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Escravos dum mesmo Amo


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Umha das caraterísticas humanas de mais peso na nossa vida é a nossa capacidade pra criar realidades puramente mentais, e através delas criar relações persoais e mesmo inteiras sociedades humanas. Tal como explica Yuval Noah Harari no seu magnífico livro «Sapiens: A brief History of Humankind», é através desta capacidade tam peculiar que somos quem de manter a economia do dinheiro, que se baseia numha crença e confiança partilhada no futuro valor das cousas (algo puramente mental), ou que nos organizamos em nações e religiões, segundo certas ideias e crenças (criações da mente) numha origem, língua, cultura, religiom ou destino comum. Mesmo quando falamos dumha grande empresa multinacional, ela existe só porque as persoas acreditam na ideia dessa empresa e nas ideias da ideologia capitalista. Ele-onde está «Peugeot»?, por exemplo, pergunta inquisitivo Harari.

Mas o problema é quando passamos a nos identificar intensamente coas ideias e as ideologias (conjuntos de ideias) e mais construimos a nossa vida à volta delas. Ocorre isto coas religiões fundamentalistas, cos nacionalismos, mesmo co capitalismo e a doutrina do «livre mercado». E nom só: todos nós costumamos nos identificar intensamente coas ideias de «verdade», «lógica» ou «razom», e nom raro cuidamos, ou queremos cuidar, que elas nos guiam. De facto, a tradiçom ocidental, em que todos bebemos mesmo que nom nos decatemos, baseia-se nessas ideias ou princípios. Da mesma maneira, os fundamentalistas islâmicos seguem com semelhante rigidez os princípios, ou valores absolutos, em que a sua fé se baseia.

Mas tanto a «verdade» como a a «omnisciência» dum só Deus, som realidades puramente mentais, isto é, criações da mente. Elas nom existem fora dela, só existem na nossa mente o ou na de Mohamed. Mesmo a ideia da «justiça», quer a ditada pola razom quer a ditada por Deus ou Allah, é umha criaçom da mente, e nom um valor absoluto; porque, ele-onde está a justiça em condenarmos umha certa política do nosso governo ao mesmo tempo que trabalhamos, em troca dum ordenado, polo sistema que o suporta? Onde está a justiça em matarmos inúmeros insetos quando caminhamos sem cuidado por um parque? Onde está a justiça quando cortamos a vida de inúmeros animais ou vegetais pra comer mais do necessário? A justiça só aparece, como a ideia que é, quando percebemos um dano desnecessário infligido a nós próprios ou a um ser com que empatizamos. Mas porque haveremos empatizar cumha persoa, cum cam, e nom cumha formiga ou cumha leituga? Ele-nom som seres vivos coma nós, que vinhérom a este mundo pra viver, sem terem de sofrer a morte ao chou polo nosso desleixo? É mais justo comprar no supermercado uns tomates que fôrom recolheitos por maos semi-escravas, mas num sistema biológico de agricultura, do que uns tomates que fôrom tratados com fertilizantes químicos e outros poluentes, mas por mao de obra bem paga e bem tratada? Afinal, tudo depende do ponto de vista (da nossa mente) com que abordemos as questões, e do nível de empatia com outros seres (e por tanto de consciência) que tenhamos.

Voltando à ideia da «verdade», quando dizemos que a asseveraçom «o sol nasce no leste» é umha verdade, estamos apenas a apontar prò dedo que aponta prà lua (ou o sol, neste caso). O sol nasce da banda que nós chamamos leste, só porque nós vivenciamos umha realidade tri-dimensional, mas nom sabemos como seria se vivêssemos numha realidade multi-dimensional, que segundo as recentes achegas da física existe. Por tanto, só quando pensamos dacorde co nosso vivênciar tridimensional é que podemos dizer que o sol nasce no Leste, mas pra isso dizer temos que pensá-lo primeiro, e só quando pensamos nisso é que é «verdade», a nossa verdade tridimensional: pura criaçom mental.

