Consciência e mente são a mesma coisa?
Autor Alexei Bueno
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 8/13/2026 8:53:15 AM

Falar em Alma, Espírito e até Fantasma parecem pertencer a um vocabulário antigo, cercado de religião e, vez ou outra, de alguma casa mal-assombrada. No entanto, todos eles, cada qual dentro de seu contexto, procuram apontar para algo que hoje podemos aproximar do conceito de Consciência. É importante esclarecer que, em um estudo espiritualista e metafísico, "Consciência" não significa simplesmente estar acordado, desperto e atento - afinal, se assim fosse, tomar um café forte pela manhã poderia nos transformar em grandes mestres espirituais. A palavra é empregada aqui em um sentido muito mais profundo: como aquilo que torna possível perceber, experimentar e conhecer a realidade. Mas, afinal, o que é essa tal de Consciência?
Na filosofia do Shivaísmo da Caxemira, encontramos os sutras, breves aforismos que funcionam como uma espécie de "fio condutor" - afinal, sutra significa literalmente "fio" - para transmitir profundos ensinamentos filosóficos e espirituais. Por serem extremamente resumidos, os sutras conseguem expressar ideias profundas em pouquíssimas palavras, exigindo reflexão e interpretação para que seu significado seja plenamente compreendido. O primeiro dos Siva Sutras começa justamente com uma afirmação fundamental: "A Consciência é o Si mesmo" (Caitanyam atma). Esse aforismo estabelece o ponto de partida de todo uma escola filosófica: nossa natureza mais profunda não é o corpo, a personalidade ou mesmo a mente, mas Caitanya, termo sânscrito que pode ser compreendido, em linguagem moderna, como Consciência, o princípio fundamental que torna possível toda experiência, percepção e conhecimento.
Nas filosofias orientais não dualistas, e particularmente no Shivaísmo da Caxemira, nossa consciência individual não está verdadeiramente separada da Consciência Absoluta, representada filosoficamente por Shiva. Indo ainda mais fundo, toda a realidade é manifestação dessa única Consciência: do átomo à mais distante galáxia, dos planetas aos seres vivos, tudo existe no interior dessa realidade fundamental e participa dela. Isso não significa, obviamente, que uma pedra, uma planta, um animal e um ser humano possuam o mesmo grau de experiência consciente. A Consciência é essencialmente a mesma, mas manifesta-se de maneira mais ou menos limitada (ou contraída), conforme as condições e possibilidades de cada um. Assim, a multiplicidade de coisas que observamos no Universo (incluindo matéria, energia...) não representa uma separação da Consciência Absoluta, mas diferentes maneiras pelas quais ela se manifesta e experimenta a si mesma.
Utilizando uma analogia, podemos comparar a Consciência Absoluta a uma usina hidrelétrica, enquanto a multiplicidade da existência - incluindo nós - seria representada por inúmeras lâmpadas, de diferentes tamanhos, cores e tipos. Embora cada lâmpada manifeste a energia de maneira particular, a fonte que as alimenta é a mesma. De modo semelhante, a Consciência é una em sua essência, mas manifesta-se de diferentes maneiras e em diferentes graus de limitação através das inúmeras formas da existência. Assim, do reino mineral ao vegetal, do animal ao humano, não muda a essência da Consciência, mas as condições e possibilidades através das quais ela se expressa.
Portanto, respondendo a questão principal: O que seria a consciência humana nesse contexto? A consciência do ser humano é a própria Consciência Absoluta, porém manifestada de maneira limitada ou contraída na experiência de um indivíduo. Não existem, portanto, duas consciências distintas - uma "divina" e outra "humana" -, mas uma única Consciência que assume diferentes graus e formas de manifestação. Assim, da matéria aparentemente inerte às plantas, dos animais aos seres humanos, o que varia não é a essência da Consciência, mas o grau em que ela pode se expressar e reconhecer a si mesma. No ser humano, essa expressão alcança uma forma particularmente complexa, permitindo não apenas perceber o mundo, mas também refletir sobre si próprio e inclusive reconhecer sua identidade relacionada com a Consciência Absoluta.
Importante dizer, no entando, que como somos a própria Consciência, vivenciamos esse fenômeno sempre "de dentro", o que torna difícil defini-la como definiríamos um objeto de estudo externo sendo observado. Podemos, entretanto, compreender melhor sua natureza distinguindo-a daquilo que ela não é. Pensamentos, emoções e sensações corporais não são a Consciência em si, pois tudo isso pode ser percebido e reconhecido. Isto posto, a Consciência também não se confunde com a mente. Nossa mente não é a fonte produtora da Consciência, mas um dos instrumentos através dos quais a Consciência absoluta (Caitanya) se expressa e experimenta a realidade de maneira individualizada.
Alexei Bueno
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