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Enquanto a morte não chega o que faço da vida?

Enquanto a morte não chega o que faço da vida?

por Elaine Leal Carvalho

Pensar, falar, escrever, comentar, olhar a morte, ainda é algo incômodo para todos nós ou quase todos.
Mesmo sabendo que é uma certeza incontestável, ainda assim, nos recusamos a encarar este assunto.
Em outras culturas, a morte é vista e sentida de modos diferentes.

Na minha compreensão, estes diferentes pontos de vista estão relacionados com as religiões e também com as compreensões que se tem do fato.
A morte é justificada de diferentes pontos de vista e serventia.
Talvez para estancar a dor que sentimos ao percebermos que todos nós, sem exceção, vamos morrer.
Morte tem ligação com o fim.
Fim da vida, fim de um ciclo, fim.

Quem já acompanhou ou viu alguém próximo caminhar em direção à morte, sabe do que se trata este fim.
Quem ainda não passou por isso, ainda não sabe. Pode ser que entenda, mas não sabe.
Assim como quem esteve tão próximo de morrer sabe, os que não estiveram não sabem.

Podem ter uma ideia, mas não sabem.
Para além de todas as teorias, experiências, vivências, livros, religiões, opiniões, certezas absolutas, já imaginei a morte de muitas formas.
Talvez uma “mulher elegante de expressão suave” que nos toma pela mão e nos leva a outro lugar.
Talvez um “homem de aparência séria, calado“ que sem dizer uma palavra nos conduz em direção a alguma nuvem no céu.

Quando reflito sobre o momento da minha morte tenho a sensação de que a morte tem algo de feminino. Não sei por que.
O fato é que a morte caminha lado a lado com a vida.

V i d a M o r t e
Enquanto a morte não chega o que faço da vida?
Resposta difícil. Atualmente percebo que vivo.
Vivo o que me é possível viver.
Daqui a pouco a minha morte pode chegar bater na porta e dizer:
Vamos!
Sempre lembrando que nem sempre vai bater na porta. Vai entrar e me levar.

Refletir sobre a morte dos outros remexe tantas coisas no peito, mas refletir sobre a própria morte é um enorme alvoroço interno.
Respeito a morte.
Ela é poderosa. Traz consigo uma bagagem que chega a ser impossível não abrir.

A morte nos mostra a dimensão do finito. Da pequenez diante do irremediável.

Às vezes pode ser prorrogada, mas evitada... certamente, não.

Tem seu fascínio.

Diante da morte, muitos de nós percebem a urgência de olhar para a sua própria vida.

Nos últimos dias de vida de um grande amigo, ao visitá-lo no hospital para ocultamente me despedir dele, pois fui avisada que seu fim estava bem próximo, no meio da conversa, ele me disse:

- Será que tem realmente alguma coisa depois da morte?

Eu respondi:

- Não sei. Dizem que tem.

Ele segurou minha mão e disse:

- Não perca seu tempo com mágoas e picuinhas. Resolva estas coisas antes de morrer.

Olhamos um para o outro por um tempo e, no meio das lágrimas, surgiu uma grande gargalhada.
Foi assim que nos despedimos.
Uma semana depois ele morreu.

Não pude gargalhar na ocasião da morte do meu irmão mais velho, assim como não pude gargalhar na morte do meu pai.
Estas duas mortes foram anteriores à morte do meu amigo.
A morte visitou minha família inesperadamente.
Com a morte temos a oportunidade de destrinchar nossos relacionamentos.

Elaine Carvalho – Terapeuta

CRTH - 2485


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Autor: Elaine Leal Carvalho   
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Atualizado em 29/06/2019

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