Emporisso, da mesma maneira que um fundamentalista islâmico, doutrinado desde neno na «verdade» do Islam (conjunto de ideias), nom dá compreendido que a vida poida se reger por outros princípios diferentes dos do Islam, os grandes pensadores da nossa tradiçom ocidental, coma Sócrates, Platom, Descartes ou mesmo um cientista coma Richard Dawkins, nom dam compreendido que a vida, a própria existência, poida se reger por outros princípios que nom sejam a «verdade», a «razom» ou a «lógica». Ou seja, o que Descartes dixo, «cogito ergo sum» (cuido, já que logo, existo) é umha contradiçom, porque nega a própria existência ao reduzi-la ao simples processo mental do pensamento.

As filosofias orientais, coma as budistas, testemumham desta contradiçom, desta miragem do pensamento, algo que só somos quem de compreender quando crebamos o engado do pensamento, da nossa mente tagarela. E nom só: as tribos aborígenes, aquelas que vivem numha fase anterior à «civilizada», vivenciam dumha maneira diferente à nossa, sem que o pensamento intensivo ou hiper-atividade cerebral os domine. Nesse sentido, som mais sábios ca um qualquer cientista ocidental, com tódolos seus saberes e técnicas sofisticadas.

Mas quando entramos no mundo das ideias, tudo é possível, a nossa mente é capaz de argalhar o que for, artelhando umha estrutura sólida e perfeita. É essa capacidade mental, segundo explica Harari, que permitiu aos seres humanos desenvolver inúmeros instrumentos da nossa civilizaçom, coma o dinheiro, o crédito, o capitalismo, o comunismo, as leis, a filosofia, as nacionalidades, as línguas … que som costrutos mentais que porém UNEM (mesmo que seja no domínio da mente) persoas que nunca se relacionam entre si a nível persoal. A fase tribal do ser humano ficou ultrapassada …

Nesta altura, convém apontar a um processo histórico-ecológico mui recente (em termos da idade do ser humano) que, segundo o psicologista transpersoal Steve Taylor, que segue a tese do biofísico e antropologista James DeMeo, fixo com que a mente tagarela tomasse conta de nós, de modo a fazer de nós humanos umha raça de explotadores e despiadados homínedeos, mesmo com nós próprios. Foi um trauma ecológico, um processo de seca no norte da África e no Médio Oriente, há uns 5 000 anos, que crebou as sociedades humanas daquela, levando-as a loitar miseravelmente polos poucos recursos que restavam. Até essa altura, as sociedades humanas, mesmo já sedentarizadas e «neolíticas», mantinham ainda um modo de vida harmonioso e cooperativo. Mas é a partir daí, dessa mudança climâtica e catástrofe ecológica, que a mente tagarela, acirrada polo medo e a angústia dumha vida duríssima, tomou conta de nós, e passou a ser a forma dominante da psique do ser humano moderno. O asovalhamento das mulheres e das crianças, as guerras e a obsessom coa posse e coa morte, o dogmatismo religioso começam aí, como explica Steve Taylor no seu livro «Back to Sanity» (traduzido ao galego, sob o título «De volta à saúde», por quem isto escreve). É, portanto, um processo recente, mas co tempo ele deu lugar nom so às piores quanto às milhores cousas do home moderno, porque a atividade mental foi atingindo um desenvolvimento enorme, espoletando o desenvolvimento tecnológico e retroalimentando-se com ele. Assi, grandes realizações da humanidade, como os computadores, os foguetes espaciais, as pirâmides do Egipto e as suas matemáticas, a filosofia de Kant ou as músicas de Beethoven, ombream coas grandes vilezas, tal coma as guerras e destruições da vida natural que levamos a cabo de contino, ou os abusos entre nós humanos.

E o que tenhem em comum estas duas faces (a sublime e a perversa) da vida e das criações humanas, é o predomínio da psique mental-egoica, do domínio do pensamento nas nossas vidas.

