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Dez anos de Sua Presença



Desde quando me lembro, sempre foi um camarada com quem eu me entendia. Da sua história, por ele mesmo contada, lembro-me de que recordava da sua infância no Nordeste do Brasil, cheias de peripécias incríveis típicas daquela região do país e da sociedade local. Recordava também, já na juventude, da sua permanência na Itália como combatente do Exército Brasileiro em praça de guerra. Histórias incríveis. E verdadeiras, pela emoção com que as contava.

Mas o que marca profundamente minha memória é a maneira com que, já na idade adulta, encarava a vida cotidiana e suas vicissitudes. Pura filosofia, puro amor à Criação e às criaturas sem que houvesse, às claras, um Criador identificável. Quase sempre em paz consigo mesmo, ensinou-me o significado disso sem dizer uma palavra sequer. Apenas sorrindo.

E ficava zangado com as maldades e injustiças humanas que, sendo em seu ambiente ou não, fazia seus olhos bondosos brilharem mais, suas ações tornarem-se mais incisivas, e seu comportamento tornava-se pró-ativo, diferentemente do usual estoicismo. Pode parecer contraditório, mas não é. Entendo dessa forma, pois sei que a ação é tão importante, ou mais, do que a contemplação, o sentimento e o pensamento. É somente por ela – ou a falta dela - que qualquer ensinamento ou aprendizado é mais efetivo.

Durante a maior parte de nossas vidas moramos em locais diferentes, longe um do outro, mas havia sempre uma identificação de pensamentos e sentimentos que, ao nos encontrarmos, eclodiam em desenvolvimentos da filosofia e de teses quase nunca ortodoxas. Era o máximo! Às vezes ríamos muito das “conclusões” advindas, prontas a resolver os problemas da Humanidade.

Lembro-me de um fato que marcou forte a minha memória: já idoso, em decorrência de uma série de problemas da saúde, acompanhei-o em uma das noites em que estava hospitalizado, pós-operado. Quando retornou ao quarto, onde já o aguardava bastante ansioso, semi-consciente em decorrência da anestesia, era objeto de atenção dos médicos e enfermeiros. No transbordo da maca da sala cirúrgica, um dos enfermeiros me solicitou ajuda para levantá-lo e assentá-lo no leito e, enquanto o enfermeiro dava a volta pela cama, eu mesmo o levantei e, suavemente, pousei-o em sua nova acomodação. Nesse pequeno instante de tempo em que o tive nos braços senti o quão frágil era aquela criatura, muito pequenino em meu colo, mais leve que meus filhos quando ainda crianças. Provavelmente ele também fizera isso comigo muitas vezes em sua vida, desde o meu nascimento, e o homem a quem reverenciava e respeitava, estava me transmitindo a sua última lição: "Assim como você foi, estou sendo e você será. Como fiz, você faz e fará. Nada começa e nem acaba. Tudo é."

Fazem dez anos que me deixou por aqui, no entanto não está ausente. Este é o meu pai!

Texto revisado por Cris
Publicado dia 29/8/2007

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