansaço Existencial e Responsabilidade

Cansaço Existencial e Responsabilidade

por João Carvalho Neto

Na minha prática clínica como Psicanalista Transpessoal, tenho observado uma queixa muito comum que permeia outras demais queixas, talvez como uma pré-disposição, a qque eu tenho atribuído o conceito de cansaço existencial.

Esse cansaço é multifatorial, um somatório de angústias inerentes ao psiquismo humano, conforme Freud apresenta em “O mal-estar da civilização”, como também pelo distanciamento de sua ligação com o poder criador da vida e o acúmulo de estresse frente à necessidade neurotizada de atender às demandas financeiras e sociais.

Freud registrou sua percepção de que para viver o processo civilizatório, o ser humano necessitava abrir mão do desejo egocêntrico, cedendo ao interesse coletivo, mas com isso aceitando a frustração daquilo que não poderia mais realizar. Ou seja, se eu quero ser incluído, aceito e protegido, nem tudo aquilo que desejo eu posso fazer. Nisso fica uma angústia que nos acompanha e que pode alcançar níveis intensos dependendo da nossa maior ou menor maturidade para lidar com a frustração.

Por outro lado, o enfraquecimento de nossa conexão com a fonte da vida, com o campo quântico de onde nos originamos, esvazia nossas energias psicoespirituais, que não se recarregam pelas práticas reconectivas, principalmente em função do estresse e do materialismo que marca a filosofia dos sistemas em que estamos inseridos. Essa questão é tão grave que mesmo pessoas frequentadoras de cultos religiosos não se dão conta de que suas práticas e discursos também tangenciam uma abordagem mais materialista do que sublimada.

E, por fim, a crise econômica que se impõe traz novos condicionamentos ao nosso consumismo, fazendo com que nos adaptemos ou tenhamos que investir mais tempo e energia trabalhando para manter um estilo de vida, mesmo que ao custo da saúde física e psicológica.

Claro que nossas reflexões poderiam se estender a outros diversos aspectos desse cansaço existencial, mas fugiríamos aos propósitos desse texto.

O fato é que quando falamos em crise, em tempos de transição, verificamos que a grande marca desse momento é avançar da imaturidade para níveis maiores de amadurecimento. E isso parece acontecer sempre com sofrimento. Como por exemplo, quando a criança avança pela adolescência em uma transição para a vida adulta. Os conflitos e angústias são inevitáveis. Aceitar deixar aquilo que se conhece para viver o novo, para fazer adaptações a novas formas de ver e viver a realidade exige resiliência, aceitação da perda. Perda de vantagens materiais, de sistemas de crenças, de realidades às quais nos acomodamos e que vínhamos tomando como única opção.

Nesses momentos, a palavra de ordem é responsabilidade. Responsabilidade consigo mesmo, com a vida ao seu redor. Responsabilidade com o que se diz, pensa e age. Não adianta esperar soluções miraculosas que venham dos céus. A transição era prevista e espíritos elevados reencarnam para ajudar, mas as coisas não acontecerão por um imperativo externo. As mudanças mais graves urgem acontecer dentro de nós mesmos e ninguém pode operá-las por nós. A ajuda chega, mas o trabalho é pessoal e intransferível.

Escuto pessoas dizendo que tudo vai melhorar como se houvesse um determinismo natural e a transição se operasse alheia a nós mesmos. Contudo, a crise da transição vem justamente para exercitar nossa transformação e se cada um não viver seu papel não terá aprendido com ela. A omissão pode ser um erro tão grave quanto a ação delituosa.

Por isso, a responsabilidade não está somente no mudar-se mas no mudar-se sendo um agente de transformação da realidade ao seu redor.

O cansaço existencial que se abate sobre muitos de nós é compreensível, mas também surge como exercício de superação, de arregimentar forças que desconhecemos em nós próprios no rumo de nossa evolução. Talvez saiamos feridos, talvez abatidos em algumas situações, entretanto, é no fogo que se forja a lâmina, é no buril que se lapida o diamante e é no sofrimento das lutas do mundo que se aprimora a alma.

Texto Revisado

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Avaliação: 5 | Votos: 1 Atualizado em 06/11/2019

Autor: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Mestre em Psicanálise, autor da tese "Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção", autor da tese "Estruturação palingenésica das neuroses", autor do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, autor dos livros "Psicanálise da alma" e "Casos de um divã transpessoal 
E-mail: joaoneto@joaocarvalho.com.br
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