Estamos prestes a matar pola verdade, aliás a morrer por ela, ou mesmo a passar horas intermináveis em diante dum ecrám de computador na defesa das nossas «verdades», que pra nós som absolutas e som tudo o que precisamos pra um mundo melhor, e COMO DEVE SER. E enquanto os outros nom virem as verdades que nós defendemos, seja a de ALLAH (fundamentalistas muçulmanos) ou a da CIÊNCIA e a RAZOM (Richard Dawkins), haveremos a continuar a defendê-las, e a considerarmos como INFERIOR quem nom as compreender e seguir. Mas a mente egoica é mui aleuta, ela auto-alimenta-se, desloca-se coma um parasita de mente pra mente, unindo-nos numha loucura mental partilhada. ELA TEM-NOS ESCRAVIZADO. 

Chegados a este ponto, umha vez que nos temos identificado intensamente cos nossos pensamentos, que criam umha imagem mental de nós próprios, que som o princípio do nosso viver, umha vez que começamos a ver aqueles que nom entendem os nossos princípios coma seres inferiores, inicia-se o processo de DESHUMANIZAÇOM dos outros: sentimo-nos coma umha entidade separada de eles, e nom coma as ilhas dum mesmo arquipélago (que é umha unidade litosfêrica). Perdemos empatia com eles, e o passo seguinte é, inevitavelmente, começarmos a rifar, a loitar, a impor, escravizar, torturar, matar.

Por isso, quando qualquer um de nós se implica em qualquer discussom política, sobretudo quando os nossos antagonistas som os defensores do perverso (mais umha outra ideia!), sejam os do golpe de estado no Brasil ou os das invasões e destruições doutros países, coma o Iraque ou a Síria, nom nos apercebemos de que estamos a seguir o mesmo padrom de comportamento ca os criminais. Ou seja, o padrom dirigido pola mente egoica, que nos fai identificar cos nossos pensamentos e assi nos isola dos outros, e que devece por posses materiais ou inteletuais. Por conseguinte, só estamos a sustentar a realidade que vivemos, incluindo aquilo que dela odiamos.

Velaí a «verdade» dos nossos problemas, segundo as minhas próprias ideias. Mas se nom gostardes … tenho outras.


Glossário galego-português:

aleuta = esperta, manhosa

argalhar = conceber algo pouco honesto

artelhar = unir, arquitetar

asseveraçom = asseveração

assi = assim

assovalhamento = avassalamento, dominação, maltrato

mais ca = mais do que

cam = cão

ao chou = ao acaso

civilizaçom = civilização

de contino = continuamente

contradiçom = contradição

co = com o

cos = com os

coas = com as

coma nós = como nós

cousa = coisa

crebar = quebrar

criaçom = criação

cuidar = pensar, julgar

daquela = naquela altura, naquele tempo

nom dá compreendido = não consegue compreender

(nom nos) decatamos = (não nos) apercebemos

devecer =desejar com muita força

dixo = disse

dumha = de uma

emporisso = todavia, contudo

fai = faz

fixo = fez

fôrom = foram

haveremos a continuar a defendê-las = continuaremos a defendê-las

haveremos empatizar = haveremos de empatizar

(cuido), já que logo, (existo) = (penso), portanto (existo)

leituga = alface

e mais = e também / e de resto / e ainda

mao = mão

milhores = melhores

mui = muito (desde)

neno = (desde) criança

numha = em uma

obsessom = obsessão

padrom = padrão

persoal = pessoal

poida = possa

pola, polo = pela, pelo

(somos) quem de = (somos) capazes de

razom = razão

recolheitos = recolhidos

religiom = religião

rifar = brigar

tenhem = têm

tódolos = todos os

tradiçom = tradição

umha = uma

velaí = eis

vinhêrom = vieram


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Conteúdo desenvolvido por: Xavier Andre   
Produtos: “De volta à saúde“, traduçom do livro do psicologista transpersoal, Steve Taylor, “Back to sanity“.
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