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CURTINDO...



Tive o privilégio de pertencer à geração de 64. Por um motivo talvez considerado fútil como alegação convincente, simples... porque foi esta a geração que começou a realizar na vida, de forma prática, o sentido pleno da palavra curtir.

É uma palavrinha aparentemente besta. Gíria antiga para os que viveram e vivem a partir dos anos 80. Para mim não é tão besta. Porque o seu significado, quando bem compreendido e vivido, nos traz nada menos que a felicidade na sua melhor forma.

Neste fim de semana fui passar o Natal com familiares no interior de São Paulo, o que representa nada menos que quatro horas e meia metida dentro de um carro, aguando lua ou chuva, o que for. Para alguns isto poderia parecer insuportável, mas não é... Garanto-lhes! Depende da ótica, depende do seu foco. Digo, porque vou curtindo a viagem! Uma arte preciosa que nesta era de pressa poucos apreciam, aprendem e aplicam.

Curtindo a viagem me deliciei com as paisagens. Quatro horas e meia de paisagens verdejantes - pastos, animais, colinas, serras distantes, céus diferentes, ar puro com cheirinho de mato... é uma terapia inigualável para as crias de cidade grande, todas empatuadas, que normalmente pensam que sabem o que é qualidade de vida por terem desaprendido com o passar das décadas o que é a sensação de liberdade, de plenitude, do se respirar ares puros a longos haustos!

Banho de descarrego! Sem erro, de fato o desfile ininterrupto das maravilhas da natureza pela janelinha do carro nos resgata o gosto pela vida melhor do que qualquer outra coisa. Mas vocês têm que saber curtir!

Curtindo a viagem pela janelinha do carro, parando aqui e ali para esticar as pernas e respirar, é incrivelmente fácil perceber a perfeição da Natureza ao nosso redor; o tanto que cada pedra e cada coisa é exata e indispensável no seu lugar. Cada árvore, cada folha do capim aveludado das colinas... Com uma daquelas árvores singelas a menos, com menos um detalhe do recorte da paisagem distante o quadro completo seria menos rico. É de fato fácil, curtindo assim uma viagem, se dar conta de que cada pedra tem a sua importância na completude de um panorama, no mosaico imenso da Criação.

Identidade. Completude. Integração. A sensação de plenitude e de realização. Invariavelmente, mergulhada nesses êxtases, a pergunta é o porquê de o ser humano ser o único em toda a criação que não se acha satisfeito com o que é. Alguns não querem o nariz, ou o cabelo, ou a altura, ou o carro comprado apenas há um ano. Alguns não gostam de ser brasileiros: o bom é ser sueco! Outros se acham gordos, outros magros, brancos demais, morenos demais; um milímetro de gordura a mais no abdômen tira o sono de incontáveis mulheres! Ou ainda há os que reparam no vizinho que fala muito ou que fala pouco, que tem um apartamento duplex enquanto a sua moradia é um dois quartos...

Como se não bastasse a insatisfação crônica consigo mesmo, ainda existe e insatisfação com o que o outro é! Mas - e vamos admitir com grandeza - desde quando isso é da nossa conta?

Perguntem-se do pandemônio que seria a vida se os colibris se pusessem a reclamar barulhentamente insatisfeitos com o seu tamanho, e os coqueiros da sua altura, e os cactos dos seus espinhos. Que inferno se as flores de um jardim se pusessem a reparar e resmungar ruidosamente da sua própria cor e formato, querendo ser algo diferente do que são... Imaginem o resto da Criação circundante, meus caros, fazendo o alarido que nós, o suposto ápice da evolução no mundo, costumamos promover em torno de nós mesmos e das nossas frustrações reveladoras de um tumulto existente em primeiro lugar no nosso íntimo irresignado das características exclusivas de nossas individualidades, e das diferenças que nos fazem únicos mas que, estranhamente, tanto nos incomodam, apesar de representarem, e isto sim, a magnificência rica da natureza humana!

E é curtindo uma simples viagem, caríssimos, que enxergamos essas realidades silenciosas, ou talvez que despercebidas na algaravia indisciplinada das nossa mentes - mas tão transparentes quanto as águas cristalinas de um regato paradisíaco! Realidades preciosas que nos ensinam a ser confiantes como os pássaros que, livres, cortam os céus em vôos graciosos, e serenos como as flores multicores das extensões vastas das planícies, dançando felizes ao sabor dos ventos, plenas na perfeição segura da Providência divina para com todas as coisas dos céus e da Terra...

Com amor,

Lucilla & amp. Caio Fábio Quinto

Texto revisado por Cris
Publicado dia 27/12/2007

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Autor: Christina Nunes   
Chris Mohammed (Christina Nunes) é escritora com doze romances espiritualistas publicados. Identificada de longa data com o Sufismo, abraçou o Islam, e hoje escreve em livre criação, sem o que define com humor como as tornozeleiras eletrônicas dos compromissos da carreira de uma escritora profissional. Também é musicista nas horas vagas.
E-mail: meridius@superig.com.br | Mais artigos.

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