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MENTE GRUPAL

Atualizado dia 5/11/2006 11:58:16 AM em Autoconhecimento
por João Carvalho Neto


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Uma questão bastante interessante quanto à compreensão do ser humano é a observação do seu comportamento quando inserido em um grupo. Certamente – e não precisaríamos de nenhum estudo mais aprofundado – podemos perceber o quanto existe de modificações das atitudes individuais para aquelas que se produzem em coletivo. Isso demonstra que, por mais que sejam diferentes os modos de pensar e agir, ao se reunirem, os homens formam uma mente grupal, com características próprias e, até certo ponto, independentes das apresentadas conscientemente pelas partes que a compõem. O que definirá o momento em que um grupo se estabelece é o surgimento de laços afetivos entre seus participantes, sustentados por um líder, por um ideal comum ou por ambos.

O principal ganho de se fazer parte de um grupo é a proteção que ele confere aos seus membros, uma necessidade primordial humana. Contudo, em nome da manutenção desse estado, seus membros abrem mão de uma parte de suas individualidades, isso significando que deixam de exercer livremente seus pensamentos e sua razão. Mas, como o laço afetivo é o elemento mantenedor do grupo, as emoções permanecem intactas no seu exercício.

Vejamos que é justamente através do pensamento que se realiza o processo de elaboração secundária, capaz de exercer censura e controle sobre as pulsões inconscientes que, sem ele, se manifestariam em desejos incontroláveis de obtenção de prazer. Ora, se dissemos que no grupo a capacidade do pensamento individual fica limitada, logicamente a tendência à manifestação dos impulsos mais primitivos inconscientes fica mais liberada. Por isso, vemos atos de vandalismo de todo tipo serem praticados por grupos, cujos indivíduos não os fariam sozinhos; a personalidade consciente tende a desaparecer para a predominância da personalidade inconsciente que pode se esconder no conjunto do todo.

Outra questão relevante é a maior sugestionabilidade entre as partes. A mente grupal tem um poder de sugestão que não deve ser negligenciado, fortalecendo o conjunto e podendo operar realizações tidas como improváveis. Vitórias surpreendentes em batalhas ou em jogos desportivos são um bom exemplo dessa realidade. Isso acontece pelo fato de, ao aceitar a sugestão do grupo, cada um de seus componentes garante a proteção, pela submissão, do que necessita, e perder a proteção pode significar tanto quanto perder a vida. Mas principalmente porque existe um real intercâmbio de intenções, com a “gravitação” de idéias corporificadas na mente grupal que se projetam para as mentes individuais: as conhecidas egrégoras da filosofia oriental.

Coisa parecida acontece com os cardumes de peixes que se locomovem com mudanças repentinas de direção sem que nenhum peixe deixe de obedecer ao comando central. Com os bandos de aves o mesmo se repete. Na verdade, existe uma mente coletiva em ação, primária na sua organização, mas que nos pode servir para o entendimento das organizações humanas.

Entretanto, para que o grupo exista, foi preciso haver uma ligação afetiva entre seus membros e isso somente acontece através de uma ligação afetiva anterior que tenha se estabelecido com um objeto comum. Através do amor a esse objeto comum, todos passam a amar-se reciprocamente, tornando-se como irmãos diante de uma “paternidade” simbólica que todos aceitam. Tal objeto “paternal” comum pode ser um líder ou um ideal, ou ainda, muitas vezes os dois simultaneamente. O líder e o ideal passam a exercer a função da personalidade consciente individual que se enfraqueceu, tornando-se eles mesmos a personalidade do grupo que a ela se entrega.

Disso podemos deduzir que os grupos tendem a não obedecer uma lógica racional mas meramente passional, ficando à mercê das tendências do líder ou do ideal que abraçam. Percebam o perigo dessa situação, tão comum em nossa sociedade, estando presente em movimentos religiosos como na criminalidade, em pelotões de soldados como em reuniões de jovens. Ilusões, falsas premissas, mentiras tendenciosas são tomadas como verdades absolutas pelas quais se dá a vida, se necessário.

Em particular, gostaria de ressaltar a importância destes aspectos da formação de grupos para o entendimento do comportamento dos jovens, porque são exatamente estas vivências que observamos nas suas relações sociais. O jovem, ao ser impelido pela idade a deixar a proteção do lar para lidar mais sozinho com a realidade da vida, vai buscar no grupo a compensação do que se viu privado. Isso pode nos levar a compreender as dificuldades que têm para se liberarem das influências diretas e indiretas do grupo, a fim de atenderam às determinações parentais. Seus pensamentos e atitudes não correspondem à lógica que marca o pensamento e a atitude de seus pais. E, insisto em esclarecer, não é apenas uma questão de época ou modismos; é principalmente pelo fato de suas intenções estarem muito mais direcionadas pelas pulsões inconscientes e primárias do que pela razão.

João Carvalho Neto
Psicanalista, autor do livro "Psicanálise da alma"
www.joaocarvalho.com.br

Texto revisado por Cris

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Conteúdo desenvolvido por: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Astrólogo, Mestre em Psicanálise, autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção”, autor da tese “Estruturação palingenésica das neuroses”, do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal"
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