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Na Penumbra da Cripta - II



Os antigos mistérios que davam iniciações sempre se realizavam em “lugar escuro” do qual a cripta, suporte do Templo, é a representação mais perfeita. Pode-se assinalar que no livro do Gênesis os enterros importantes, tais como o de Adão, Sarah, Abrahão, Jacob, etc., se realizaram nas cavernas. Como não estar convencido disso por essas palavras do profeta Isaías: “Eu te darei os tesouros da escuridão e as riquezas escondidas em um lugar secreto para que tu saibas que eu sou o Eterno.” Is. 45,3. As riquezas de que se fala não podem ser outras que a pura potência não manifestada, portanto não compreensível diretamente pela inteligência humana. A escuridão é a fonte da Luz Sem Limites. O abismo, que é o lugar secreto designado nesse versículo, é com freqüência chamado “água profunda”. É a água profunda incluída no próprio nome de Myriam, nome original de Nossa Senhora cujo nome começa e termina pela letra hebraica Mem, símbolo das águas primordiais, as maïm. Por sua dupla presença em seu nome ela significa a reunião das águas superiores e das águas inferiores separadas no primeiro capítulo do Gênesis.

As lendas falam das Virgens Negras como “Virgens encontradas” (tronco de uma árvore, mata de espinhos, subsolo). Essas “Virgens encontradas” o são sempre em um lugar natural onde estão escondidas desde tempos desconhecidos. Podemos ver através das lendas como elas não aceitam ser desalojadas, voltando sempre ao lugar de origem.

Esse lugar constitui de alguma maneira um centro. É esse lugar central o ponto tão particular onde se devem tradicionalmente ancorar-se as coisas, os seres e os acontecimentos. Um lugar tal não poderia ser único. Se, para o pensamento tradicional existe um centro primordial, desse centro emanam centros secundários que têm vocação de permitir uma transmissão. Esses centros tradicionais são de ordem espiritual, mas se conformam, se ancoram nos lugares materiais. Desde sempre essa foi uma das funções reconhecidas da cripta. É uma imagem da natureza e está enterrada na mãe terra. Seu enterro no seio da terra fecunda faz dela um lugar privilegiado de renascimento. Na escuridão da cripta nos situamos na fronteira do mundo dos vivos e do mundo dos mortos, na fronteira do conhecido e do desconhecido. Quem não percebeu a atmosfera particular que reina em uma cripta, por pouco que se tenha deixado levar detendo todo pensamento parasita, quem não sentiu a paz que emana desse lugar? Porque nos monastérios como de São João de Benoit sobre o Loire, para não citar mais que um, as vésperas e as missas dos monges se desenvolvem na cripta? Não é necessário considerar isso como uma supervivência ou uma transposição dos mistérios antigos, senão como uma necessidade ontológica.

A Virgem Negra se mantém entre um e outro mundo, o de acima e o de abaixo. Por vezes ela foi inclusive chamada de Nossa Senhora da Boa Morte (Clemont-Ferrand, Billom), independentemente da lenda que relata seu descobrimento. Ela está situada ali para incitar o homem a situar-se no centro e provocar um renascimento, um novo nascimento que possa permitir ao que reza deixar seu lixo mental. O peregrino se situa num ponto de equilíbrio de sua existência espiritual. Está sobre uma verdadeira linha fronteiriça entre o que era e o que pode vir. A Virgem Negra está ela própria situada em um lugar da divisa, em uma fronteira; ela reune tudo aquilo que pode e deve ajudar a vasculhar, à realização de uma metanoia. Nas cerimônias dos mistérios antigos, a busca iniciática conduzia para o renascimento espiritual e essa busca era a única que dava acesso aos Mistérios. O pedido dirigido à Mãe negra condensava toda a esperança do postulante. A Virgem Negra, a continuação da grande deusa, condensa isso em um nível completamente diferente. Ela nos exorta a engendrar o homem, o homem novo que recapitula o passado e abre o futuro verdadeiro, esse futuro que deve se situar no mundo estando por sua vez completamente fora do mundo. Está aí uma das formas do segundo nascimento.

A penumbra da cripta tem sua função própria. Não sendo nem completamente luz, nem completamente escuridão, é ela a imagem de um ponto de passagem, de uma porta. Essa penumbra nos obriga, para compreender porque ela era estimada como necessária, a voltar sobre o papel das sombras evocadoras da cor negra. Ela é de alguma maneira, uma figuração materializada da via eleita.

A via mariana, porque é totalmente dela o que aqui se trata, é considerada como uma via iniciática direta comportando uma verdadeira transmissão. Recordemos que iniciação: “deriva do latim initium e que essa palavra significa propriamente entrada e começo de uma nova existência no transcurso da qual serão desenvolvidas as possibilidades de outra ordem que aquelas a que está estritamente atada a vida de um homem comum; e a iniciação assim entendida em seu sentido mais estrito e mais preciso, não é em realidade nada mais que a transmissão inicial da influência espiritual em estado de germem”. René Guenon, "Iniciação e Realização Espiritual".

Assim, tradicionalmente, toda mudança de estado, e é isso que realiza uma iniciação efetiva, se considera que só pode se realizar na escuridão. Os mais antigos mistérios, pelo que chegou até nós, nos provam. O candidato à iniciação deve passar pela escuridão antes de ascender à luz, não à luz do mundo que não é mais que glória efêmera, senão à luz verdadeira que só o coração é sucetível de perceber. É nessa fase de escuridão que se pode efetuar “uma espécie de recapitulação dos estados antecedentes, pelo qual as possibilidades que se relacionam com o estado profano serão definitivamente esgotados com o fim de que possam se desenvolver livremente as possibilidades de uma ordem superior que o (o candidato à iniciação) leva em si mesmo”. Ibid.

Dirigindo-se à cripta, o peregrino penetra no nível das profundidades terrestres onde tudo está todavia indiferenciado, o lugar onde a dualidade se encontra em estado latente. É nesse nível onde se encontram o fruto da virtude da Esperança, já que ele contém a paz, o repouso verdadeiro. O peregrino espera se encontrar aí consigo mesmo. Surgido da terra, ele sabe que a ela retornará um dia. O peregrino vem do mundo exterior onde essa dualidade é ativa e onde os opostos se combatem e se separam por vezes, perfeita imagem do combate que se desenvolve, de ordinário, na alma do homem. Mas veio aqui para ascender ao terceiro nível, o nível superior, o nível celeste onde os opostos são “reconciliados”, onde a dualidade se reabsorve na unidade, já não mais diferenciada senão plena e viva. É o nível da vitória do homem sobre o homem.

Texto revisado por Cris
Publicado dia 10/5/2007

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