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Do fogo, dos relacionamentos e de Carlos Gardel



Dia desses, com a temperatura caindo, resolvi que era hora de acender a lareira de casa. Como moro num sítio, o clima aqui é bem mais frio do que nas grandes cidades e o encarregado oficial de controlar o aquecimento da casa é Luiz, meu marido. Bem, ele não estava... e eu, valente e esperançosa, pensei: "Claro que dou conta de acender uma simples lareira!"

Peguei um pouquinho de jornal, um copinho com álcool, fósforos e ajeitei a lenha. Olhei para o cenário que se construia e comecei a ficar feliz, pensando que esse sempre fôra o trabalho das mulheres nas tribos e também das mulheres inuit e também de todas as mulheres ancestrais. Naquele momento (e só naquele... vocês verão o motivo) eu revivia minha história de ser guardiã do fogo e repetia a jornada de toda uma civilização. Acontece que o fogo tem vida própria. Não é simples e nunca nos brinda rapidamente com sua presença, mesmo porque a lenha estava bem úmida.

Mais uma tentativa e lá se foi todo o meu jornal! No entanto, é lindo ver aquela chama azul, verde e roxa, provocada pela tinta das fotos... Uma beleza mesmo! Mas fogo, fogo, nada! Mudei de estratégia e pensei que se separasse mais a lenha, o ar poderia me ajudar. Daí, hipnotizada pelo meu afazer, comecei a relacionar o fogo e as parcerias afetivas... Vejamos: quando nos apaixonamos nossa lenha está "seca". É altamente inflamável, incendeia rapidamente e não há nada que possa detê-la. Daí, algum tempo depois, vamos ficando chateados, magoados, "úmidos" mesmo. Incendiar já é mais difícil.

Uma mudança de postura pode se fazer necessária: se deixarmos mais espaço entre nós mesmos e o outro, criamos um ajudante - o oxigênio - que no meu exemplo pode ser um novo ambiente, um círculo diferente de amigos, outros aprendizados. E enquanto pensava, uma coisa mágica aconteceu... "UAU! Pegou, o fogo pegou! Eu consegui. Sim! Eu consegui!" E dancei na frente da lareira e agradeci por ser mulher, por ser capaz e por ser filha de minha ancestralidade primal. "Não... mas o que houve?"

Bem, eu havia recorrido aos toquinhos e raspas de lenha para dar um incentivo a mais ao meu amigo fogo. Isso provocou uma chama bem bonita, que se apagou antes de aquecer os tocos maiores. Mais uma vez pensei que quando queremos resgatar um relacionamento, nos valemos de pequenas coisas, lembranças, agradinhos, nada muito profundo. Funciona na primeira meia-hora... depois, não. O que precisamos mesmo é de algo que lenta, mas consistentemente, incendeie, aqueça e seque. Precisamos olhar, ambos, para o mesmo objetivo, para o mesmo lugar. Devemos juntar o que sobrou, o que ainda arde. Necessitamos, sim, das lasquinhas, das lembranças para incentivar, mas bom mesmo é estrutura sólida e tempo e calma e fé.

Então, tomei uma atitude drástica: recomecei do zero. Juntei as mini-brasas no centro da lareira, arrumei as toras com bastante espaço entre elas, de maneira concêntrica, todas "olhando" para as pequeninas brasas. No meio disso tudo coloquei um algodão com um pouquinho de óleo e por cima disso, distribui as lasquinhas de madeira. Fósforo em punho, uma canção para encorajar, o peito cheio de esperança. No começo, a chama era tímida, quase invisível... foi tomando forma, deu a mão para as minúsculas brasas acesas e alimentou-se das lascas... Aos poucos secou as toras ao redor e depois de uns bons minutos, cumpria seu papel.

Minha lareira, finalmente, estava acesa. Não sei se o fogo me ajudou a pensar em relacionamentos ou se as questões filosófico-afetivas me fizeram acender uma lareira.
Isso pouco importa. Agradeço aos dois.

Quanto a Carlos Gardel... bem, fica para a próxima frente fria!!!

Um beijo a todos vocês.

Allexandra Sanches

Texto revisado por Cris
Publicado dia 4/6/2007

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