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MEU SANTO GRAAL



Amigo,
Era uma vez uma bucólica cidadezinha escondida entre as montanhas, por onde serpenteava um rio que se chamava Rio das Antas.
Ela permaneceu isolada e esquecida, por muitas décadas.
Todos diziam que por isso era atrasada e rude, mas apesar disso guardou e protegeu um tesouro, uma tradição que se manteve íntegra e intocada e que nutriu o coração de todos que nasceram e viveram naquele lugar.

Assim, conservou-se secretamente bela, mesmo que inculta para almas menos sensíveis e olhos menos atentos incapazes de perceber seu encanto e magia.
Foi lá que nasceu uma menina que aprendeu a ler no livro de sua natureza simples as mais importantes e imprescindíveis lições de sua vida.

Crescendo entre os montes, vinhedos perfumados, vaga-lumes, borboletas e beija-flores, gozou a liberdade de banhar-se nos riachos refrescantes, em cascatas que se vestiam de noiva deslizando alegres e rumorejantes pelos penhascos íngremes, de beber água fresca nas pequenas e incontáveis fontes e secar o corpo deitada na maciez verde da relva sentindo a carícia da brisa e o abraço tépido do sol.
Viveu a alegria de colher flores nas encostas dos caminhos, catar pedras brilhantes e caminhar à noite sob a luz da lua e da via-láctea deliciando-se com a orquestra dos grilos, dos sapos-martelos e das rãs nos banhados.
Aprendeu com sua gente simples as canções das vindimas, as cantigas das semeaduras e das colheitas. A canção da Vida. Feita de alegrias e sofrimentos.
Sem distinção.
E, tudo ficou registrado na sua memória afetiva. Indelével.

Sustentou-a na sua partida e na longa separação, mas, principalmente, no cotidiano andar em busca do pão nosso de cada dia, onde os sólidos valores e princípios recebidos regraram a jornada.
E a fonte encantada da antiga e austera casa de madeira diante da pracinha principal que tantas histórias românticas e fantásticas inspirou e nutriu na alma ingênua e pura da menina que as contemplava e ouvia no cantarolar da água cristalina que se espargia do chafariz singelo contra o céu azul anil, permanece nobre e digna a seduzir com sua magia, todos aqueles que tiverem sensibilidade para perceber sua beleza ali, toda coberta de musgos, com pequenas flores se debruçando lânguidas e suaves nas sua bordas úmidas e acolhedoras.

Se tiverem sorte, como eu, poderão desfrutar do espetáculo indescritível que é ver o sol e a paisagem brincando e banhando-se felizes, refletidos em sua água límpida.
Sempre que retorno à minha aldeia, sento-me saudosa com minha fonte encantada e conversamos longamente.

Ouço, enlevada, as histórias que na minha ausência guardou, paciente, para me contar.
E, eu vibro de felicidade e emoção a cada reencontro, vendo-a ali tão delicada e bela, atenta às conversas dos casarões antigos, cúmplices confabulando e, que resistem ao tempo preservando as lembranças mais puras.
Meu Santo Graal! Que me alimenta o espírito.
Taça divina, onde sacio minha sede de amor, beleza e verdade e de quem me despeço, partindo purificada e liberta.
Volto sempre refletindo seu frescor, sua luz delicada e ímpar, com o coração leve e a alma lavada na água santa que brota do chão sagrado da minha terra, que me dá a força de ser quem sou e que me faz cantar sem esperar aplausos, mas simplesmente porque me ensinou que tenho em mim uma canção para cantar.

Para que eu pudesse senti-la mais próxima ainda, nesse último encontro, pedi a ela que me deixasse fotografá-la. Um pouco ruborizada, tímida no começo, depois resplandeceu em toda sua beleza antiga e única.

Com meu carinho, para o teu coração capaz de ouvir fontes e de entender estrelas.

ILUSTRAÇÃO: MEU SANTO GRAAL - Claudette Grazziotin
Fotografia da fonte entre casas tombadas
(Patrimônio Histórico Nacional) Antonio Prado, RS, Brasil

Texto revisado por: Cris
Publicado dia 25/4/2007

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