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GERANDO VIDAS



A relação heterossexual que se estabelece entre um casal na consolidação de uma relação amorosa estável foi vista durante muitos séculos como tendo por único objetivo a reprodução de novas vidas humanas. Sobre esta suposição chegou-se até mesmo a condenar as relações sexuais que não se estabeleciam com este propósito.

Hoje, mais livres da repressão religiosa e dos preconceitos gerados pela culpa, sabemos que a sexualidade é uma atributo da vida humana, fundamentada na expressão de um instinto de vida – a libido, conforme designou Sigmund Freud. É nessa força que a humanidade construiu toda uma civilização, não apenas na multiplicação da espécie, mas, sobretudo, na motivação do progresso com que busca situações mais aprazíveis para existir.

Dessa forma, o instinto sexual também impulsiona todas as iniciativas que têm marcado a ação do homem sobre o planeta, sempre criando e recriando, transformando e aprimorando melhores formas para se viver. Com isso podemos entender que a relação sexual, sustentada em um sentimento que a justifique, produz novos campos de energia para o casal que nela convive.

Erich Fromm, em seu livro “A arte de amar”, afirma que existem dois pilares capazes de expressar a qualidade de uma relação conjugal: a capacidade de discutir profundamente a relação e a vitalidade das partes. Tal vitalidade será conseqüência do campo energético sexual que se estabelece na relação, sendo criado pelas partes, mas capaz, em contrapartida, de alimentá-las.

É interessante que o próprio Freud afirmou que a energia sexual seria capaz de sublimar-se, gerando outras formas que não somente as físicas, como também as formas artísticas, religiosas ou assistencialistas. Dentro desse conceito, a vivência da sexualidade ganha novas perspectivas, demonstrando-se seus aspectos criativos para além daquilo que se imaginava.

Contudo, gostaria de chamar a atenção dentro dessa reflexão para o fato de que existe uma outra forma de vida que se estabelece a partir da conjugação de uma relação sexual com base afetiva estável. É que na medida em que as partes aceitam a reciprocidade da relação, confiando-se a um regime de fidelidade em que se cria o campo energético conjugal, essas partes também deixam de ser um pouco o que eram para renascerem dentro de uma entrega participativa em que cada um deverá abrir mão de um pouco de si mesmo para exercer o cuidado com o outro. Assim, quero dizer que o homem e a mulher deixam de ser apenas individualidades para tornarem-se individualidades comprometidas com outra individualidade, convergindo em um sistema conjugal de energias que deverá fazer deles pessoas diferentes do que antes, já que acrescidas do próprio sistema que compõem.

Na construção desses pensamentos proponho legitimar o antigo conceito de que a relação conjugal exige doação e comprometimento entre o casal e que nisso, parte da individualidade se perde na composição do conjunto. Sem tal percepção penso que a união estará fadada ao fracasso. Não que isso imponha uma total anulação de cada um, mas apenas que se abra espaços de atenção para o desenvolvimento da vivência conjunta.
Entretanto, como afirmei acima, que não se pense estar perdendo um pouco de vida, mas ganhando-se no surgimento de uma nova expressão dessa mesma vida, calcada no somatório das partes.

Quando observamos o quanto o sistema sócio-econômico vigente tem privilegiado o gozo da individualidade em detrimento da felicidade da troca afetiva podemos entender o fracasso do casamento – entendido como relação estável – nos tempos modernos. Não se percebe que na preservação dessa individualidade egoísta se perde algo maior do que si mesmo que é a vivência do conjunto. Nessa fragilidade, certamente, muitas das patologias mentais atuais têm-se construído.

João Carvalho Neto
Psicanalista, autor do livro “Psicanálise da alma”.
www.joaocarvalho.com.br

Texto revisado por Cris
Publicado dia 13/11/2007

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Autor: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Mestre em Psicanálise, autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção”, autor da tese “Estruturação palingenésica das neuroses”, autor do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal
E-mail: joaoneto@joaocarvalho.com.br | Mais artigos.

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