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Lágrimas de mulher



Não me pergunte, moço, o que são essas lágrimas: são pérolas da vida. São cantigas de roda, o vento do balanço, o abraço do pai e da mãe, as brigas com irmãos, a aventura de aprender a ler, as madrugadas, com os olhos ardendo, mergulhados em M.Delly, Saint Exupéry, Thomas Merton, Maupassant, Graham Green e tantos outros. São as músicas e os beijos perdidos no passado. São estradas em que não voltarei a caminhar.

Estas lágrimas, moço, cada uma delas é um ser querido que foi morar nas estrelas e, por isso, quando olho o céu, em busca deles, elas escorrem, bobamente, por minha face.

Estas lágrimas são o deslumbramento da vida, o encanto do amor, o conforto da fé, o toque de Deus. São a gratidão pelos amigos, pelo ombro companheiro, pela mão do filho pequeno e, depois, dos netos em minha mão.

Estas lágrimas são as serenatas ao pé das janelas, a cadeira na porta a prosear sem preocupação. São os momentos dançando, agarradinhos, no clube da cidade. São perfumes dentro da noite que não encontro mais.

Ah, moço, se você soubesse só um pouquinho da vida não me perguntaria pelas minhas lágrimas. Você ainda não viveu...

Hoje, meus cabelos se tingem de prata e vincos se apresentam em minha face. Minhas mãos, antes tão lindas, agora começam a se pintar, meus dedos estão nodosos e as articulações queimam no inverno. Sabe o que é isso? Marcas da Vida.

Sabe, moço, eu também choro por aqueles que não chegaram a ter a graça de viver. Por tanta gente jovem morrendo em guerras estúpidas. Pelos homens que se vendem e mancham a pureza da infância e da adolescência. Por aqueles que têm os olhos vidrados, espantados diante da maldade humana. Por mães que choram sem ter o alimento para seus filhos. Por aqueles que tentam fugir de si mesmos e vêem sua alma escancarada pela frente a lhes mostrar o horror de si mesmos. Eu choro por todos aqueles que não sabem chorar...

Estas lágrimas, moço, são a alegria e a estupidez da vida. São a beleza do planeta que, lentamente, vai morrendo pela ganância, displicência e egoísmo de tantos. São a dor de um futuro incerto para meus filhos e meus netos e os filhos e os netos de todos os homens, meus irmãos.

Não pergunte, moço, por favor, porque eu choro. Choro por ser humana e mulher. Todas estas lágrimas, seu moço, são colhidas por Deus que, depois, as transforma na esperança que vai regar a terra.

Maria Luiza Silveira Teles

Texto revisado por Cris
Publicado dia 18/8/2007

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Autor: Maria Luiza Silveira Teles   
Fui professora de Inglês e, depois, professora universitária de Psicologia e Sociologia. Tenho 29 obras publicadas pelas editoras Vozes, Brasiliense e Parêntese. Hoje, trabalho como professora-visitante por todo o Brasil, sou consultora pedagógica e editorial e faça Reiki nas pessoas necessitadas que me chamam.
E-mail: marialuiza60teles@yahoo.com.br | Mais artigos.

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